Ttulo: O caador de iluses.
Autora: Barbara Delinsky.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1988.
Ttulo Original: TWELVE ACROSS.
Gnero: Romance.
Digitalizao: Dores Cunha.
Correco: Rosngela do Nascimento.
Estado da Obra: Corrigida.
numerao de pgina: rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor, 
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Barbara Delinsky
O caador de iluses
Leitura - a maneira mais econmica
de cultura, lazer e diverso.
TWELVE ACROSS
(c) 1987 Barbara Delinsky
The Temptation Books originalmente publicado
pela Harlequin Books, Toronto, Canad.
O CAADOR DE ILUSES
(c) 1988 - para a lngua portuguesa
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reproduo total ou parcial, sob qualquer forma. Esta edio  publicada atravs de contrato com a Harlequin 
Enterprises Limited, Toronto, Canad. Silhouette, Silhouette Intimate Moments so marcas registradas da Harlequin Enterprises B. V.
Traduo: Arlene Leal Maia
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 - 3 andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda. e impressa na Artes Grficas Guar S. A.

CAPTULO I
La Gates olhou desanimada para a dobradura de papel laminado azul que tinha nas mos.
- Isso no se parece em nada com um pssaro disse em voz baixa para a amiga que estava a seu lado.
Vitria Lesser que, compenetrada, tentava montar um pelicano, desviou a ateno para o trabalho de La.
- Claro que parece. Est na cara que  um pssaro.
- Ento, eu sou uma marmota! - La levantou os culos na esperana de que uma viso mope pudesse melhorar a aparncia da dobradura. No adiantou. Ela voltou a colocar 
os culos.
- Est timo, La. Qualquer um pode ver que  um pssaro.
- Para mim no passa de um monte de pontas de papel dobrado.
Segurando com cuidado o frgil objeto, Vitria virouo de um lado para o outro. Ela concordava com La, aquilo no se parecia em nada com um pssaro, mas era educada 
demais para diz-lo.
- Tem certeza de que montou direito a base? indagou.
- Tenho.
- Ento o problema deve ser com as dobras.
- Acho que o problema sou eu - emendou La.
- Deixa disso.
- Ou voc - La continuou dizendo  amiga. A ideia de fazer este curso de dobradura, ou origami, como voc diz, foi sua. Como  que pude me deixar convencer?
- At que foi fcil. Voc no cria palavras cruzadas? Origami no passa de uma espcie de quebra-cabea transposto para o papel. Um usa a cabea, o outro, as mos.
- Isso  verdade - concordou La.
- Senhoras? - La e Vitria levantaram os olhos para o professor que as encarava com ar reprovador. Acho que agora podemos dar incio  montagem do sapo. Algum 
tem alguma dvida em relao ao pssaro?
La fez que no com a cabea, reprimindo um gemido. Um sapo?
Vitria sorria a seu lado, pronta para continuar com o envolvente trabalho. Porm, na hora em que a aula terminou, j no havia mais sombra de sorriso em seus lbios.
- Venha, vamos tomar um caf - Ela pegou La pelo brao. - Esta aula quase me deixou louca. 
Assim que se sentaram numa pequena cafeteria, nal Terceira Avenida, Vitria perguntou, sem rodeios:
- Alguma coisa est preocupando voc. O que ? La tirou os culos, colocando-os sobre a mesa. As
lentes haviam ficado embaadas no momento em que entraram na cafeeria, devido  mudana de temperatura.
- Meu sapo tambm no deu certo, no ?
- Faltou concentrao. Sua mente estava em outro lugar. Posso ser indelicada o bastante para perguntar onde?
La no conseguiu segurar o riso. H mais de um ano que conhecia Vitria, e j estava acostumada com a curiosidade da amiga. Mas, o que seria considerado indelicadeza 
se vindo de outra pessoa, era pura demonstrao de carinho da parte de Vitria. Ela era to perspicaz, realista e otimista, que bastava algum tempo a seu lado para 
animar qualquer pessoa.
- Adivinhe! - sugeriu La.
- Bem, no deve estar pensando no seu ex-marido porque j se divorciaram h dois anos. com certeza no  outro homem j que, apesar dos meus esforos, voc continua 
se recusando a arranjar um namorado. E duvido que o problema seja relacionado a trabalho. Na semana passada voc me disse que haviam renovado seu contrato e que 
suas palavras cruzadas esto vendendo como nunca. O que nos deixa como ltima opo seu apartamento. Por acaso o proprietrio est querendo aumentar o aluguel? - 
Vitria indagou, sabendo o quanto La adorava o antigo e espaoso apartamento onde morava desde o divrcio.
- Pior!
- Est pensando em vender?
- J est praticamente vendido. Vo construir um condomnio no lugar.
- Quando?
- Logo, logo - La respondeu desanimada. - Duvido que eu consiga outro apartamento to bom quanto aquele. Os prdios antigos com vista para o rio so muito procurados 
porque recebem luz direta. E, mesmo que ainda houver algum para alugar, duvido que eu possa pagar; os preos esto altssimos!
- Isto  Nova York!
La segurou a xcara de caf com ambas as mos, como que tentando aquec-las.
- Desde que aluguei este apartamento, h dois anos, os aluguis do bairro dispararam. S o consegui por um preo razovel porque me dispus a fazer uma reforma. O 
lugar era um horror, mas a vista era... inefvel.
- Inefvel? - Vitria repetiu. J estava acostumada com os termos complicados que a amiga usava para se expressar. Afinal, que outra coisa podia esperar de uma autora 
de palavras cruzadas?
- Indescritvel. Ah, no  justo, Vitria. Durante semanas a fio eu raspei e lixei as paredes e tetos, depois pintei tudo com o maior cuidado, e agora que est finalmente 
em ordem... - Ela deu um suspiro de frustrao. - Eu sabia que um dia isso acabaria acontecendo; s no pensei que fosse agora.
Vitria compartilhava a tristeza daquela que j se tornara uma boa amiga. Elas haviam se conhecido um ano atrs na biblioteca pblica e, apesar dos vinte anos de 
diferena de idade, tinham vrios interesses em comum. Vitria apreciava o bom senso e o jeito tranquilo daquela jovem mulher de trinta e trs anos. Juntas, iam 
a peas de teatro, experimentavam a comida dos novos restaurantes da cidade, faziam cursos no s de orgami, mas tambm de papel mach, cultura russa e bale.
Vitria passara a conhecer La muito bem. Sabia o quanto ela havia sofrido com um casamento infeliz e que, por trs da aparncia urbana e moderna, se escondia uma 
moa tmida, vulnervel e solitria. Perder o apartamento do qual ela tanto gostava no devia estar sendo nada fcil.
- Olhe, querida, eu ficaria muito contente se aceitasse
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um emprstimo para dar de entrada para a compra do apartamento.
La pousou a mo sobre a da amiga, impedindo-a de prosseguir.
- Voc sabe que no me far falta - insistiu Vitria.
- Eu no poderia, Vitria. E no  uma questo de princpios;  a quantia envolvida que me impede de aceitar. Eu teria de lhe pagar mensalmente o emprstimo junto 
com a prestao e isso significaria ter de me privar de uma srie de coisas durante anos...
A dvida poderia ser saldada em menos tempo, porm La levava uma vida confortvel e no pretendia mudar seus hbitos. Gostava de poder comprar uma bela roupa nova, 
um par de sapatos importados ou um trabalho de um artista iniciante. Todo o dinheiro que gastava era fruto de seu trabalho e ela no via mal nenhum em gast-lo em 
coisas que lhe dessem prazer. O banco, entretanto, classificaria tais gastos como suprfluos.
- Mas voc no precisa ter pressa em me pagar.
- Voc estaria fazendo um mal negcio.
- E da? O dinheiro  meu, o negcio tambm...
- E quanto  nossa amizade? Eu estaria me aproveitando dela.
- Sou eu quem est oferecendo! La balanou negativamente a cabea.
- Obrigada, mas no posso aceitar.
Vitria abriu a boca, mas voltou a fech-la sem dizer uma palavra. Estava para sugerir que La pedisse o dinheiro emprestado a Richard. Eles haviam sido marido e 
mulher e, como La no tinha famlia, parecia uma opo vivel. Ele possua um bocado de dinheiro e, infelizmente, uma nova esposa. No entanto, o orgulho de La 
a impediria de pedir-lhe qualquer coisa.
- O que pretende fazer? - indagou Vitria.
- Procurar outro lugar para morar. Nunca conseguirei outro apartamento charmoso como aquele, ento terei de me contentar com o que aparecer.
- Tem certeza de que quer continuar morando em Nova York? Seria muito mais fcil encontrar um lugar cheio de charme fora daqui.
La considerou a ideia.
- Mas eu gosto de Nova York.
-  porque est acostumada. Sempre morou aqui. Talvez tenha chegado a hora de mudar de ares.
- No sei...
- Pense como seria bom para voc. Lugar novo, pessoas diferentes, lojas novas, cursos...
- Est tentando se ver livre de mim?
- E perder minha companheira de programas fora do comum? Claro que no! Mas estaria sendo egosta se no a incentivasse a procurar coisas novas. Uma parte de voc 
adora experincias diferentes; a outra, tem medo. Voc  jovem, La, tem a vida inteira pela frente.
- E existe lugar melhor para isso do que Nova York? Esta cidade  multifria...
- La, por favor, no d para voc falar como qualquer outra pessoa?
- Quero dizer que aqui h oportunidades diversas. Se no tiver experincias variadas em Nova York, onde mais as teria?
- Provavelmente, em qualquer lugar. Talvez lhe fizesse bem uma mudana de ares... - A mente de Vitria j comeara a elaborar um plano. - Quem sabe voc gostaria 
de... - Ela balanou a cabea. - No, no, acho que no gostaria.
- Do qu?
- Esquea.
- Em que estava pensando? - La perguntou curiosa.
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Vitria levou um minuto pensando, antes de responder. A demora no era s para promover um certo suspense. Ela detestaria ver algum a quem adorava em uma situao 
difcil. No entanto j bancara o cupido em outra ocasio e tudo correra bem.
- Eu tenho uma casa num local afastado - disse em voz alta.
- Aquela ilha particular?
- Tambm tenho essa, mas estava pensando em outra. - Na ilha, La ficaria completamente isolada, e essa no era a inteno de Vitria. - Possuo um chal em New Hampshire, 
que meu falecido marido comprou para suas caadas. Estive l algumas vezes depois que ele morreu, mas  um lugar quieto demais. - Ela meneou novamente a cabea. 
- No, voc tambm acharia tranquilo demais por l. Est acostumada com a cidade.
- Conte mais.
- Voc no vai gostar.
- Conte, Vitria.
Mais uma vez, Vitria fez uma pausa. Desta vez para causar impacto.
- A cabana fica num bosque, entre as rvores, e  pequena.
- Continue.
- Bem, h uma sala de estar e um quarto. A cidade mais prxima fica a cinco quilmetros de distncia. Voc ia odiar, La.
La, porm, no estava to certa de que no gostaria. Ficara intimidada com a possibilidade de ter de se mudar para os subrbios, mas algo assim rstico... Era uma 
possibilidade a ser considerada.
- S que no tenho dinheiro para comprar esse chal.
- No est a venda - Vitria apressou-se em responder. - Mas eu terei prazer em lhe emprestar.
- Alugar - corrigiu-a a amiga.
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- Est bem, posso alug-lo a voc.  exatamente do que precisa at decidir se quer ou no se mudar de Nova York. Seria uma espcie de teste.
- H outros moradores por perto?
- S na cidade. No so muitos e, lembre-se, esse pessoal do interior costuma ser fechado.
Melhor assim, pensou La. Mas em voz alta comentou:
- Para mim est timo. Desde que tenha meus livros e mquina de escrever, posso perfeitamente fazer meu trabalho num chal nas montanhas.
- Lembra que me falou que desejava aprender a tecer? A mais ou menos vinte quilmetros dali existe uma comunidade de artistas; quem sabe um deles concorde em lhe 
dar algumas aulas? - Vitria considerou se devia ou no comentar acerca de Garrick. No, por enquanto no diria nada sobre ele.
La estava sorrindo; com certeza ficara satisfeita com a descrio do lugar.
-  bem diferente de Nova York - Vitria voltou a lembrar-lhe.
- Eu sei.
- A mudana seria radical.
- J entendi.
- Dez minutos atrs voc disse que no queria se mudar daqui.
- Mas desde que vou ficar sem lugar para morar, acho que uma mudana ser inevitvel.
- Bem, voc poderia procurar outro apartamento!
- Poderia, sim. i
- Ou mudar-se para os subrbios.  La balanou a cabea resoluta, e os cabelos negros
se enroscaram na gola da malha de l.
- Quero que pense bem no assunto, La. Ser uma
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mudana drstica - Vitria exclamou, satisfeita por ver que seu plano estava dando certo.
- Mas no ser irrevogvel. Se em uma semana eu no tiver me adaptado,  s fazer as malas e voltar. Agora me conte mais sobre a cabana;  muito rudimentar?
Vitria no pde conter o riso.
- Se tivesse conhecido meu marido, no teria perguntado uma coisa dessas. Ele jamais viveria em um local considerado rudimentar. E, quanto a mim, voc me conhece. 
No sou do tipo que gosta de pouco conforto, no ?
La j tivera a oportunidade de conhecer o apartamento de Vitria, na Park Avenue. Era espaoso, elegante, suntuoso at. Tambm j fora hspede da amiga na casa 
de praia em Long Island. Mas uma cabana nas montanhas era bem diferente da exclusiva praia ou de Manhattan. Vitria era rica, mas no esnobe, e o excesso de dinheiro 
podia tornar as pessoas um tanto quanto excntricas. La queria saber todos os detalhes.
- O chal  todo equipado? Tem geladeira, fogo?
- Da ltima vez que estive l, sim - Vitria declarou. - Olhe, no tome uma deciso agora. Pense um pouco mais. E quanto  sua moblia? Vai ter de guardar em algum 
depsito.
- Isso no ser difcil.
- Ah, mas que coisa aborrecida!
- Aborrecido foi ter perdido meu apartamento. Alm do mais, se eu no me der bem em New Hampshire, no terei de me preocupar com os mveis enquanto estiver
procurando por outro lugar para morar.
- O quarto verde estar sempre a sua disposio. La sorriu.
- Estava esperando que voc oferecesse. Embora no pudesse aceitar um emprstimo em di nheiro,
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ela no se sentiria mal em aceitar a hospedagem na casa de Vitria, onde, inclusive, j passara unia ou duas noites.
- Eu jamais me perdoaria se, depois de haver convencido voc a ir para as montanhas, voc odiasse a vida no campo e, ento, ficasse sem ter onde morar. Na verdade,
Vitria preocupava-se com o que a amiga pensaria ao encontrar Garrick. Bem, da outra vez que seguira seus instintos tudo correra bem, e Deirdre e Neil viviam felizes 
e muito bem casados. Agora era a vez de se preocupar com La: alta e esguia, com os cabelos negros cortados em estilo chanel, com franja espessa e os culos de aro 
vermelho. Quando Garrick a conhecesse...
- Eu aceito - La declarou.
- O quarto verde?  claro, querida.
- No, o chal. - Embora no fosse impulsiva, La sabia muito bem o que queria. Quando alguma coisa lhe agradava, no era mulher de demorar para se decidir. O chal 
de Vitria parecia a resposta para o problema que vinha lhe atormentando. L, ela teria tempo para pensar e resolver quanto ao futuro. - Agora s temos de acertar 
o aluguel.
Vitria fez um movimento com a mo, querendo deixar o assunto de lado.
- No  preciso ter pressa. Discutiremos isso mais tarde.
- Vitria, fao questo de lhe pagar um aluguel. Seno, nada feito.
- Est bem, querida.  que agora no tenho ideia de quanto pedir. Por que no fazemos assim: voc vai at l, v em que estado se encontra o chal, e me paga o quanto 
achar que vale?
- Preferia pagar adiantado.
- E eu prefiro esperar.
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Voc est sendo pertinaz.
- Eu sei - declarou Vitria, sem ter a menor ideia do que a palavra significava.
- Est bem, vou fazer o que me pede. Mas, se voc no aceitar o dinheiro depois...
- Acredite em mim, La, acredite em mim...
O entusiasmo de La crescia dia a dia. Ela mesma chegava a se espantar com isso, j que era uma pessoa essencialmente urbana. Era a primeira vez que uma mudana 
assim to radical lhe despertava o interesse. Ficou imaginando se isso teria algo a ver com a idade; talvez a idade lhe houvesse trazido maior audcia. Ou desespero. 
No, no iria ficar pensando nisso. com certeza estava apenas se rebelando contra o modo de vida que levava desde seu nascimento.
H muitos anos no saa de frias, quanto mais para um local remoto. Lembrava-se de pequenas escapadas junto com os pais para Cape Cod quando era criana, das dunas 
de areia e dos passeios de barco. As viagens que fizera com o marido estavam longe de ser relaxantes. Richard pensava constantemente no trabalho, e nunca encontrava 
tempo para ficarem realmente a ss.
Mas no era no ex-marido que La pensava enquanto terminava de arrumar as coisas para a viagem. Ela tentava entender melhor a estranha fora que lhe dizia ter escolhido 
o rumo correto para sua vida. A certa altura passou a relembrar a conversa que tivera com Vitria na noite anterior, durante o jantar de despedida que a amiga insistira 
em lhe oferecer.
Haviam passado boa parte da refeio conversando sobre banalidades; foi apenas durante a sobremesa que Vitria tocou no assunto da viagem.
- Est mesmo resolvida a ir? - perguntou Vitria.
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- Pode apostar que sim.
Durante as ltimas trs semanas Vitria se sentira um pouco culpada por no ter contado tudo para La, em relao ao chal. Embora estivesse fazendo tudo pelo bem 
da amiga, no podia deixar de sentir um peso na conscincia. Apesar de suas boas intenes, reconhecia a possibilidade de La ficar furiosa ao descobrir tudo.
- Tem certeza? - ela insistiu.
- Tenho.
- L no tem ar-condicionado.
- Tudo bem.
- Nem telefone.
- Voc j me disse - comentou La com um sorriso. - Duas vezes, por sinal. Eu lhe telefonarei da vila, assim que estiver instalada.
- J levaram sua moblia para o depsito?
- Hoje de manh.
- A cama tambm? E onde vai dormir esta noite?
- No cho - E, antes que Vitria pudesse falar novamente, La completou: - E, obrigada, no quero ir dormir na sua casa. Ainda tenho umas coisinhas para arrumar. 
Depois,  s pegar o carro e partir.
Uma noite no cho! Vitria se sentia mais culpada do que nunca, porm, pela expresso no rosto de La, sabia que no adiantaria insistir.
- E que tal o carro? - indagou apreensiva, pensando no automvel usado que a amiga comprara uns dias antes.
- Est perfeito.
- Tem certeza de que pode dirigi-lo?
- Claro!
- Mas voc no guia h anos! E agora vai pegar a estrada sozinha...
-  como andar de bicicleta, a gente nunca esquece  No foi voc mesma quem me disse isso na semana passada?
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Bem, o que est feito, est feito. La no pretendia mudar de ideia. Agora... que Deus a protegesse!
Vitria deu um longo suspiro e retirou dois envelopes da bolsa.
- Instrues para voc chegar ao chal - ela disse, apontando para o envelope de cima. - Pedi para minha secretria datilografar; est bastante detalhado.
Em silncio, observou La abrindo o envelope e lendo as instrues. Notando-lhe as sobrancelhas franzidas, adivinhou que ela chegara ao pargrafo final.
- Esse tal de Garrick Rodenhiser  um caador. A cabana dele fica a alguns quilmetros da minha, mas existe um atalho pelo bosque:. que voc poder usar em caso 
de emergncia, sem dificuldade.  um bom homem; lhe ajudar em qualquer necessidade.
- Nossa, at parece que voc espera que eu precise de ajuda! - murmurou La, enquanto relia as instrues.
- No.  que eu confio em Garrick.
- Bem - La voltou a dobrar o papel e guard-lo -, estou certa de que no precisarei de nada.
- E este - declarou Vitria, estendendo o segundo envelope -  para Garrick. Pode entreg-lo, por favor?
La tomou a carta nas mos, virando o envelope opaco onde o nome do caador fora escrito com a caligrafia caprichada de Vitria.
- Uma carta de amor? - ela brincou. - No consigo imaginar voc com um caador.
- Caadores podem ser timas pessoas.
- E h muitos por l?
- Alguns.
- Eles no so agressivos? - indagou.
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- Bem... - Vitria riu.
- So ou no so?
- No muito.
- Ainda bem. Sabe, acho que esta viagem ser mui to educativa.
Enquanto dirigia com cuidado o automvel atravs do trfego intenso, La pensava. O carro estava completamente lotado com roupas e vrios itens essenciais, alm 
de caixas com livros, um gravador e fitas cassete. Ela pretendia levar adiante vrios projetos que a manteriam ocupada, isso sem falar nas palavras cruzadas que 
criaria.
Tais pensamentos, ela sabia, eram uma espcie de mecanismo de defesa para no se lembrar do apartamento de que tanto gostava, onde se sentira independente pela primeira 
vez na vida. Junto com o apartamento, abandonara uma vida repleta de atividades: peas de teatro, cinema, restaurantes e museus que tanto apreciava.
Adorava a cidade de Nova York desde que amadurecera o suficiente para saber aproveitar o que ela lhe oferecia de bom. Embora o apartamento onde tinha vivido com 
os pais fosse simples para os padres novaiorquinos, sempre havia o Central Park, a Quinta Avenida, o Rockefeller Center e a Washington Square.
Ah... lembranas, alguns poucos amigos, milhares de desconhecidos. Assim era Nova York. Bem, mas tudo continuaria por ali quando voltasse.
Endireitando o corpo no assento, La decidiu trocar o sentimentalismo pela realidade. E isso significava, no momento, evitar os txis que passavam velozmente pelo 
seu velho carro, e evitar os pedestres afoitos que no queriam esperar pelo sinal verde para atravessar as ruas.
O trnsito se encontrava surpreendentemente complicado
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 para aquela hora da manh e La no hesitava em gritar com os motoristas que "costuravam"  sua frente ou que a pressionavam para ir mais rpido tocando a buzina.
Logo, j se sentiria mais tranquila, ao deixar para trs a selva de concreto, pegando a rodovia em direo ao norte.
Era um dia ensolarado, raridade num ms de maro, o que La interpretou como um bom augrio. Embora houvesse levado consigo vrias roupas de frio, ficava satisfeita 
por estar vestindo uma cala de malha com uma blusa de l leve. Quanto mais se afastava da cidade, mais satisfeita consigo mesma ela se sentia.
s duas da tarde, faminta, parou o carro numa lanchonete da estrada e desceu, no sem antes pegar o casaco. O sol havia desaparecido por trs das espessas nuvens 
desde que entrara no estado de Massachusetts e o ar j estava um pouco frio. Como sabia ainda ter pela frente mais trs horas de viagem, e desejando chegar a seu 
destino antes do escurecer, La comeu rapidamente um hamburger, tomou um refrigerante, usou o banheiro e seguiu viagem.
O cu se tornava cada vez mais escuro at que, ao se aproximar de New Hampshire comeou a chover.
"Que bom augrio, que nada! ", La pensou, ligando todos os botes do painel at conseguir acionar o limpador de pra-brisa.
O tempo estava frio e mido e La agradeceu aos cus por ter lido as instrues dadas por Vitria at sab-las de cor. Abominava a ideia de ter de parar o carro 
no acostamento por um minuto que fosse. com o caminho bem decorado, poderia dedicar sua ateno inteiramente ao ato de dirigir.
Mesmo um motorista experiente necessitaria de toda sua habilidade para dirigir naquelas condies. La diminuiu a marcha, porm mesmo assim era difcil enxer
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gar a estrada. A gua e a lama espirradas pelos outros carros que passavam por ela dificultavam ainda mais a visibilidade. La deu um suspiro de alvio ao encontrar 
o desvio onde deveria virar, mas voltou a ficar tensa ao notar que era o nico carro a trafegar por ali, no podendo usar, portanto, as luzes traseiras dos outros 
automveis como guia.
Assim, ento, ela prosseguiu. Ao passar por um restaurante de beira de estrada considerou a possibilidade de parar por ali at que a chuva passasse. Decidiu, porm, 
que seria bem pior ter de seguir por uma estrada desconhecida, e chegar a um chal deserto, depois que tivesse escurecido.
Pouco depois, aproximando-se de um motel, pensou em passar a noite e seguir somente na manh seguinte. Mas, no, ela queria mesmo era chegar logo  cabana. Passar 
a noite naquele lugar no ajudaria a diminuir a falta que ainda sentia de seu apartamento.
 que ajudaria bastante seria o fim daquela chuva. E, quem sabe, um pouco de sol entre as nuvens? E vrias horas antes que escurecesse.
Nada disso aconteceu e, embora a chuva permanecesse estvel, o cu foi se tornando cada vez mais escuro e fechado.
Quando chegou finalmente  pequena vila que Vitria havia mencionado, La ficou mais animada. Entretanto a animao passou assim que tomou o caminho indicado pela 
amiga, passou pelos correios e viu o que lhe esperava pela frente.
Uma estradinha de barro, estreita, cheia de curvas que mal dava para dois carros. Nada de faixas demarcatrias, nem iluminao, muito menos placas de sinalizao.
Endireitando o corpo em frente  direo, esfregou os olhos quela altura cansados pelo esforo necessrio para ver a estrada  sua frente. S ento percebeu que
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se esquecera de marcar a quilometragem a partir do posto do correio. As instrues de Vitria diziam que ela deveria virar na entrada que ficava a trs quilmetros 
dali. Quanto j teria andado?
La seguiu devagar, procurando enxergar a grande pedra arredondada junto a uma velha rvore torta, que demarcava a entrada da estradinha que levava ao chal de Vitria.
Se ela passasse a entrada... No, precisava ter pensamento positivo. Vejamos, trs quilmetros a quinze por hora davam... doze minutos... H quanto tempo teria deixado 
a vila?
Quando j estava prestes a fazer meia volta e retornar ao posto do correio, a fim de comear de novo, desta vez contando a quilometragem, foi que La viu uma rvore 
torta junto de uma grande pedra arredondada. Ao lado, uma estradinha. Ou quase.
Comeou a falar baixinho consigo mesma, procurando no se deixar impressionar pelos galhos de rvore que batiam no carro. Se fosse um pouco mais medrosa, acharia 
que o matagal lhe estava sendo claramente hostil.
- Esta  uma terra abenoada, garota. As montanhas, a floresta... imagine isto tudo sob a luz do sol. Voc vai adorar!
O carro dava solavancos e jogava como nunca, e ficava cada vez mais difcil para La control-lo. Um dos pneus comeou a rodar em falso na lama, fazendo-a prender 
a respirao, suspirando ao ver que o automvel voltava a seguir em frente.
- S mais um pouco, vamos! Estamos quase chegando. Vamos, carrinho, no faa isso comigo!
A estrada crescia num aclive e, embora o carro no chegasse a morrer, ia to devagar que La teve medo de comear a descer a encosta de marcha a r. Inmeras vezes 
desejou ter tido a ideia de alugar um jipe ou uma
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caminhonete. Agora, no entanto, tudo que podia fazer era segurar com firmeza a direo daquele carro e tentar enxergar alguma coisa que no fosse barro e galhos 
de rvore.
La estava assustada. Os faris iluminavam o que parecia ser o caminho para o fim do mundo. De repente uma enorme poa lamacenta surgiu  sua frente, e ela pisou 
nos freios com fora. O carro deslizou no barro e quase parou.
"Volte, La, volte", ela pensava com o corao aos pulos. Isso, porm, no seria possvel. O automvel estava cercado pelo mato, e no havia como fazer meia-volta.
com todo cuidado, acelerava, evitando pensar que da prxima vez os freios poderiam falhar ou que o automvel de segunda mo talvez no aguentasse uma viagem to 
difcil. Tentou tambm no pensar nos animais selvagens que poderiam estar ali escondidos,  espreita. Mantendo uma velocidade baixa, porm estvel, prosseguiu at 
onde a estrada melhorava um pouco.
O caminho continuava ruim, mas o importante era que ali a estrada de terra era mais larga, o que fez La dar um suspiro de alvio. com o corao batendo forte, colocou 
o rosto mais para perto do vidro, procurando ver melhor. O chal deveria estar perto agora.
- No falta muito, calma, j est quase chegando...
E, de repente, sem que esperasse, a estrada pareceu haver sumido. La mal teve tempo de por o p nos freios e o carro escorregava por um declive, terminando por 
atolar fundo numa poa de lama.
Trmula, fechou os olhos, tentando se acalmar. com um suspiro profundo, abriu os olhos e o que viu a deixou imvel.
Durante trs semanas sonhara com a viso de uma cabana pequenina, porm charmosa. Uma chamin de um
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lado, janelas de madeira se abrindo para o jardim em frente. Aninhada entre as rvores do bosque, a cabana seria o prottipo do paraso no campo.
Em vez disso, era o prottipo do inferno. La piscou vrias vezes, tentando convencer-se de que aquilo no era alucinao.  sua frente jazia o que realmente fora
um dia uma charmosa e confortvel cabana nas montanhas.
- Meu Deus! - ela soluou alto - O que aconteceu?
Infelizmente, o que havia acontecido era bem claro. Houvera ali um incndio. Mas, quando? E porque Vitria no fora informada?
Os soluos que se seguiram eram tanto de desapontamento quanto de cansao e ansiedade. La sabia que precisava voltar rapidamente ao vilarejo antes que a noite casse 
de vez.
Tornou a ligar o carro, engatou a primeira e acelerou. As rodas patinaram na lama. Engatou marcha a r e tentou mover o automvel. Nada. Engatou primeira... marcha 
a r... primeira novamente, e repetiu a mesma coisa vrias vezes sem sucesso. Precisava voltar  civilizao, mas com certeza no seria naquele carro.
Encostando a cabea na direo, procurou respirar fundo. La Gates no era mulher de entrar em pnico. No o fizera quando os pais haviam morrido, nem quando perdera 
os bebs. Nem mesmo quando o marido declarara que ela no servia como esposa e a abandonara.
O que fizera em tais situaes fora chorar at sentirse aliviada, depois, reestruturara seus sonhos e levara a vida em frente. Era exatamente o que faria ali, s 
que no havia tempo a perder com lgrimas.
No poderia passar a noite no carro. Tambm no dana para voltar  cidade. Ningum sabia que estava ali, Portanto, no havia por que esperar socorro ento...
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Abrindo a bolsa, pegou a carta com as instrues que Vitria lhe entregara, e leu o pargrafo final, no qual mal havia antes passado os olhos. Sim, era verdade que 
prometera  amiga que iria at a cabana de Garrick Rodenhiser entregar o envelope endereado a ele, mas nunca pensou que o faria no meio da noite, durante uma tempestade.
Entretanto, procurar pelo caador parecia ser a nica alternativa de La. A chuva continuava forte e a noite se fechara sobre o bosque. Sem um guarda-chuva, uma 
capa ou uma lanterna, decidiu agir como se estivesse em Nova York e tivesse sido pega desprevenida no meio de uma chuva de vero: tudo o que precisava era dar uma 
corrida at o chal vizinho.
Releu mais uma vez as instrues. Olhando com ateno atravs do pra-brisa, conseguiu encontrar o caminho entre as rvores que supostamente a levaria at Rodenhiser. 
Tentando no se deixar impressionar pela escurido, tornou a guardar a carta; escondeu a bolsa debaixo do banco do carro, e apagou as luzes internas e os faris 
do veculo. Ento, com um longo suspiro, colocou as chaves no bolso do casaco, abriu a porta e saiu na chuva.
Imediatamente, sentiu os ps afundando na lama. Atnita, olhou para onde deveriam estar seus tornozelos e, com uma expresso de desnimo puxou um dos ps para cima. 
O sapato no subiu junto. Colocou outra vez o p na lama, procurou pelo sapato e puxou-o com a Ponta dos dedos.
Tentando se equilibrar, apoiou uma das pernas para onde esperava encontrar terra firme. Pronto, agora precisava repetir a operao com a outra perna. No havia tempo 
para pensar nos sapatos de couro que ela adorava, que agora estavam arruinados, assim como as meias de seda e o restante de suas roupas.
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Imaginando que seria uma corrida rpida at o vizinho, seguida de outra trazendo ajuda, La nem pensou em trancar o carro e saiu correndo atravs da passagem do
bosque.
Era aquilo o que Vitria chamava de atalho? A mata se fechara sobre o caminho que mal dava passagem para uma pessoa. No cho, poas de lama tornavam ainda mais difcil
sua empreitada, e La afundou vrias vezes os ps no barro, enquanto tentava seguir em frente.
Os minutos passavam, e ela sentia maior dificuldade em afastar os pensamentos nefastos e a vontade de chorar. com uma risada quase histrica, lembrou-se que uma 
corrida na chuva, em Nova York, no se parecia em nada com o que se passava naquele momento. Estava completamente molhada e com frio. As roupas encharcadas, agarradas 
no corpo, no lhe ofereciam proteo alguma e os cabelos pingando caam sobre os culos de lentes sujas. Alm disso, a tenso e o esforo da caminhada faziam seu 
corpo inteiro doer.
Pior, no havia nem sinal da cabana. Pela primeira vez desde que o carro atolara na lama, La se deu conta do quanto se encontrava s e vulnervel. Garrick Rodenhiser 
era um caador, o que significava que por ali havia animais selvagens. A ideia de que poderia ser atacada por um deles a fez tremer mais do que a chuva e o vento 
frio.
Subitamente, La perdeu o equilbrio e afundou no barro com um grito estridente. O pavor a fez levantarse num segundo e ela seguiu em frente, chorando.
Vrias vezes perdeu os sapatos e, se no fosse o fato de ser quase impossvel seguir de meias ou descala, os teria deixado para trs. Mais duas vezes ela tornou 
a cair, iritando de dor na segunda vez ao sentir alguma coisa Pontuda arranhando-lhe a coxa.
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A certa altura achou que no conseguiria ir em frente. Seus braos e pernas tremiam, ela toda tremia e a respirao estava entrecortada. Precisava seguir. A agonia 
de ficar ali parada sem fazer nada era pior do que a dor que sentia.
Ao ouvir sons estranhos entre as rvores, o pnico aumentou. Virando-se rapidamente para trs, acabou batendo numa rvore e quase caiu outra vez. Tinha certeza de 
que estava chorando, mas era impossvel distinguir as lgrimas dos pingos de chuva que lhe caam no rosto.
Vrios pensamentos aterrorizantes lhe vinham  mente. E se no tivesse flego para continuar? Como podia saber se a cabana do caador ainda existia? E se Garrick 
Rodenhiser simplesmente no estivesse l? O que faria, ento?
De to desesperada que estava, La no viu o chal at que j se encontrava diante dele. Tornou a cair, desta vez sobre um caminho de pedras que levava  cabana. 
Limpando as lentes dos culos com as costas das mos, tentou enxergar atravs da chuva. Uma luz tnue podia ser vista atrs das persianas fechadas e ela se levantou, 
forando-se a atravessar a pequena distncia que a separava do chal.
J debaixo da varanda, estava protegida da chuva, mas seu corpo todo continuava a tremer. Suas pernas no suportavam mais tanto esforo. Escorregando o corpo at 
o cho, encostou-se na porta e, procurando por um ltimo resqucio de fora, bateu com o cotovelo na porta. Ento, abraou os joelhos e ficou esperando.
Um minuto se passou e ningum foi atend-la. O ar frio da noite parecia congel-la at os ossos, e com um esforo quase sobre-humano tornou a bater.
A porta, ento, foi aberta em questo de segundos. Esgotada, La levantou os olhos e atravs das lentes molhadas pode ver uma silhueta enorme.
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- Eu... - ela tentou falar - eu... A pessoa no se mexeu.
- Eu sou... preciso... - A voz de La mal saa da garganta.
Devagar, a pessoa abaixou-se, tentando ouvir o que ela lhe dizia.
- Vitria me mandou - conseguiu sussurrar. - Eu tenho tanto frio...
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CAPTULO II
Garrick Rodenhiser teria rido ante a declarao de La, se a criatura enrolada no cho  sua frente no fosse pattica. Vitria podia ser excntrica, mas no lhe 
mandaria uma mulher. Sabia o quanto ele valorizava sua privacidade, e por respeitar esse lado de sua personalidade  que haviam se tornado amigos.
Porm, aquela moa encharcada at os ossos, coberta de lama e, pelo modo como tremia, quase morta de frio, era mesmo digna de pena.
Bem, fosse l o que houvesse levado a moa at sua cabana, no podia fechar a porta e deix-la do lado de fora.
- Entre - ele falou, pegando-a pelo brao para ajud-la a levantar-se.
- Eu estou imunda...
A mo forte apertou-a com mais fora e ela se deixou ajudar. Suas pernas estavam doloridas e machucadas,
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e no tinha certeza se conseguiria se levantar sozinha. Assim que ficou de p, Garrick a largou, dando um passo para o lado a fim de que pudesse entrar no chal.
La deu um passo para dentro da sala aquecida pela lareira e imediatamente uma poa de lama se formou sob seus ps. Ela tirou os culos e tentou limp-los sem sucesso 
no casaco sujo. Olhando em volta, no distinguiu direito o que via.
- Suas roupas no so muito adequadas para este tempo, no ? - ele falou, numa voz quente e profunda.
La voltou os olhos para o caador e, embora no pudesse enxergar bem por causa da miopia, no lhe era difcil perceber o quanto era alto: devia ter mais de um metro 
e noventa.
- Voc  Garrick Rodenhiser? - A voz dela soou rouca e trmula.
O homem fez que sim.
Tudo o que podia ver era que as roupas dele eram escuras e que usava barba. Se ele era quem dizia ser, ento tudo estava bem, pois era amigo de Vitria.
- Preciso de ajuda - falou com dificuldade. - Meu carro atolou...
- Voc precisa  de um banho. - Garrick a interrompeu atravessando a nica sala do chal em largas passadas, e, abrindo a porta de um armrio, tirou duas toalhas 
limpas.
Embora no soubesse quem era a hspede inesperada, tinha de ajud-la pois, no s estava tremendo muito, como estava fazendo a maior sujeira em sua sala. O quanto 
antes ela estivesse limpa e aquecida, mais cedo poderia explicar o que acontecera.
Acendendo a luz do banheiro, Garrick colocou as toa lhas sobre o armrio da pia, fazendo ento um gesto para que La entrasse.
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- Aqui ter bastante gua quente, sabonete e xampu. La abaixou os olhos para as prprias roupas. Mal
podia reconhec-las.
- No cinema no  assim - ela exclamou.
- Como? - Garrick imaginou se a desconhecida no teria levado uma pancada na cabea.
- Naquele filme Thdopor uma esmeralda. Eles caem na lama e mesmo assim suas roupas no ficam deste jeito!
Como fazia quatro anos que Garrick no assistia a um filme, no havia comentrio a ser feito.
-  melhor se livrar dessas roupas. - Foi tudo o que ele disse.
- Mas no tenho outras. - O corpo de La tremia, seus dentes batiam de frio. - Minhas coisas ficaram no carro.
Garrick caminhou at o outro extremo do aposento, ocupado por uma imensa cama de casal e uma cmoda; abriu uma das gavetas, depois outra e voltou ao banheiro com 
uma pilha de roupas limpas, cuidadosamente dobradas.
Mais uma vez, fez um gesto para que La entrasse no banheiro e, quando o fez, com passos vacilantes, foi que Garrick notou que ela estava machucada.
- O que houve com sua perna?
La olhou para baixo e engoliu em seco. Nem mesmo a camada de barro que envolvia a cala, conseguia esconder o fato de que estava sangrando bastante.
- Eu ca.
- Em que bateu a perna?
- Em alguma coisa pontuda, no sei.
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Em silncio, observou Garrick ir at a parte reservada  cozinha e pegar um vidro de anti-sptico, gaze e esparadrapo. Em seguida, ele voltou ao banheiro e adicionou 
o material de primeiros socorros  pilha de roupas e toalhas.
- Agora tome seu banho - ele ordenou. - vou fazer um caf.
- Preciso de um conhaque.
- Sinto muito, mas no tenho conhaque.
- Usque?
- Desculpe.
- No tem nada alcolico?
Ele balanou a cabea, desejando ter alguma bebida forte para oferecer quela moa que, apesar do calor da cabana, continuava a tremer. Se ela realmente houvesse 
se arrastado pelo bosque como suas roupas rasgadas e o machucado da perna indicavam, era possvel que experimentasse os efeitos retardados do choque, e uma bebida 
seria indicada. Entretanto, no havia nada nem remotamente alcolico. Desde que deixara a Califrnia havia quatro anos, ele sequer vira uma garrafa de bebida.
- Caf, ento, est timo - La tentou sorrir, mas seu rosto parecia no obedec-la. Movendo-se com dificuldade, fechou a porta do banheiro. O aposento era surpreendentemente 
bem equipado, embora no houvesse uma banheira, como La sonhara. Era grande, claro e limpo.
- H um aquecedor na parede - Garrick informoua, por trs da porta fechada.
Ela o encontrou e o fez funcionar, evitando de propsito olhar-se no espelho. Aps colocar os culos sobre a pia, afastou a porta do enorme box e abriu a torneira. 
Quando a gua ficou bem quente, ela entrou. De roupa e tudo.
Que maravilha! A gua quente caindo sobre sua ca31
bea, espalhando-se sobre o corpo como uma cascata confortante. La ficou ali parada por muito tempo deixando-se envolver pela maravilhosa sensao, sem  importar
se estava gastando ou no muita gua. Afinal o caador lhe oferecera o banho e depois de tudo qu" passara, ela bem merecia aquele momento de prazer.
Consciente de que aps o banho teria de enfrentar situao delicada em que se encontrava, La resolveu es tender o banho ao mximo. Aos poucos a dormnck de seus
ps e mos comeou a passar e, no sem urm certa relutncia, La tirou as roupas. Quando todas a peas j estavam empilhadas num canto do box, passoi a esfregar 
o sabonete na pele e em seguida o xampu no; cabelos. Repetiu o processo uma, duas, trs vezes, mui to mais do que o necessrio, como se pudesse tirar de si mais 
do que a sujeira, tambm a sensao de terror que a havia dominado no bosque.
Ao terminar o banho, a dor em seu corpo havia se transformado num enorme cansao. Mais do que qualquer outra coisa, queria uma poltrona, um sof ou, melhor ainda, 
uma cama. Porm, ainda havia muito para ser feito. Enrolando uma das toalhas nos cabelos molhados, saiu do box e comeou a se enxugar. Uma dor aguda subiu por sua 
coxa ao tocar o ferimento. Aps lavar e secar os culos, La colocou-os para examinar o machucado.
Quase desejou no ter feito aquilo. O corte, tinha quase oito centmetros de comprimento e era feio o suficiente para causar-lhe uma pontada no estmago s de olhlo. 
Endireitando o corpo e evitando ao mximo olhar novamente para a ferida, esticou a mo para pegar as roupas que Garrick lhe emprestara. Vestiu a camiseta cinza e,
por cima, a camisa verde de flanela que lhe chega
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v quase aos joelhos. Ento, sentando-se sobre o vaso sanitrio, abriu o vidro de anti-sptico, molhou um chumao de algodo no lquido e apertou-o firmemente no
machucado.
Uma dor lancinante tomou conta dela que, soltando um grito, largou o vidro de remdio no cho.
Garrick, que se encontrava sentado junto  lareira, levantou-se imediatamente e correu para o banheiro.
com as mos apertando os joelhos, ela balanava o corpo para frente e para trs, esperando que a dor em sua perna diminusse.
- No pensei que fosse doer tanto - ela murmurou ao ver Garrick parado  porta.
Pegando o chumao de algodo que ficara no colo de La, ele voltou-se para fit-la.
- Aguente firme!
E com um movimento gentil, aplicou o que ainda restava de anti-sptico na ferida. Momentaneamente sem flego, La agarrou a perna com as duas mos, tentando no 
tremer tanto.
- Pode deixar que fao isso - ela declarou, ao vlo pegar o material para curativo. O suor em seu rosto fizera com que os culos escorregassem sobre o nariz e La 
os colocou no lugar.
Ignorando o comentrio Garrick enrolou a gaze e colocou-a sobre o corte, prendendo-a com esparadrapo. Ao terminar, ele se abaixou, recolheu os cacos do vidro de 
remdio que se espatifara no cho. Levantando os olhos, fitou por instantes o rosto abatido de La, demorando-se um pouco mais numa das tmporas. Ento, usando o 
que restara de anti-sptico, desinfetou os arranhes que ela mesma nem havia notado.
Garrick voltou sua ateno para o punho fechado de
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La. Sem nem mesmo saber por que, ele abriu dedo por dedo, enquanto olhava para as marcas vermelhas que as unhas curtas haviam deixado na palma da mo. Ento, com 
um carinho inesperado, passou um dos dedos pelas marcas avermelhadas e levantou os olhos para ela. La no estava preparada para a fora luminosa daqueles olhos, 
que pareceram penetrar dentro de sua alma, aquecendo-a e, ao mesmo tempo, assustando-a por sua intensidade.
Os olhos castanhos lhe falaram de solido, de carncia e as mos fortes que envolveram as suas pareciam no pedir nada.
Garrick Rodenhiser no era afinal o velho e rstic" caador que ela havia imaginado. De todas as experin cias novas pelas quais havia passado naquele dia, a mai; 
inesperada era estar s sentindo atrada por ele.
Incapaz de aceitar o fato de se sentir atrada por un homem totalmente estranho, La abaixou o olhar. Ime diatamente, Garrick soltou-lhe as mos e ficou de p,
- No mexa nos cacos de vidro - ele ordenou. Depois que voc sair eu limpo tudo. - E, virando, saiu do banheiro, voltando para perto da lareira.
Ele continuava perto do fogo quando ouviu a porta do banheiro sendo aberta por La.
com movimentos estudados, ele endireitou o corpo e se virou, pronto para saber os motivos que haviam trazido aquela mulher at a cabana no bosque. No gostava de 
intrusos e ainda menos dos que vinham roubar-lhe a paz de esprito.
Garrick s no estava preparado para o que viu, muito menos para o que sentiu ao v-la. Todo seu autocontrole se desvaneceu ante a viso daquela mulher da qual nada 
sabia, mas que o fazia tremer de desejo.
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Se o desejo fosse uma manifestao apenas fsica, Garrick no se sentiria to ameaado pela presena de La. Necessidades fsicas eram perfeitamente compreensveis, 
aceitveis at. Mas...
No que ela fosse de uma beleza espetacular. Os cabelos negros caam midos nos ombros e a franja espessa cobria as sobrancelhas. Entretanto o ar vulnervel, o modo 
como ela cruzara os braos sobre o peito faziam com que Garrick tivesse vontade de abra-la. Ele no entendia o porqu; no queria admitir, mas era isso que sentia.
- Eu lavei minhas roupas no banho - disse La, quebrando o silncio. - Tem algum lugar onde eu possa pendur-las para secar?
Garrick ficou aliviado com o tom casual da pergunta, o que lhe permitia mudar o curso de seus pensamentos.
- Acho melhor lav-las direito na mquina - ele respondeu, apontando para a rea destinada  cozinha.
Agora, com culos limpos e secos, La pde ver o que antes lhe passara despercebido. Ao lado da pia havia uma mquina de lavar e uma de secar roupas, assim como 
uma lavadora de loua e um forno de microondas. Cozinha e banheiros modernos e bem equipados... Garrick Rodenhiser levava uma vida rstica, mas s at certo ponto.
Aps pegar as roupas no banheiro, ela as colocou na lavadora e olhou esperanosa para o caf fumegante na cafeteira eltrica.
- Sirva-se. - Foi tudo o que Garrick falou. E continuou em silncio, enquanto La procurava por uma xcara.
- Tambm quer uma xcara? - ela perguntou, depois de ter encontrado uma caneca de loua.
- No.
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As mos de La tremiam ao servir o caf e, segurando a caneca com ambas as mos, caminhou at a janela, procurando ver atravs da abertura da persiana. A chuva continuava 
forte e, pelo barulho que fazia no teto da cabana, era fcil adivinhar que no passaria to cedo.
- H alguma chance de tirarmos meu carro de l ainda hoje?
- No.
- Incomoda-se se eu me sentar perto do fogo? Garrick afastou-se um pouco para o lado, cedendo
lhe espao no velho sof.
La sentiu o calor das tbuas largas que cobriam " cho sob seus ps descalos e sentando-se sobre as per nas, segurou a caneca com ambas as mos.
As chamas que danavam na lareira a manterian aquecida e a salvo por aquela noite. Pela primeira vez La podia ver claramente os perigos pelos quais passa r e o 
que ainda tinha pela frente. S poderia ficar ai aquela noite; seu carro dificilmente poderia ser consertado. O que faria, ento?
Mesmo que houvesse como consertar o carro, a cabana de Vitria j no existia e, junto com ela haviam desaparecido os planos de passar algum tempo isolada nas montanhas. 
Bem, sempre poderia procurar outro chal para alugar, s no sabia onde. lambem poderia arrumar um quarto num hotel, porm no por muito tempo, j que no estava 
disposta a gastar as economias com despesas desse tipo. A ltima opo seria voltar a Nova York, mas La relutava ante tal ideia. Nunca, nem nos piores momentos 
de sua vida, estivera sem lugar para morar.
O sof rangeu; era Garrick que se mexia. com os culos
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 limpos, La podia agora ver detalhes que antes lhe haviam passado despercebidos. Tambm podia ver como Garrick Rodenhiser era bonito. Os ombros largos e o peito
bem desenvolvido se delineavam pela malha de gola olmpica preta, enquanto que a cala de veludo escura moldava os quadris estreitos e as pernas longas. Ele usava 
uma barba bem aparada e, embora os cabelos de um loiro escuro fossem mais longos que o habitual, tinham uma aparncia limpa e bem tratada.
O nariz reto e os lbios finos ressaltavam a masculinidade daquele homem, porm eram os olhos castanhosclaros que pareciam concentrar toda sua fora interior; olhos 
repletos de perguntas ainda no formuladas e pensamentos nunca revelados.
La custava a acreditar que ele fosse um caador. Garrick simplesmente no se encaixava no papel. Primeiro, havia todos aqueles aparelhos domsticos, que revelavam 
uma certa sofisticao. Depois, a maneira como falava, embora raramente o fizesse, demonstrava que vinha de outro mundo. E os olhos... ah, os olhos, eram experientes, 
cnicos, inquisitivos.
La ficou imaginando de onde ele teria vindo e o que o levara at l; o que pensava sobre sua chegada inesperada e que tipo de homem seria no que dizia respeito 
s mulheres.
Garrick, por sua vez, tinha pensamentos bastante parecidos com os de La. Em seus quarenta anos de vida j tivera mais mulheres do que podia se lembrar e a maior 
parte do tempo importara-se mais com a quantidade do que com a qualidade das mulheres com as quais se relacionara. Ele usara e se deixara usar at que a habilidade 
sexual da qual antes tanto se orgulhara, passara a ser
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um ato mecnico, vazio, que se refletira em outros pectos de sua vida.
Ilido, entretanto, terminara havia quatro anos. primeiros tempos ali em New Hampshire se mantive longe das mulheres; seu nico objetivo era forjar sua ex tncia 
como a de um verdadeiro ser humano.
Dia a dia acomodara-se  nova vida. Ocasionalme te, ento, tivera uma mulher, mais para provar a si me mo que continuava sendo um homem normal do qi por necessidade. 
Raramente sara duas vezes com a me ma garota e nunca levara uma  sua casa.
La era a primeira, e Garrick no a havia convidad Na verdade, queria que ela se fosse o mais rpido poss vel, mesmo sentindo, ao v-la sentada olhando o fogo bebericando 
o caf, apertando os braos contra o cor p como para se proteger, uma necessidade premente de contato humano.
Pensou se j teria alcanado um novo estgio na vida, se j estava bem consigo mesmo, pronto a compai tilhar nas experincias com algum mais.
Compartilhar... Precisava aprender a compartilhar. Ele se acostumara a fazer o que queria e quando queria. No estava certo de sua capacidade em mudar tal aspecto
de sua personalidade ou se preferia at continuar como sem pr fora.
S no havia como negar aquela vozinha interior qu" gritava dentro dele, quando olhava para La...
- Qual  seu nome? - ele perguntou.
A voz profunda e inesperada fez com que ela dess um pulo no sof.
- La Gates.
-  amiga de Vitria?
- Sou.
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Garrick voltou os olhos para o fogo. S quando La desviou o olhar, certa de que ele no lhe faria mais nenhuma pergunta,  que voltou a analis-la.
La Gates, amiga de Vitria. Ele podia pensar em uma dezena de possibilidades, embora nenhuma delas o agradasse. Podia mesmo ser uma amiga, ou melhor, uma conhecida 
de Vitria que de algum modo ficara sabendo sobre ele e decidira, sabe-se l por que, encontr-lo. Ou ento, poderia estar mentindo, usando o nome de Vitria para 
conseguir saber o que at aquele momento ningum descobrira. Ou, quem sabe, ela dizia a verdade, o que significava ter de descobrir o que Vitria teria em mente 
ao lhe mandar uma mulher.
Apenas dois fatos pareciam claros: os dois estavam presos naquela cabana e ela passara por maus bocados para chegar at ali. Mesmo sentada ante o fogo, La no parava 
de tremer.
Garrick se levantou e foi pegar um cobertor que ficava dobrado sobre a cama. Depois, abriu-o e colocou-o em volta dos ombros de La em silncio. Ela agradeceu em 
voz baixa, puxando a coberta em torno do pescoo.
Desta vez, ao sentar-se novamente no sof, Garrick o fez com um vago sentimento de satisfao. Nunca fora homem de dar, de oferecer. Sua vida tinha sido to repleta 
de egosmo e pouca ateno  opinio alheia que ali, um gesto simples como o de oferecer agasalho a algum, lhe agradava de modo interessante... encorajador... intrigante.
As horas se passaram e o nico barulho que se ouvia era o da chuva batendo no telhado, fora o crepitar do fogo na lareira. De vez em quando, Garrick colocava mais 
lenha e atiava o fogo. La foi se acomodando no sof e, depois de um tempo, pela respirao profunda
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e os dedos segurando mais frouxamente o cobertor, GE; rick percebeu que ela havia adormecido.
Vendo-a dormir, ele voltou a sentir necessidade a abraar e ser abraado, de proteg-la. Sua mente feri imaginava-a como sendo uma pessoa sem laos ligando ao passado, 
sem planos para o futuro, cuja nica nece sidade fosse um pouco de calor humano. Era um sonhe  claro, mas refletia bem tudo o que ele tentara esco der de si mesmo 
at aquela noite. Tais pensamentos ir dicavam que na vida que ele to bem moldara para mesmo, faltava algo. Algo forte e estranhamente p deroso.
Garrick levantou-se e ficou olhando para o rosto de La semioculto pelo cobertor; descobriu-o e analisoulhe as feies iluminadas apenas pelo fogo j quase extinto 
da lareira. Parecia to inocente que, por um momento, desejou que isso fosse verdade.
Incapaz de controlar-se, Garrick passou de leve a mo pelo rosto delicado, sentindo sob os dedos a pele macia e morna, devido ao calor da sala. Os cabelos, j secos, 
eram negros e espessos e a franja comprida deixava o rosto ainda mais delicado. Ela no era linda, nem sexy, porm havia ali uma beleza que no podia negar. Se pelo 
menos fosse to inocente quanto aparentava...
No entanto, no faria mal nenhum acreditar nisso por uma noite...
com cuidado, para no acord-la, pegou-a no colo, com cobertor e tudo, e a carregou at a cama. Depois de acomod-la, Garrick deu a volta, despiu-se e enfiouse embaixo 
das cobertas.
Deitado de costas, voltou a cabea para o lado de La, embora no pudesse ver mais do que algumas mechas de cabelo. No possua um corpo cheio de curvas, isso
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ficara bvio sob as roupas molhadas; tambm no era pesada, ele notara ao carreg-la no colo. Porm, mesjiio inteiramente coberta de lama sentira-se desesperadarnente 
atrado por ela.
Olhos fixos na escurido, Garrick ajeitou-se na cama uma, duas vezes; cada vez chegando um pouco mais para perto dela. E, na escurido, onde ningum poderia vlo, 
sorriu e adormeceu em seguida.
La acordou na manh seguinte sentindo o aroma de caf fresco e bacon frito. Ainda de olhos fechados, ficou imaginando quem estaria em seu apartamento fazendo o 
caf da manh. S ento lembrou-se do que lhe acontecera no dia anterior, e abriu os olhos. A ltima coisa de que se lembrava era de ter adormecido no sof. No entanto 
estava na cama, e havia apenas uma cama na cabana de Garrick.
Garrick. Ela passou os olhos pela cabana, encontrando uma forma humana perto do fogo. Segundos depois, j de culos, identificou-a como sendo Garrick.
Sentindo cada msculo dolorido de seu corpo, La livrou-se das cobertas, ficou de p e seguiu para o banheiro. L, depois de se lavar e pentear os cabelos, pensou 
seriamente em voltar para a cama. O corpo todo lhe doa e, pelo barulho no telhado, a chuva continuava a cair. Sair na chuva, mesmo durante a luz do dia, era a ltima 
coisa que desejava fazer.
Porm, no poderia voltar para a cama. Primeiro, porque a cama no lhe pertencia; segundo, porque Garrick j a vira levantar-se e, por ltimo, porque precisava tornar 
decises.
Ao sair do banheiro, viu que ele j servira os dois pratos que havia sobre a mesa.
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- Sente-se - falou, sem demonstrar compaixo pe. Io rosto plido e os movimentos hesitantes dela. No im, portavam as fantasias da noite anterior. O dia chegara 
e ele queria algumas explicaes.
La sentou-se e passou a devorar os ovos mexidos, juntamente com quatro fatias de bacon, dois pezinhos do cs, um copo grande de suco de laranja e uma xca de caf. 
Estava se servindo da segunda xcara, quam percebeu que talvez houvesse abusado da hospitalidai de Garrick, ao comer daquela maneira.
- Desculpe - murmurou, olhando-o por cima e a borda da xcara. - Acho que eu estava mesmo co fome.
- No jantou ontem  noite?
- No. - J deviam ser mais de oito horas quand ela batera na porta de Garrick e, depois, nem pensai em comer, s em tirar aquelas roupas molhadas e aquecer. Ao 
lembrar-se das roupas, La se levantou Esqueci minhas roupas na lavadora...
- J esto secas. Eu as coloquei na secadora quan do acordei. Acho que no devia ter colocado o casac" de cashemere.
Era estranho pensar num estranho pondo suas rou ps para secar, sua roupa de baixo... Pior, ele a carrega r para a cama e haviam dormido juntos. Claro que na noite 
anterior no percebera nada, mas ali,  luz do dia, no havia como ficar indiferente  potente masculinidade que ele transmitia. Garrick projetava uma imagem rude 
e ao mesmo tempo civilizada. Recm-sado do banho, com os cabelos ainda midos, de camisa verde e cala de veludo marrom, ele estava lindo.
- O cashemere deve ter estragado muito antes de ter sido posto na lavadora - La comentou, voltando, ento,
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os olhos em direo  janela. - Quanto tempo acha qUe ainda vai durar a chuva?
- Vrios dias.
La encarou-o de olhos arregalados e tentou rir.
- Que boa notcia! - Ao ver que ele no ria da piada, deixou morrer o sorriso que tinha nos lbios. - Voc no est falando srio, no ?
- Estou.
- Mas preciso pegar meu carro.
- Onde o deixou?
- Perto do chal de Vitria.
- Por qu?
- Por que preciso do carro?
- No, por que est na porta do chal de Vitria?
- Porque eu aluguei o chal e s quando cheguei l  que vi... - ela interrompeu a frase devido ao modo provocativo como Garrick a olhava. Isso combinava com a maneira 
como ele estava sentado, recostado na cadeira, uma das mos sobre a perna e a outra brincando divertido com a caneca de caf.
- Quando abri a porta ontem  noite, voc me disse que Vitria a havia mandado.
-  verdade.
- E o que queria dizer com isso?
As palavras de La saam aos tropeos, devido ao nervosismo que comeava a sentir.
- Vitria me disse para procur-lo se eu tivesse algum problema. Acho que a cabana destruda pelo fogo e meu carro atolado  o que se pode chamar de problema, no? 
Agora terei de procurar outro lugar para ficar, porque meu apartamento...
- Vitria a mandou para o chal? - ele perguntou, medindo bem as palavras.
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La no gostou do tom de voz de Garrick.
- Por qu? H algum problema nisto?
- Sim.
- Qual?
- O chal de Vitria pegou fogo h trs meses. Por um minuto, La permaneceu em silncio, ento
perguntou.
- O que disse?
- O chal pegou fogo trs meses atrs.
- No pode ser.
- Mas .
Se fosse h trs dias, La poderia compreender. Trs semanas, at que poderia ser aceitvel, afinal ningum vivia no chal. Mas trs meses? com certeza algum devia 
ter avisado a proprietria h algum tempo.
- Est me dizendo que houve um incndio trs meses atrs e ningum avisou Vitria?
- Estou apenas lhe dizendo que o chal no existe h trs meses.
- E por que no contaram a Vitria? - ela indagou, impaciente.
- Contaram.
A raiva de La cresceu.
- No acredito.
Garrick a encarava com expresso de frieza.
- Eu mesmo telefonei a ela, e mostrei a cabana para o pessoal do seguro.
- Vamos telefonar agora mesmo para confirmar.
- No tenho telefone.
La no podia acreditar. Afinal, com todos os eletrodomsticos que ele possua... Foi ento que lembrou-se de Vitria dizendo que tambm no tinha aparelho te
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lefnico. Meu Deus, como ela faria o que fez, sabendo que no havia mais cabana alguma?
- Vitria no sabia do incndio! - ela exclamou.
- Sabia.
- Voc est mentindo.
- Eu no minto.
- Voc tem de estar mentindo! - La falou com a voz alterada. - Porque, se no estiver, isso significa que Vitria me mandou para c sabendo muito bem que eu no 
teria onde ficar. E isso  absurdo!
A xcara comeou a tremer nas mos de La, e ela a colocou sobre a mesa, apertando os braos em volta do corpo, num gesto que Garrick j notara na noite anterior.
Ele ficou em silncio, simplesmente estudando a confuso espelhada nos olhos dela.
- Vitria no faria uma coisa dessas - La murmurou, querendo acreditar nas prprias palavras. - H quase um ms que vem fazendo planos comigo para esta viagem. 
Mandei minha moblia para um depsito, notifiquei a companhia eltrica, a telefnica, meus amigos. Ela mesma me entregou intrues datilografadas, ensinando-me a 
chegar no chal... Chegou a rel-las a meu lado. No teria tido todo esse trabalho, nem me faria passar por tudo isso, se soubesse do incndio.
Garrick tambm achava difcil de acreditar, mas era a histria de La que o tornava ctico. A moa parecia confusa, mas talvez tambm fizesse parte da encenao. 
Bem, se fora atrs dele, havia conseguido encontr-lo. Estava em seu chal, vestindo suas roupas, comendo sua comida. Passara at a noite em sua cama, embora inocentemente. 
Se o que queria era bisbilhotar Greg Reynolds, estava conseguindo.
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- Quem  voc? - ele perguntou abruptamente. Ela levantou a cabea.
- J lhe disse: La Gates.
- De onde veio?
- De Nova York.
- Suponho que trabalhe num jornal, no ? - comentou, esperando por uma negativa imediata.
- Como adivinhou? - ela perguntou, e observou confusa a expresso enraivecida e os lbios de Garrick apertados sob a barba. - Voc j viu meu nome no jornal?
Bem, se ele fosse um aficionado por palavras cruzadas saberia muito bem de quem se tratava. La sempre encontrava admiradores de seu trabalho, fosse onde fosse.
- No leio jornais - ele declarou.
- Ento, tem um de meus livros?
- Ah, voc tambm escreve livros? - resmungou, agressivo, deixando La ainda mais atnita.
- Eu fao palavras cruzadas para um pequeno jornal semanal, mas tenho tambm vrios livretes publicados.
Palavras cruzadas? Era provvel, mas mesmo assim ela podia ser uma reprter...
- Por que veio para c? - perguntou Garrick.
- Porque perdi meu apartamento e, como no tinha para onde ir, Vitria sugeriu que eu alugasse o chal at resolver onde ficar de vez. Na hora me pareceu uma boa
ideia - sussurrou, abaixando o olhar para a mesa.
Garrijc no fez nenhum comentrio. No silncio que se seguiu, La relembrou os ltimos minutos de conversa. Depois, voltou a encar-lo.
- Voc no acredita no que estou dizendo. Por qu? Garrick no esperava tal franqueza e, ao v-la to confiante e
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vulnervel, ficou confuso. No podia dizer-lhe a verdade. Aps quatro anos escondendo a verdadeira identidade, no desejava contar tudo a uma estranha.
Levantando um ombro displicentemente, ele comentou:
- No  comum uma mulher vir morar sozinha por aqui. Veio sozinha, no ?
- Sim - La respondeu aps uma breve hesitao. Deus do cu, ser que havia um fotgrafo junto corn
ela?
- Tem certeza?
- Claro!
- Ento, por que hesitou antes de responder?
Os olhos dela faiscaram. No estava acostumada a ser interrogada daquele jeito.
- Quando voc passa a vida inteira numa cidade como Nova York, aprende a pensar duas vezes antes de dar certas informaes a um homem.  instinto. Vitria me disse 
que vocs eram amigos, e eu acreditei. At me pediu que lhe entregasse uma carta.
Garrick esticou a mo sobre a mesa e o leve sorriso em seus lbios s fez aumentar a atitude defensiva de La.
- Se a tivesse aqui comigo, j lhe teria entregue. Porm, est em meu carro, junto com minha bolsa e tudo o mais que possuo neste mundo.
- A no ser seus mveis - ele emendou, voltando a por a mo sobre a perna.
- Isso mesmo.
- E voc no pode ir at seu carro. Talvez no possa sair daqui por vrios dias.
La balanou a cabea, tentando afastar aquela ideia. No que ele fosse repulsivo, ao contrrio. No entanto, enquanto havia nele um lado gentil e agradvel, havia 
outro, cnico, que a assustava.
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- Mais tarde tentarei chegar ao carro.
- A no ser que a chuva passe, no vai a lugar algum.
- Tenho de ir.
- Como?
- Do mesmo jeito que vim para c. Se no quer me levar de carro, ento vou andando.
- No  que eu no queira, La - ele falou, chamando-a pelo nome pela primeira vez. - Eu no posso. Voc chegou em plena estao de chuvas. H lama por toda parte. 
Nenhum veculo conseguiria passar por essas estradas. - Levantando as sobrancelhas ele a estudou, enquanto coava a barba. - Me diga, que tal foi dirigir at o chal 
ontem  noite?
- Um inferno.
- E andar at aqui?
O olhar que La lanou, falava por si s.
- Bem, o tempo est ruim hoje, e ficar pior a cada dia. Nesta poca do ano a neve das montanhas derrete e vem direto para c. Quando a chuva comea, ento pode 
esquecer.
Mas La no estava disposta a esquecer.
- E se fssemos a p at o carro? Eu...
- Deixe-me dizer-lhe uma coisa - ele a interrompeu. - Nem um trator resolveria seu problema. J vi veculos desse tipo mais atolados do que carros de passeio.
- Mesmo assim vale a pena tentar.
- No vale.
- Vitria disse que voc me ajudaria!
- Estou ajudando. Eu lhe ofereo um lugar para ficar.
- No posso ficar aqui!
- No tem muita escolha, tem?
- No pode estar querendo que eu fique!
- E eu, por acaso, tenho escolha?
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com um gemido, La se levantou e caminhou at a janela. Ele estava certo; nenhum dos dois tinha escolha. Ela poderia sair na chuva e chegar at o carro, mas, e depois? 
com certeza mais tarde estaria batendo de novo na porta de Garrick, molhada, cheia de lama, exausta e humilhada.
No era nada disso que pensara que fosse acontecer ao deixar Nova York!
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CAPTULO in
O barulho de panelas trouxe La de volta de seu devaneio. Garrick j havia colocado a loua para lavar na mquina e agora lavava as panelas. Ela pegou um pano de
prato e comeou a ajud-lo.
Trabalharam em silncio at que, terminada a tarefa, La estendeu o pano sobre o fogo e virou-se para Garrick.
- Me desculpe - disse sem olh-lo nos olhos - Deve estar me achando uma ingrata, mas no sou. Agradeo tudo o que est fazendo por mim. - Fez uma pausa, medindo 
bem as palavras antes de prosseguir: S no  bem o que eu havia planejado.
- E o que havia planejado?
- Sol e ar fresco; um chal s para mim. Trabalho, leitura e passeios pelo bosque... Meu Deus, esqueci da comida que ficou no carro! Vai estragar tudo, se no colocarmos 
na geladeira.
- Est bastante frio l fora.
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- O suficiente para conservar a comida?
- Depende do que tiver comprado.
No havia motivo para fazer um relatrio acerca das compras. com um suspiro, La deu de ombros. No havia mesmo como chegar at o carro com aquela chuva, ento, 
no adiantava ficar se preocupando.
- Sabe - ela prosseguiu -  a primeira vez que resolvo sair de Nova York, e as coisas deram to errado... Ainda no consegui entender por que Vitria me ofereceu 
o chal.
Garrick estava comeando a desconfiar de um motivo. Seguiu at a sala e sentou-se no sof, que pareceu ranger em protesto. La permaneceu na cozinha, esperando que 
ele falasse alguma coisa. Garrick, no entanto, parecia bastante aborrecido. E com razo. Nenhum homem que houvesse escolhido viver sozinho nas montanhas merecia 
ter sua privacidade invadida daquele modo.
Estudando as feies carrancudas e o corpo msculo no sof, La ficou imaginando por que teria escolhido aquela vida de ermito. Ele no era de falar muito, mas 
La tambm no, e mesmo assim vivia muito bem na cidade. Pela maneira polida como ele se expressava e as comodidades que possua na cabana, era de se imaginar que 
anteriormente ele vivera numa cidade. No entanto, no podia acreditar que um problema como o dela o houvesse levado para c. Garrick parecia ter optado por aquele 
tipo de vida.
Aproveitando a distrao dele, La resolveu examinar melhor a cabana. Era uma sala grande, ocupada pela lareira de um lado e a cama de casal, de outro; a cozinha 
ficava na parte dos fundos, e alm do banheiro s havia um closet. Do lado da porta de entrada havia duas
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janelas grandes e, completando a moblia encontravam-se estantes repletas de livros.
Isso explicava, em parte, o que Garrick Rodenhiser fazia em seu tempo livre. Naquele momento, porm, fitava as cinzas na lareira e seu semblante espelhava algo indefinido. 
Solido? Tristeza? Confuso?
com um aperto no corao, La olhou para a cama, ainda desarrumada. Ento cruzou a sala, esticou os lenis, a colcha e dobrou os cobertores.
O que mais poderia fazer? Tudo estava limpo, arrumado, bem organizado. Sem saber o que fazer, ela caminhou at a janela. O bosque continuava parcialmente coberto 
pela bruma, inundado pela chuva que insistia em cair. A paisagem desolada aumentou ainda mais o estranho vazio que sentia dentro de si. A voz de Garrick a trouxe 
de volta ao mundo real.
- Qual  exatamente sua ligao com Vitria?
- Somos amigas - respondeu, voltando-se para encar-la.
- Sei... quando  que se conheceram?
- O ano passado.
- Onde?
- Na biblioteca pblica. Vitria procurava algo sobre os aborgenes da Nova Zelndia. Ns literalmente demos de encontro uma com a outra.
A expresso carrancuda de Garrick transformou-se num leve sorriso.
- Os aborgenes da Nova Zelndia - ele repetiu.  bem coisa de Vitria. Ela est estudando antropologia?
- No exatamente - La respondeu, esforando-se para falar pois, a viso do sorriso de Garrick, dos lbios se curvando entre a barba e o bigode, os dentes brancos 
e bem feitos, momentaneamente haviam absorvido seus pensamentos - Ela estava... ha... fascinada por um
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artigo que tinha lido sobre os maori, e planejava uma viagem at l quando nos conhecemos.
- E ela foi?
- O que voc acha? - La retrucou.
Garrick achava que sim, mas voltou o pensamento para o assunto que lhe interessava.
- E voc, o que fazia na biblioteca?
- Gosto de trabalhar l, s vezes vou a procura de palavras, voc sabe que fao palavras cruzadas, mas de vez em quando vou apenas para passear.
- Ento, vocs duas se tornaram amigas. Quantos anos voc tem, La?
- Trinta e trs. Garrick sorriu, surpreso.
- Eu lhe daria vinte e oito ou vinte e nove. - Ele tornou a ficar srio. - Mas, mesmo tendo trinta e trs, a diferena entre vocs duas  bem grande, no acha?
- De jeito nenhum - La respondeu com veemncia. - Isso  o que h de to fascinante em Vitria. Ela ... amarantcea.
- Amarantcea?
- , como uma sempre-vi v, indelvel, sem idade. Sua certido de nascimento pode indicar cinquenta e trs anos, porm ela tem corpo de quarenta, a cabea de trinta, 
o entusiasmo de vinte e o corao de uma criana.
A descrio  a mesma que Garrick faria da amiga, embora no fosse capaz de se expressar to bem. No auge de sua carreira era capaz de dizer as falas exatamente 
como o diretor queria. Mas nem toda a arrogncia do mundo, e ele a tivera de sobra, lhe fizera supor que um dia seria capaz de escrever um roteiro.
Pelo jeito La conhecia mesmo Vitria. No entanto, o resto da histria podia ser mentira. Podia ter resolvido arriscar-se a fim de encontrar e entrevistar o homem 
que fora um dia o sonho de cada mulher americana en-
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tre dezesseis e sessenta anos. Cada mulher que via televiso. Ser que La assistia tambm? Mesmo que fosse inocente, no o reconheceria?
Voltando os olhos para a lareira, Garrick continuou em silncio, relembrando o quanto vivera assustado nos, primeiros tempos em New Hampshire. Cada vez que tinha 
de ir  vila para comprar suprimentos, abaixava o rosto, evitava encarar as pessoas. Parecia estar sempre esperando que o reconhecessem, que fossem lhe pedir um 
autgrafo.
Na verdade, sabia estar bem diferente do homem que invadia as telas dos televisores uma vez por semana, durante sete anos seguidos. Os cabelos estavam mais compridos, 
praticamente sem corte, e naqueles dias j no tentava mais descobrir os fios brancos que, anteriormente fazia questo de tingir.
A barba tambm fizera diferena, porm, nos primeiros tempos, tinha medo de que algum pudesse ver alm dos fios castanhos, o maxilar resoluto de que as revistas 
tanto falavam. Usava as roupas mais simples e velhas que possua e, acima de qualquer outra coisa, contava com a quase total impossibilidade de algum imaginar que 
um grande astro da televiso estivesse vivendo sozinho num lugarejo perto do fim do mundo.
O tempo havia passado e, como nunca algum o reconhecera, Garrick tornou-se mais confiante. Passou a olhar as pessoas de frente, a andar de cabea erguida.
Ele sabia que aquele no era o nico motivo pelo qual no abaixava mais a cabea. Sentia-se melhor a respeito de si mesmo. Estava aprendendo a viver junto  nature-
za, a respeitar as outras pessoas, a ter uma vida simples e despretensiosa, como um verdadeiro ser humano,
- Deve ter conhecido bem Vitria nesse ano de convivncia. Passavam muito tempo juntas?
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- Sim.
- Socialmente?
- Se est querendo saber se eu frequentava as festas dela, a resposta  no.
- Voc  casada?
- No.
- J foi? - indagou, curioso.
- Sim.
- Divorciada?
La fez um sinal afirmativo.
- Recentemente?
- Dois anos.
- Tem namorado?
- E voc, tem namorada? - ela replicou.
- Quem est fazendo as perguntas sou eu.
- Isso  bvio, porm eu gostaria de saber o porqu disso. Estou me sentindo como se estivesse num tribunal.
A voz de La soou magoada, e Garrick surpreendeuse por estar sentindo remorsos. Mas estava perto de obter uma resposta e precisava continuar. Suavizando o tom de 
voz, ele declarou:
- Acredite-me, tenho razes para todo esse interrogatrio.
- Eu sei, a razo exata  fazer com que eu d meiavolta e v embora. Olhe, eu iria, se pudesse. Sei que no gosta de ter uma estranha em sua casa e eu no sou exatamente 
uma estranha, sou uma refugiada e... - A voz de La foi abaixando de torn, enquanto ela passava os olhos pela sala. - Onde tem papel e lpis?
- O qu? - Garrick perguntou, sem entender o que ela pretendia.
- Se no escrever agora acabarei esquecendo.
- Esquecendo?
- A ideia: estranha, refugiada, invasora.  perfeito como tema de palavras cruzadas. Onde tem papel e lpis?
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Divertido, Garrick fez um movimento de cabea em direo  cozinha.
- Segunda gaveta  esquerda da pia.
Em segundos, La escrevia as palavras que havia dito a ele, acrescentando vrias outras que lhe vinham  mente. Aps arrancar a folha, ela a dobrou, e colocou no 
bolso. Guardou, ento o lpis e o bloco de palpei de volta na gaveta e sorriu para Garrick.
- Onde  mesmo que estvamos?
Ele nem mesmo tentou reprimir a sensao gostosa que o sorriso de La provocou em seu peito.
- Costuma fazer sempre isso? - perguntou.
- Escrever as ideias? Sim.
- Voc escreve mesmo palavras cruzadas?
- Voc tambm no acreditou nisso, no ? Garrick moveu a cabea para o lado, e La no entendeu se aquilo significava sim ou no.
- Nunca pensei que algum fizesse disso uma profisso.
- Algum tem de escrev-las, no acha?
Ele considerou a pergunta por alguns instantes, ento declarou simplesmente:
-  verdade. - E voltou a ficar em silncio. Sem saber quanto tempo ficaria calado daquela vez,
ela foi at uma das estantes. Havia ali um nmero enorme de livros, em sua maioria fico, com ttulos que haviam estado entre os mais vendidos nos ltimos anos. 
Todos pareciam bastante manuseados e quase todos eram edies de luxo. Garrick no s lera todos aqueles exemplares, como comprara as edies de capa dura, sem esperar 
pelas publicaes mais baratas que saam algum tempo depois.
Aquele no era um homem que passava necessidade e La ficou imaginando de onde provinha o dinheiro.
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- Deve ser difcil - ouviu-o dizendo - encontrar as palavras certas, que combinem; arranjar as pistas...
La levou alguns segundos para perceber que Garrick falava sobre as palavras cruzadas. No pde conter um sorriso. Ele falava as coisas entremeando longos silncios, 
mas seus pensamentos pareciam obedecer uma sequncia lgica.
-  um desafio - La admitiu.
- Eu nunca conseguiria fazer isso.
- Ento, estamos quites. Eu nunca conseguiria caar animais, preparar armadilhas.
- Foi isso que Vitria lhe disse?
- Falou que voc era caador.
- E o que mais ela falou? - Garrick perguntou, meio na defensiva.
- S isso; que era um amigo e que eu podia confiar em voc. Para falar a verdade, eu esperava algum bem... diferente.
Ele levantou as sobrancelhas.
- Mais velho. Acabado - La ficou vermelha, e voltou o rosto em direo  janela. - Quando Vitria me entregou o envelope, perguntei se era uma carta de amor.
- E como soube que no era?
Bem, tinha de admitir a si mesma que ainda no sabia. Lembrou-se de Vitria dizendo que caadores tambm podiam ser interessantes, porm nunca esclarecera direito 
aquela questo. La arregalou os olhos por atrs das lentes dos culos.
Para surpresa sua, Garrick comeou a rir.
- Eu e Vitria somos apenas amigos. - Garrick ficou srio, passando os ns dos dedos pelo bigode. La j esperava por mais um longo silncio, quando ele completou: 
- Pelo menos at agora.
- O que quer dizer?
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Ele deu um suspiro, abaixando a mo.
- O fato de Vitria ter mandado voc aqui. Est me parecendo um ato deliberado.
La procurou algo em sua expresso que denotasse o que lhe vinha em mente.
- Continue - pediu.
- Voc falou que no costumava frequentar as festas de Vitria. Ento, quando  que se encontravam?
- Sempre saamos para jantar juntas.
- com homens?
- No, sozinhas.
- Ela comentava acerca de amigos homens?
- No. Olhe, sei o quanto amou o marido e que no tem inteno de voltar a se casar. Porm, sei tambm que, se precisar de companhia masculina, haver sempre algum 
disposto.
- E voc? Costuma sair muito com homens?
- No; a no ser que no tenha como evitar - respondeu como se no quisesse mais tocar no assunto.
Garrick no se deixou intimidar, pois estava perto de seu objetivo.
- E o que Vitria costumava dizer sobre isso?
- Vitria est sempre tentando me fazer mudar de ideia; fica me apresentando a vrios homens e eu procurando fugir desses encontros forados.
Garrick meneou a cabea, pressionou os lbios e deixou-se escorregar um pouco mais sobre o sof. Ficou por vrios minutos perdido nos prprios pensamentos. Soltou 
um ou dois suspiros, ento declarou:
- Era disso que eu tinha medo.
- O que quer dizer?
- Ela j me aprontou a mesma coisa vrias vezes.
- Aprontou o qu?
- Tentou me arranjar uma mulher. - Garrick levantou as mos
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para o cu. - Graas a Deus, aqui nas montanhas fica mais difcil, mas pelo jeito no foi o bastante para impedi-la de continuar. Vitria est convencida
de que qualquer pessoa que no tiver experimentado o tipo de amor que ela e o marido compartilharam, no est realmente vivendo. - Procurou La com o olhar, e hesitou 
antes de perguntar: - Entende o que quero dizer?
- Vitria fez de propsito! - exclamou horrorizada.
- Pelo jeito...
- No me contou sobre o incndio, mas falou de voc.
- Certo.
La fechou os olhos, procurando combater a raiva crescente.
- E pensar que ela disse que no queria receber aluguel adiantado, que era melhor eu ver primeiro o chal.
- Muito honesto da parte dela...
- E, quando eu perguntei se a cabana era bem equipada, ela respondeu: "Da ltima vez que estive l, sim".
- A pura verdade.
- No admira que ela fosse to evasiva.
- Vitria? Evasiva?
- Estranho, no ? Mas estava mesmo evasiva. Rapaz, como no percebi? Era culpa, pura culpa. E teve a coragem de me lembrar que no teria ar-condicionado, nem telefone. 
Aquela cobra... - Soltando um suspiro, La cruzou os braos e deu as costas a Garrick.
Por um momento, ele chegou a pensar se La estaria dizendo a verdade. Se andasse de um lado para o outro, gritando pela casa, teria certeza de que ela representava 
um papel muito bem ensaiado.
Porm, pelo contrrio, a nica mostra de sua raiva era a respirao acelerada e a postura rgida.
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Estranhamente, a raiva de Garrick era bem menor do que poderia supor numa situao como aquela. Se houvesse sabido dos planos de Vitria com antecedncia, ficaria 
furioso. Mas no o soubera, e, naquele momento La j estava ali, com toda angstia contida tocandolhe o corao.
E ali, sob seus olhos, ele viu a angstia se transformar em mortificao. Enrubescida, La o olhou sobre os ombros.
- Desculpe, Vitria no tinha o direito de me empurrar para voc.
- Mas a culpa no foi sua...
Sem saber como reagir ao tom amigvel da voz de Garrick, La voltou a ateno para a estante de livros. Foi ento que tomou conscincia real da situao em que estava 
metida. Ela e Garrick haviam sido jogados, contra a vontade, numa situao embaraosa, que Vitria classificava de romntica. Mas, se a amiga esperava por amor  
primeira vista, ficaria desapontada. La no acreditava em amor  primeira vista, nem tinha muita certeza se acreditava no amor, desde que ele at aquele momento 
s lhe trouxera dor e amargura. Mas o caso era outro: no conhecia Garrick Rodenhiser e ficar fantasiando sobre amor era totalmente fora de propsito.
Atrao  primeira vista, isso, talvez, pudesse ser considerado. No negaria que se sentia atrada fisicamente por Garrick. Seu rosto, a barba, os ombros largos... 
teria de ser cega para no ver a masculinidade que ele exalava, e estar morta para no responder a esse apelo.
- Eu no queria que isto acontecesse - sussurrou, quase que para si mesma.
- Eu sei - respondeu Garrick baixinho.
- Eu me sinto... bem, voc deve estar... humilhado.
- Um pouco embaraado, s isso.
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- E eu aqui, usando suas roupas...
- Pode vestir as suas, se quiser.
Era, a coisa mais certa a ser feita. Talvez quando estivesse de novo usando as prprias roupas se sentisse menos vulnervel, menos exposta...
Cruzando a sala, La foi buscar suas coisas na secadora. A malha de l, entretanto, permanecia mida.
- Tome - Garrick surgiu s suas costas, com uma de suas blusas. - Limpo e seco.
La aceitou, agradecendo baixinho, e escapou para o banheiro. Garrick acendia a lareira quando ela voltou e s ento La notou que, apesar da lareira estar apagada 
desde a noite anterior, a cabana continuava aquecida.
- Como faz com a eletricidade e o aquecimento? ela indagou, aproximando-se do sof.
Ele terminou o que estava fazendo e pegou um fsforo.
- Tenho um gerador.
- E quanto  comida? J que no h como sair com um tempo desses...
- Enchi a despensa na semana passada. - Sentado sobre os calcanhares, ele ficou observando as chamas crescerem. - Qualquer um que j tenha passado por uma estao 
de chuvas nestas paragens, sabe como agir e estar preparado. O congelador e os armrios esto repletos. Receio, apenas, que tenhamos comido o ltimo pedao de bacon 
esta manh.
"Ele teria mais para amanh, se no houvesse dividido comigo", La pensou, mantendo para si os pensamentos cheios de culpa; afinal, no havia nada mais inconveniente 
do que uma pessoa que estava sempre se desculpando.
Garrick se levantou, olhando-a de frente, e no mesmo instante desejou no t-lo feito. La usava a malha de l emprestada que mais parecia um vestido para ela. Ento, 
La, enrolara as mangas at um ponto razovel,
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mas o modo como a roupa lhe moldava os seios, evidenciando os ombros bem-feitos era muito mais sugestivo do que Garrick poderia ter imaginado. La estava adorvel. 
Inseguramente adorvel.
Ele fez um gesto em direo ao sof. Agarrando-se a uma almofada, La sentou-se sobre as pernas. Foi ento que-Garrick se lembrou da ferida na perna dela.
- Como est sua perna?
- Igual.
- Voc trocou o curativo?
- No.
- Olhou embaixo da gaze?
- Eu saberia, se houvesse piorado. Est normal.
Ou La estava querendo bancar a forte, ou o machucado realmente no a incomodava. Garrick queria descobrir qual era a verdade. Ele inclinou o corpo e afastou a gaze.
- Est tudo bem. Verdade - ela afirmou. Mas ele j tirara o curativo.
- No parece assim to bem - E, com cautela, passou o dedo sobre a pele inchada ao redor, provocando um gemido abafado da parte dela. - O melhor seria ter dados 
alguns pontos, mas o hospital mais prximo fica a uns noventa quilmetros. Jamais conseguiramos sair das montanhas.
- Logo vai ficar bom...
- S que lhe deixar uma cicatriz.
- Uma cicatriz a mais ou a menos... Seus olhos se encontraram.
- Voc tem outras?
"Oh, sim, mas no  visvel a olho nu", ela pensou. Mas em voz alta disse:
- Tirei meu apndice quando tinha doze anos. Garrick a encarou e o que viu foi dor e solido. Ela
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piscou, como se tentasse afastar aqueles sentimentos, porm de nada adiantou.
Garrick viu, sentiu o que se passava. Queria fazer-lhe perguntas, confessar-se com La, dividir a dor, suavizar o sofrimento que via nos olhos negros. Queria toc-la.
Mas em vez disso, ele se levantou, voltando alguns instantes depois com pomada, gaze e esparadrapo. Depois de haver refeito o curativo como desejava, guardou tudo 
de novo no armrio, vestiu uma capa, botas e saiu na chuva.
La ficou olhando, incapaz de compreender o que acontecia. Pouco depois um som facilmente reconhecvel juntava-se ao bater da chuva no telhado. Ela caminhou at 
a janela e espiou para fora. Garrick rachava lenha no alpendre, alm da clareira.
Sorrindo ante o impacto da imagem do homem das montanhas fazendo seu trabalho, tornou a se sentar no sof. De olhos fixos na neblina, tentou no pensar naquelas 
mos de dedos longos e calejados que no entanto a haviam tocado de maneira to suave. Richard nunca a tocara daquela modo, embora, por ter sido seu marido, a houvesse 
tocado muito mais intimamente...
Incapaz de encontrar as respostas para as dvidas que comeavam a perturb-la, La resolveu buscar distrao num dos livros da estante. Ao voltar, Garrick a encontrou 
perdida na leitura.
com os braos repletos de lenha, ele chutou as galochas dos ps, colocou a madeira numa cesta ao lado da lareira e desabotoou a capa. La no precisou perguntar 
se a chuva havia melhorado: as botas estavam cheias de lama e a capa pingava quando ele a retirou. Ela voltou a ateno para o livro. Garrick pegou um para si e 
se sentou tambm.
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- Est gostando do livro? - Garrick perguntou, depois de algum tempo.
-  muito bem escrito.
Ele concordou com um gesto de cabea e abaixou os olhos para o livro que tinha nas mos. La leu vrias pginas antes de notar que Garrick ainda no virara nenhuma, 
muito embora parecesse estar concentrado na leitura.
Esticando o pescoo, tentou ler algo no livro de Garrick. J comeava a pensar se deveria trocar os culos por outros mais fortes, quando ele declarou:
-  latim. La sorriu.
- Est brincando!
- No.
- Voc entende bem o latim?
- No, estou estudando, ainda.
Tentando no atrapalh-lo, La voltou  posio anterior. Estudando latim? Era bastante estranho para um caador, mas nem tanto para um homem que tentava esconder 
o passado... Tinha vontade de lhe fazer perguntas, mas no sabia como comear; ele no encorajava nenhum tipo de conversa. Sua presena j no parecia agradar-lhe 
muito. Quanto mais quieta ficasse, melhor seria. Voltou a ler e, algumas pginas depois, ouviu-o perguntar:
- Est com fome?
- Um pouco.
- Quer almoar?
- S se eu puder fazer a comida.
- No pode. - Devido s vrias dvidas que lhe enchiam a mente desde que La chegara, precisava ficar no comando de alguma coisa em sua vida. - Quer dizer que no 
vai comer?
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Ela sorriu meio sem graa.
- com essa voc me ps de volta em meu lugar, no foi?
- Ha-h.
- Eu como.
Tentando no rir, Garrick colocou o livro de lado e foi preparar o almoo. Apesar do tempo que passara l fora, continuava aborrecido com Vitria. Era difcil, porm,
estar aborrecido com La. Ela fora uma inocente til no jogo da amiga, tanto quanto ele e, ao menos aparentemente, sentia-se desconfortvel com a situao forada.
La conduzia o problema com dignidade. E ele apreciava isso.
Nenhuma mulher, das que j conhecera no passado, teria suportado uma sitao como aquela com tanta graa. Snia Prince ficaria lvida s de pensar em ficar presa
num chal isolada. Mona Weston no passaria um s dia num lugar sem telefone, sem poder entrar em contato com seu agente. Darcy Hogan j teria remexido nas gavetas
a procura de uma roupa que lhe casse bem. Heather Kane estaria exigindo que ele desse um jeito de parar a chuva.
La Gates, por outro lado, aceitara agradecida o suter que Garrick lhe emprestara, arranjara um livro para ler e tentava ao mximo no atrapalhar.
Isso  que o deixara ainda mais curioso. Ficava imaginando o que teria acontecido com seu casamento e por que ela no gostava de sair com outros homens. Indagava
a si mesmo se ela teria uma famlia, se tinha planos para o futuro. Algo lhe dizia que a solido que por vrias vezes flagrara nos olhos negros no era devido ao
isolamento em que se encontravam. Parecia ser algo mais profundo, como o que ele prprio sentia.
La comeu sem protestar o sanduche de queijo e pre.
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sunto que Garrich preparara, sem sequer reclamar da quantidade de maionese que ele espalhara no po, coisa normal entre as mulheres que vivem contando calorias.
Bebeu cada gota do leite que Garrick lhe servira e, depois de terminado o lanche, lavou os dois pratos e copos, colocando-os sobre a pia.
Durante a tarde que corria lentamente, Garrick no conseguiu concentrar-se no livro de latim. Continuava pensando na moa sentada no outro extremo do sof. As pernas 
longas estavam enroladas sobre o assento e o livro permanecia aberto em seu colo, mas com a cabea apoiada no encosto, La dormia serenamente. Docemente...
Sentia pena dela. A viagem que enfrentara no dia anterior, primeiro guiando desde Nova Ifork, depois enfrentando o frio e a chuva para chegar at a cabana a haviam 
deixado exausta. Por um instante voltou a sentir raiva de Vitria, ento lembrou-se de que, como todas as pessoas pouco acostumadas com as montanhas, a amiga no 
devia ter a mnima ideia de como era aquele lugar na estao chuvosa.
Haviam se encontrado pela primeira vez durante uma das escapadas de Vitria at a cabana, no vero. Ele ficara intrigado com os motivos que a haviam levado at ali, 
j que ela parecia um ser essencialmente urbano. No gostava de caar, no apreciava caminhadas, no plantava vegetais no quintal do chal. Lembrava-se da resposta 
de Vitria como se fosse naquele mesmo dia; perguntara porque fora, e ela lhe afirmara simplesmente sentir-se ali um pouco mais perto do marido que falecera.
Claro que no fora honesto da parte dela enviar La para um chal que j no existia. Garrick, entretanto, tinha certeza de que Vitria o fizera com a melhor das
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intenes, deixando-os juntos na cabana. O que o intrigava  que Vitria sabia muito bem que ele queria ficar sozinho; j haviam conversado bastante sobre o assunto. 
O que a fazia pensar que havia mudado de ideia?
At alguns anos ele fora um homem da cidade. Desfrutara de todas as comodidades e futilidades que a vida lhe pudera oferecer. As nicas coisas que temia naquela 
poca fora a obscuridade e o anonimato. Ironicamente, as mesmas coisas que agora buscava.
Passara a odiar a fama, porque era efmera; a glria, por estar baseada em falsidade; a multido. de fs, porque traziam a tona o pior que existia no ser humano: 
a arrogncia e a dominao.
J tivera na vida sua cota de competio. Mesmo passados quatro anos, lembrava-se muito bem da sensao de no poder ser passado para trs, de ter de ser sempre 
o mais rpido, o mais talentoso. Apreciava no ter mais de se preocupar com a aparncia, de estar sempre arrumado e cheiroso. No queria ter de pensar nos jovens 
atores prontos para tomar seu lugar ao menor deslize. E no gostava nem de lembrar das mulheres que se agarravam a ele, prontas para troc-lo ante a viso de uma 
nova presa, mas vantajosa.
Ah, sabia muito bem o que no queria. Tomara uma deciso racional ao deixar a Califrnia, com seu brilho e glamour. Possua ali a vida que desejava: simples, tranquila 
e confortvel. Era isso o que queria.
Por que, ento, sentia-se ameaado pela presena de La?
Garrick voltou a ateno para ela, que estava acordando. Movendo-se com lentido, ela esticou uma das pernas, encostando a sola do p na coxa de Garrick. Ele sentiu 
o calor e a leve presso, enquanto a olhava passar uma das mos sobre o abdmen. Viu-a, ento, abrir os olhos e perceber onde estava.
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La olhou para Garrick. Ele nem piscou. Devagar, puxou a perna de volta, tornando a se concentrar no livro.
La Gates realmente representava uma ameaa para Garrick. No que ela estivesse quebrando a paz da cabana. Pelo contrrio, era uma pessoa calma, quieta, que nada 
exigia. Tambm no era uma questo fsica, mas sim emocional. Garrick a olhava e via as duas nicas coisas das quais sentia falta: calor humano e companheirismo. 
Sempre pensara poder viver sem isso. Agora, comeava a duvidar.
La, tambm, estava pensativa. Colocando de lado o livro, caminhou em direo  janela. A chuva parecia no terminar nunca de cair. Entretanto, mesmo que a chuva 
parasse, Garrick j deixara claro que no poderia partir. Havia a lama e, pelo jeito, teria de ficar ali por mais algum tempo.
Apoiando os cotovelos no parapeito, segurou o queixo, tentando analisar a situao. Garrick Rodenhiser era uma pessoa fcil para se conviver. Ela, como costumava 
fazer em casa, passava o tempo lendo. Se tivesse consigo os dicionrios, poderia tambm trabalhar.
O nico problema  que Garrick a fazia pensar em coisas que La acreditava estarem enterradas h anos.
Nove anos, para ser exata. Ela estava ento com vinte e quatro anos, e havia terminado a faculdade de Letras, quando conhecera e se casara com Richard Gates. Era 
uma moa sonhadora, que acreditava no amor, e estava certa de que Richard pensava como ela. Ele tinha vinte e seis anos e trabalhava no mercado de aes, s que 
rapidamente La percebeu o quanto se enganara a respeito dele. Richard desejava, mais do que tudo, subir ha carreira, no se importando em sacrificar a vida em comum. 
Passava os dias no escritrio, viajava com frequncia e sempre dava um jeito de comparecer a inmeras festas  noite. com o tempo, sem que percebessem, o
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amor e a felicidade havia desaparecido da vida dos dois.
La desistiu dos planos de dar aulas de ingls, afinal uma esposa trabalhando fora no combinava com o tipo executivo de Richard. Decidira, ento, escrever palavras
cruzadas a princpio apenas para passar o tempo, depois, porque a atividade lhe agradava e havia um mercado para tal tipo de trabalho. Ter um trabalho de meio perodo,
ajudava-a a suportar a frustrao que comeava a sentir.
Talvez tudo houvesse sido diferente se ela no tivesse perdido os bebs, mas La duvidava. Richard teria do mesmo jeito continuado com as reunies de negcios, as 
viagens e as festas de que tanto gostava. E por que no? Ele era carismtico, sabia lidar com as pessoas e, na verdade, mesmo em outros assuntos, que no fosse filhos, 
La e ele tinham opinies bastante diferentes.
Entretanto, ali estava ela pensando em amor e felicidade...
A verdade era que Garrick a afetava. Fazia-a pensar que havia algo errado em se viver sozinha... Garrick a fazia meditar sobre o futuro. Sim, provavelmente ela voltaria 
para Nova York e acharia um outro apartamento para morar. Trabalharia, encontraria amigos, visitaria museus, parques e jantaria em seus restaurantes favoritos. Faria 
o que sempre fizera at sair de l.
Suspirando, voltou ao sof e ao livro, embora tivesse conseguido ler pouqussimo nas horas que se seguiram. De tempo em tempo sentia os olhos de Garrick sobre si 
e, de vez em quando, arriscava uma olhadela em direo a ele. Aquela presena mscula era ao mesmo tempo reconfortante e incmoda.
A presena dele a fazia sentir-se menos s, porque sabia que teria ajuda no que precisasse. Por outro lado, dava-lhe conscincia de tudo o que faltava em sua vida.
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No final da tarde, Garrick voltou a sair, sem que La tivesse a menor ideia do que pretendia fazer. Ficou andando pelo chal, inquieta, at que ele retornou.
Indo diretamente para a cozinha, Garrick recusou mais uma vez a ajuda dela, e preparou o jantar para ambos.
Comeram em silncio, desviando o olhar quando seus olhos se encontravam. Depois, voltaram a se sentar perto do fogo e, mesmo sem o material necessrio, La comeou 
a esquematizar algumas palavras cruzadas simples.
Para total surpresa de La, Garrick pegou um pedao de madeira e passou a entalh-la.
Sentiu vontade de perguntar onde ele aprendera a esculpir madeira, como aprimorara a tcnica, o que pretendia entalhar, mas no o fez.
Garrick, por sua vez, queria indagar como se inventava uma palavra cruzada, se era difcil encontrar palavras que combinassem, o que ela fazia quando se via diante 
de um impasse, porm permaneceu em silncio.
L pelas dez horas, irritada por no ter criado nada que valesse a pena guardar, La amassou as folhas de papel e as atirou na lareira.
Aps tomar um banho rpido, vestiu o pijama que Garrick lhe emprestara e deitou-se do mesmo lado da cama onde dormira na noite anterior.
s dez e trinta, cansado e frustrado por no ter esculpido nada de interessante, Garrick jogou o pedao de madeira no fogo que j se extinguia, e apagou as luzes. 
Depois de tirar a roupa, ficando s com a cala e a camiseta que usava por baixo, ele se deitou no seu lado da cama.
Permaneceu ali deitado, pensando na vida que levava em Los Angeles nos meses que antecedera sua deciso de abandonar a carreira. Seu agente, Timothy Wilder
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h algum tempo passara a evit-lo, mandando dizer que no estava quando Garrick lhe telefonava ou ia at seu escritrio. Quando, finalmente haviam se encontrado
num set de gravao, onde outros clientes de Timothy participavam de um filme, o agente praticamente o havia ignorado. Assim como o diretor, o astro do filme e at
mesmo a atriz principal, que havia seis meses jurara estar apaixonada por Garrick. Ele nunca se sentira to s na vida.
La, tambm acordada, relembrava as ltimas festas s quais havia comparecido na companhia do ex-marido. Numa delas, uma noite de gala destinada a angariar fundos
para uma entidade beneficente, ela se arrumara com esmero. Richard nem mesmo elogiara o vestido. No comeo da festa, o marido a apresentara a algumas pessoas e,
depois, a largara conversando com uma desconhecida. Nunca se sentira to s em toda sua vida.
Garrick mexeu-se na cama. Pensou no acidente que sofrera e nas longas semanas que passara no hospital, sem que ningum fosse visit-lo. No lhe haviam enviado flores,
nem cartes desejando sua melhora; ningum lhe telefonara desejando uma rpida recuperao. Embora culpasse a si prprio pelo declnio de sua carreira artstica,
e tivesse conscincia de que no merecia a simpatia de nenhum conhecido, at que teria gostado de um pouco de apoio moral. O total abandono em que se encontrara
naquelas semanas, fora a gota dgua.
La, tambm, remexeu-se de leve sob os lenis. Lembrava-se dos dias passados no hospital, logo aps ter perdido a segunda criana. Richard fizera algumas visitas,
deixando-a, porm, com a impresso de que a culpava pelos abortos expontneos. Embora os mdicos dissessem que a culpa no era dela, La tambm comeara a se sentir
como uma mulher incompleta. Se seus pais fossem vivos, teriam lhe dado o apoio de que necessitava.
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Se tivesse amigos, no apenas conhecidos, no teria se sentido to s. Apenas a solido preenchera aqueles dias.
Garrick deu um longo e estremecido suspiro. Sentia a presena morna de La a seu lado, ouvia sua respirao irregular. Devagar, virou a cabea em direo a ela.
A cabana estava imersa na escurido. No podiam ver um ao outro, mas Garrick pde ouvir o roar dos cabelos de La sobre o travesseiro quando ela se virou em sua 
direo.
Ficaram assim deitados por um longo instante. A tenso entre eles cresceu, uma onda de desejo vibrante os atraa como im.
Quase que ao mesmo tempo, moveram-se um em direo ao outro, envolvendo-se num abrao.
E ficaram ali aconchegados em silncio. Emocionados.
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CAPTULO IV
La fechou os olhos, apreciando o calor e a fora do corpo de Garrick. Ele a abraava com fora mas nem por um segundo pensou em reclamar da presso que os braos 
musculosos exerciam sobre si. Ao contrrio, enlaou-lhe o pescoo, suspirando docemente. Feliz, absorvia o conforto que a proximidade de Garrick lhe proporcionava. 
Encaixou uma das pernas entre as dele, e afundou os dedos nos cabelos quase castanhos.
Garrick, tambm, invadido por uma sensao nova, apreciava o contato do corpo macio de La. Abraar aquela mulher praticamente desconhecida, dava-lhe uma sensao 
de plenitude, que jamais havia experimentado. Passou as mos pelas costas delicadas, inspirou fundo, aumentando a presso de seu peito contra os seios macios.
La tambm precisava dele. Os sons que emitia baixinho, o ronronar que lembrava um gato, lhe dizia isso. Precisava dele no porque pudesse ajud-la em sua car
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reira, ou por causa de seu dinheiro. La no sabia quem ele era, e mesmo assim precisava dele. Por ele mesmo.
Garrick suspirou, feliz.
Por um longo tempo ficaram assim abraados, como se aquela proximidade fosse um blsamo para as dores e tristezas do passado. Nada existia a no ser o presente; 
um presente calmo e tranquilo que nenhum dos dois ousava interromper.
Aos poucos, entretanto, uma nova sensao foi tomando conta de seus corpos. La inebriava-se com o perfume msculo, sentia os cabelos sedosos escorregando entre 
seus dedos, os msculos fortes contraindo-se sobre sua perna. Garrick, por sua vez, foi invadido por um perfume doce e suave.
Ele no estava pensando em sexo, ao puxar La para si. Desejara apenas abra-la, sentir um corpo quente contra o seu, s pretendera afastar a solido. Mas de repente 
seu corao batia mais rpido, o sangue flua com maior velocidade por suas veias, seus msculos se contraiam. Garrick nunca se sentira atingido por algo de maneira 
to inesperada. Ou desesperada.
Ele poderia ter se controlado se no houvesse sentido o quanto La tambm o desejava. Ela escorregou as mos por baixo do tecido da camiseta, insinuando-se sobre 
a pele nua, enquanto os quadris arqueavam-se ligeiramente contra os dele.
O corpo de Garrick apertou-se contra a maciez de La, e ele a acariciou com mais intimidade, aumentando a fome de amor at um ponto incontrolvel.
Tinha de possu-la. Mas sentia medo de destruir aquele momento de tanta magia.
com mos trmulas, puxou a cala de La para baixo, e ela terminou de retir-la, enquanto Garrick tambm se livrava das suas. No instante em que a penetrou,
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La passou uma das pernas por cima dele, acariciandoo nas costas, e suspirando de encontro ao seu rosto.
Foi tudo muito rpido. Garrick movia o corpo com ritmo, acompanhado de La e, juntos, atingiram o clmax de um ato gratificante, quente e maravilhosamente inesperado.
com o corao ainda batendo descompassado, Garrick relutava em se afastar de La. Depois de algum tempo, achando que podia estar machucando-a, moveu o corpo. La, 
porm, agarrou-se a ele:
- No v - sussurrou.
Eram as palavras mais doces que j ouvira dos lbios de uma mulher. No diziam apenas o quanto havia apreciado ter feito amor com ele, mas tambm que aquilo que 
acabara de acontecer entre os dois no fora apenas necessidade fsica.
No se haviam acariciado muito, nenhuma palavra tinha sido dita, no houvera nenhum beijo. E, no entanto, quando a penetrara, La estava pronta para receb-lo porque 
precisava dele. O que acontecera fora mais do que sexo pura e simplesmente.
Garrick no fez nenhum comentrio ao notar, pelos tremores no corpo de La, que ela chorava. Falou apenas com as mos, que deslizavam pelos cabelos negros, puxando-a 
de encontro ao peito. Ele a protegeu e a acariciou at que La pegasse no sono. S, ento, fechou os olhos e dormiu.
Ao acordar na manh seguinte, a primeira coisa de que La teve conscincia, foi de estar com o corpo deliciosamente aquecido. Ela virou-se de lado e bocejou, sentindo-se 
relaxada e satisfeita. Lernbrou-se, ento, de que no vestia nada da cintura para baixo, e abriu os olhos.
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Garrick, completamente vestido, estava sentado na cama, observando-a. Sem saber o que dizer, La simplesmente olhou para ele.
No sem um pouco de hesitao, Garrick passou a mo pela face delicada, colocando uma mecha dos cabelos compridos para trs da orelha.
- Voc est bem? - indagou. La acenou que sim.
- No machuquei voc? - perguntou, quase que num sussurro.
Ela balanou negativamente a cabea.
- Arrependida?
- No - respondeu baixinho.
- Fico feliz. - Aps uma pausa, Garrick perguntou: - Est com fome?
- Morrendo!
- Gostaria de comer umas panquecas?
- Adoraria.
Um leve sorriso surgiu no rosto de Garrick. La sentiu vontade de colocar os culos para apreci-lo melhor, mas no queria sair de onde estava.
- Farei uma poro dupla enquanto voc se troca.
- timo.
Dando um aperto de leve no ombro de La, Garrick seguiu em direo  pequena cozinha. S quando ouviu o barulho dos utenslios sendo manuseados  que ela se levantou 
da cama, no sem antes colocar a cala do pijama. No banheiro, tomou uma rpida ducha e se vestiu. Ao voltar para a sala encontrou Garrick colocando uma pilha de 
panquecas sobre cada prato.
- , gelia caseira - exclamou, vendo o vidro sobre a mesa. - Que luxo!
- Sirva-se  vontade.
- Mas  bom demais para desperdiar.
- No  desperdcio, se voc gosta tanto.
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La olhou bem o vidro, reparando que no possua rtulo.
-  um produto desta regio? - indagou.
- , sim. Garanto que  supernatural. Sem aditivos, nem conservantes.
- No v me dizer que  voc quem faz? - perguntou incrdula.
- No. - Ele riu. - Compro de uma famlia que mora do outro lado do vilarejo.
- A famlia vive disso?
- Embora ganhem um bom dinheiro na temporada, no d para sobreviver. Eles possuem uma lojinha, uma espcie de mercearia.
La fez um sinal de cabea, contente por Garrick ter comentado algo sobre seu dia a dia. At ento, haviam trocado pouqussimas palavras. Provavelmente, habituado 
a viver sozinho, Garrick se acostumara a falar pouco. Estaria arrependido do que acontecera na noite passada? No, pela maneira tranquila com que ele agia, La adivinhou 
que no.
Voltando a ateno para o prato, ela cortou um bom pedao das panquecas e j ia comer, quando parou com o garfo no meio do caminho.
- Garrick?
- O que foi?
- Eu s queria dizer que... que... o que aconteceu ontem  noite... bem, nunca havia agido daquele modo antes...
Ele engoliu antes de responder.
- Eu sei.
- Sabe? - ela o encarou.
- Voc estava tensa. No fazia amor desde seu divrcio, no ?
La acenou que sim, vermelha de vergonha.
- Achei melhor lhe dizer porque no queria que tivesse uma impresso errada de mim.
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No me arrependo, nem por um instante, mas no gostaria que pensasse que souo tipo de mulher que se deixa levar por impulsos.
- E no acredito em encontros fortuitos...
- Eu sei.
Pousando o garfo sobre a mesa, La apoiou a testa numa das mos.
- No  nada disso. Estou dando a impresso de ser uma puritana que espera algo mais de voc, mas no  isso.
- Eu sei. Agora, coma suas panquecas, seno ficaro frias.
- No sou pudica nem ninfomanaca. Acontece que ontem eu precisava de voc...
- La... - Garrick apontou para o prato cheio. Desistindo de tentar explicar, resolveu comer. Esperava
que ele ao menos tivesse entendido o que tinha tentado dizer. La se importava com o que Garrick pudesse pensar sobre o que acontecera e, embora parte dela tivesse 
certeza de que haviam compartilhado algo de muito especial na noite anterior, outra parte permanecia insegura.
No que se referia a homens, nunca fora muito segura de si. Pensara saber o que Richard queria dela, mas se enganava. Essa era apenas uma das razes pelas quais evitara 
um contato mais ntimo com qualquer homem, desde o divrcio.
Pela primeira vez na vida sentia-se independente e gostava disso, alm do que no suportava a insistncia de um certo tipo de homens, que s desejava lev-la para 
a cama. Queria algo mais de uma relao, e nenhum homem que conhecera lhe despertara interesse.
La orgulhava-se de si mesma como mulher e gostava de pensar que quando fazia uma coisa, fazia-a por uma boa razo.
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E fora esse o caso. Sentira uma afinidade com Garrick. Seus instintos lhe diziam que no era uma espcie de conquistador, assim como ele adivinhara que La no fizera 
amor desde o divrcio. Nada no chal indicava que uma mulher j houvesse pisado ali. No vira nenhuma pea de lingerie, perfume ou brinco perdido nas almofadas do 
sof... E a urgncia com a qual ele a possura e atingira o clmax s faziam confirmar tal ideia.
Apesar do aparente celibato, Garrick era um homem de verdade, daqueles que s se v em filmes. O cabelo loiro-escuro, entremeado por fios grisalhos, a barba crescida, 
a habilidade para cortar lenha e manusear madeira no constrastavam em nada com seus modos educados e a considerao que demonstrara por ela.
Tinham sido essas qualidades que haviam despertado em La uma emoo estranha que, em ltima anlise, a levaram a fazer amor com ele.
Procurando tirar tais pensamentos da cabea, La comeu o que restava das panquecas e olhou em direo  janela.
- Ainda est chovendo, no ?
- Est - Garrick respondeu, enquanto bebericava o caf.
- Ser que vai parar logo?
- Duvido.
La no ficou to desapontada, e isso a fez sentir-se culpada. Afinal, continuava a impor sua presena no chal.
- No h esperana de conseguirmos chegar at meu carro?
Garrick deu de ombros.
- Estava pensando em tentar, um pouco mais tarde. Achei que gostaria de pegar suas roupas.
La sorriu, notando que ele no dissera nada sobre consertar o carro e mand-la embora. Ela abaixou os
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olhos para o enorme suter de Garrick que estava vestindo.
- No sei. Acho que estou me acostumando com estas roupas confortveis.
Garrick, por sua vez, no tinha certeza de acabar se acostumando com o jeito sexy que ela ficava ao usar as roupas que lhe emprestara.
Tentando mudar o curso dos pensamentos, ele se dirigiu  pia e comeou a lavar os pratos com mais energia do que o necessrio. Quando, finalmente, terminou o servio, 
sua libido j parecia estar controlada. No queria deixar La constrangida.
A noite anterior fora muito especial. Haviam se relacionado sensualmente, sim, mas fora um ato muito mais emocional do que fsico e se voltasse a se repetir, a emoo 
estaria ali presente outra vez. S que da prxima vez iria querer toc-la, beij-la, explorar-lhe o corpo... Mas La o intrigava. O que ser que lhe passava pela 
mente? Talvez no fosse uma atitude inteligente de sua parte tentar decifrar os mistrios da mente de La. Quando a chuva passasse, provavelmente iria embora e Garrick 
no desejava sentir falta dela.
Por isso mesmo no iria question-la da maneira que tinha vontade. Dizia a si mesmo que se no a conhecesse direito, seria mais fcil convencer-se de que La era 
superficial e aborrecida.
Durante a manh, ela terminou o livro que estivera lendo e comeou outro. Fazia notas frequentes num caderno, ao encontrar palavras ou conceitos que pudessem ser 
usados na formao de palavras cruzadas. Em seu ntimo, porm, a nica charada que lhe interessava chamava-se Garrick Rodenhiser.
Aquele homem era um enigma. Sabia que, pelo menos, possuam algo em comum, mas o resto de sua vida, o dia-a-dia, o passado, tudo continuava um grande completo mistrio.
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Mentalmente, criou uma espcie de palavra cruzada particular. O nome dele estava ali, assim como outros fatos relativos  relao entre ambos. No entanto outras 
informaes essenciais para completar o jogo ainda faltavam.
Perto da hora do almoo, Garrick levantou-se e saiu sem dizer para onde ia. Quando voltou, meia hora mais tarde, La perguntou, curiosa:
- Voc foi at o carro?
- No - ele respondeu enquanto se secava.
- Estou impedindo que voc faa suas coisas?
- No.
- O que estaria fazendo, se eu no estivesse aqui?
- insistiu.
- Num dia como este, no poderia estar fazendo muita coisa. - Garrick respondeu sentando-se no sof.
Na verdade, Garrick havia estado no galpo ao lado da casa, achando que ao manter-se ocupado, conseguiria afastar La dos pensamentos. Mudara de ideia em seguida 
e agora, nem mesmo o livro que comprara na semana anterior parecia capaz de prender-lhe a ateno.
- E se no estivesse chovendo! - A voz de La o trouxe de volta  realidade.
- Estaria l fora.
- Caando? Garrick deu de ombros.
- Vitria disse que voc era caador.
- Sou, mas a poca boa para caa j terminou. Pouco depois, ela voltou a insistir no assunto:
- Que animais costuma caar?
- Martas, raposas, quatis... - ele respondeu, enquanto punha mais lenha na lareira.
- E voc vende as peles?
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- Vendo, sim.
- Nunca tive um casaco de peles...
- E por que no! - Garrick se virou para encar-la.
- Em primeiro lugar, porque so muito caros. Richard, meu ex-marido, queria me comprar um, mas eu fiz com que desistisse. Se voc vai a um restaurante com um casaco 
desses, ou fica com medo de que o roubem na chapelaria, ou receia que seusfruits de mer ao chardonnay respinguem na pele. Alm do mais, no gosto de coisas pesadas 
sobre meus ombros.
No era bem a resposta que Garrick esperava, mas dava uma boa noo do tipo de vida que La levava. Depois de um longo silncio, comentou:
- Entendo. - E sentou-se de novo. Em seguida, abaixou os olhos para o livro, a fim de terminar a conversa.
La percebeu o gesto ostensivo de Garrick e permaneceu calada.
Na hora do almoo, La tentou reiniciar a conversa que fora interrompida:
- Eu ofendi voc?
- Como?
- Ficou ofendido com o que eu falei sobre casacos de pele?
- Voc no me ofendeu em nada. Tambm no gosto.
- No?
Ele balanou a cabea.
- E isso no tira um pouco do prazer de seu trabalho? - ela perguntou.
- O que quer dizer?
- E o produto final do seu trabalho, agrada voc?
- Agrada.
- E se visse algum embrulhando peixe na feira com suas palavras cruzadas?
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- Tentaria racionalizar a situao.
- Como?
- Diria a mim mesma que sou paga para criar palavras cruzadas, que gosto do que fao e que meu envolvimento termina ao entregar os originais ao editor. Se algum 
embrulha peixe em palavras cruzadas... - ela hesitou. - O problema no  meu. Afinal, se meu trabalho  publicado em jornal, existe uma grande possibilidade de que 
isso acontea.
Garrick riu.
La murmurou com ar malandro:
- Se algum sente prazer em usar um casaco de peles, ento que o use. - Ela colocou os cabelos para trs das orelhas e prosseguiu: - Gosta de caar?
- Gosto.
- Por qu?
-  preciso habilidade.
- E voc gosta do desafio.
- Sim.
- Como aprendeu a fazer isso?
- Um velho caador me ensinou a preparar as armadilhas. Na verdade,  assim que cao, com armadilhas, no com armas. J terminou de comer?
- Um velho caador? Daqui?
- Ele j est morto. - Empilhando os pratos, copos e talheres, Garrick seguiu para a pia. - Acho que darei uma corrida at seu carro. Se me disser o que quer que 
eu traga...
- vou junto. - La se levantou no mesmo instante.
- No.
- Quatro mos so melhores que duas. Ele se voltou para encar-la.
- No, se eu tiver de carregar voc.
- Isso no vai acontecer.
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- Ora, La, j passou por maus bocados para chegar at aqui. Sabe como o caminho  duro sob a chuva.
Ela se aproximou da pia, tentando convenc-lo.
- Mas aquilo foi durante a noite. Eu mal podia enxergar; no sabia para onde estava indo. Alm do que meus sapatos no eram adequados.
- E que sapatos usaria agora?
- Ah, voc deve ter um par de botas velhas por a.
- Claro que sim. Tamanho quarenta e trs.
La estava parada logo atrs dele, o rosto repleto de esperana.
- Eu poderia vestir vrias meias de l.
- No vai dar certo.
- Sei que conseguiria, Garrick.
- Mas ia demorar muito at chegarmos l. No caso de ter se esquecido, est chovendo l fora, e minha ideia  a de fazer a corrida no menor tempo possvel.
- Quanto tempo levaria para corrermos esses quilmetros?
- Quilmetros? - ele riu. - Voc acha que andou quilmetros at chegar aqui?
- Incrvel... A sensao queive foi de que fiquei andando uma eternidade at chegar aqui. Acho que foi por causa da escurido, e ca vrias vezes.
- Pois bem, agora  de dia e voc cairia do mesmo jeito por causa do barro. Eu estou acostumado. - Garrick passou os dedos pelo bigode antes de completar:
- Ah, e a cabana de Vitria no  longe, est a uns quinhentos metros daqui.
- Quinhentos metros? - exclamou surpresa, ficando imediatamente mais otimista. - Isso no  nada! Poderia percorrer essa distncia sem maiores problemas.
Garrick virou-se para fit-la. A cabea morena estava jogada para trs, as sobrancelhas arqueadas em expectativa. Ficou encantado com o rubor em suas faces,
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com os lbios midos e entreabertos. A vontade que teve de beij-la foi to forte e repentina, que precisou de todas suas foras para se conter. Controle era a palavra 
chave de sua vida desde que chegara em New Hampshire. Autocontrole: nada de cigarros, nada de bebidas, nem beijos por impulso.
Colocando as mos sobre os ombros de La, ele falou em voz baixa:
- Preferia que voc ficasse aqui, para sua prpria segurana e conforto.
Se Garrick houvesse dito de outra maneira, ou tivesse dado uma outra razo para querer que ela ficasse, La provavelmente prosseguiria com a discusso. Mas junto 
com a expresso preocupada em seu rosto, aquela voz suave e quente a acalmava.
Mordiscando o lbio, La deu um passo para trs, rodeou Garrick e lhe cutucou de leve na cintura.
- V, e pode deixar que eu limpo a cozinha.
- Precisa me dizer o que quer que eu traga.
- vou fazer uma lista.
Enquanto isso, Garrick foi atiar o fogo na lareira e vestir a capa de chuva. J estava terminando de calar as botas quando La lhe estendeu a lista dos objetos 
que eram necessrios, e onde poderia encontr-los. Colocando o papel no bolso, ele tocou a ponta do capuz, num cumprimento, e saiu.
Pouco depois, sentado no banco do motorista do carro de La, Garrick segurava entre os dedos a carta escrita por Vitria. No tinha vontade de abrir o envelope; 
sabia que encontraria ali uma recomendao entusiasta a respeito de La e, no que dizia respeito a ele, sua "hspede" no precisava de recomendao alguma. Estava 
se saindo muito bem por si mesma.
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Guardando novamente a carta na bolsa, recolheu com rapidez as coisas que La lhe pedira. Foi uma tarefa fcil pois, sendo bastante organizada, ela lhe escrevera 
uma lista detalhada:
"Por favor, trazer:
1) Mala preta assinada por Vuitton (no faz meu estilo, foi um presente), que est sobre as outras malas sem assinaturas, atrs do banco do passageiro.
2) Maleta do Mickey, cheia de livros, a uns dois palmos da mala.
3) Saco de mantimentos (grande) atrs do banco do motorista.
OBS: Se o saco rasgar, jogue a comida para os animais e em vez disso, traga a sacola de brim preto."
O saco de mantimentos no rasgou, e Garrick conseguiu levar tudo, inclusive a sacola de brim preto. Sentiuse meio ridculo com uma bolsa de mulher pendurada  tiracolo 
mas, afinal, quem iria v-lo?
Caminhou sob a chuva, cada vez mais nervoso. Estava irritado com La por elaser to doce, solitria e boa companhia. Morria de raiva de Vitria por t-la enviado 
at ele. A bagagem de La batia de encontro s laterais de seu corpo, tornando mais difcil a tarefa de manter o equilbrio no cho lamacento. Incomodava-lhe a chuva 
intermitente, que tornava a situao ainda pior.
Porm, acima de tudo, estava furioso com a vida por ter lhe aprontado tamanha armadilha quando ele menos esperava. As coisas iam correndo to bem, at que La surgira, 
ameaando o tipo de vida que lutara tanto para construir. Pior, sentia que nada seria como antes quando ela se fosse.
E La iria embora; pertencia s grandes cidades. Frequentava restaurantes franceses, ia a teatros, possua malas assinadas por Louis Vuitton, mesmo que houvesse 
ganho de presente. Claro que devia estar gostando da
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novidade, um lugar afastado e calmo para fugir da rotina da cidade. Mas Garrick tinha certeza de que ela logo se cansaria e partiria. E ele voltaria a ficar sozinho. 
S que desta vez no reencontraria a paz de esprito perdida.
Ao chegar  cabana, Garrick j estava realmente de mau humor. Deixando a bagagem de La no cho, tornou a sair e caminhou por um bom tempo, sem se importar com a 
chuva e o frio.
J era tarde quando voltou. La havia acendido as luzes e o fogo da lareira esquentava o ambiente. No foi o cheiro da madeira, porm, que atingiu suas narinas em 
primeiro lugar. Tirando a capa, Garrick seguiu direto para a cozinha e encontrou La ao fogo.
Ela levantou os olhos para Garrick e voltou a fixar a ateno na comida que preparava. Apesar de encontrar-se h quatro anos longe da civilizao, podia reconhecer 
muito bem uma panela especial para cozinhar comida chinesa.
- Voc est preparando comida chinesa? - perguntou estarrecido.
- Estou tentando - La o olhou apreensiva, arrumando os culos. - Fiz um curso h pouco tempo, mas nunca preparei nada sozinha. Era uma das coisas que pretendia 
praticar no chal de Vitria.
- Quer dizer que eu estive carregando um saco de produtos chineses sob a chuva? - indagou, reparando no livro de culinria sobre a pia.
- Entre outras coisas - La apressou-se em dizer. "As outras j coloquei no refrigerador".
- Quer dizer que na bagagem que eu trouxe tinha uma vok1 Pensei que houvesse me pedido para trazer objetos essenciais.
La lanou-lhe outro olhar nervoso. No sabia por que ele ficara to aborrecido.
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- Voc me pediu que dissesse o que eu queria que trouxesse. E no gosto de preparar comida chinesa em panela comum.
Garrick olhou em volta procurando pelas outras sacolas. La, pelo jeito, j guardara tudo, sabe-se l onde.
- E o que mais andei carregando sob a chuva alm da wokl
O tom de voz autoritrio lembrava tanto a maneira como Richard costumava trat-la, que La teve de fazer fora para manter a voz controlada.
- A panela estava junto com meus livros na sacola do Mickey. Havia algumas roupas tambm. - Indicou a cala jeans desbotada que vestia. Usava tambm sapatos mocassim,
porm continuara com o suter de l de Garrick. Agora desejava ter trocado de blusa.
- E na sacola de brim preto? Estava bastante pesada.
Naquele instante La desejou ser capaz de mentir satisfatoriamente. No que adiantasse, pois Garrick logo descobriria a verdade.
- Um gravador cassete e algumas fitas - confessou.
- O qu?
La o olhou com firmeza e repetiu:
- Um gravador e fitas cassete.
- Ah, essa no! No vou permitir que atrapalhe minha paz e tranquilidade com msica barulhenta.
- No so msicas barulhentas.
- Alta, ento. No vim morar aqui para ter de suportar uma coisa dessas.
La sabia que deveria estar agradecida por ele a ter recolhido  cabana, mas desde o fim de seu casamento jurara nunca mais ter de suportar gritos ou maltratos.
Pensara que Garrick fosse diferente.
- Tocarei baixinho, ou melhor, no tocarei quando voc estiver em casa - afirmou. - Entretanto, quando
sair e ficar tanto tempo fora quanto ficou hoje, ouvirei minhas fitas.
- Ficou aborrecida por eu t-la deixado sozinha, no ?
- No fiquei, no! Por mim, pode ir onde quiser, a hora que bem desejar. S que quando estiver sozinha, ouvirei minhas msicas. E, de qualquer modo, daqui h alguns
dias estar livre de mim. - La respirou fundo antes de acrescentar: - Posso estar invadindo sua privacidade, mas no se esquea, se no fosse por sua causa, Vitria
nunca teria me mandado para c.
Garrick nunca havia pensado na situao sob tal ponto de vista. Como sempre, La parecia estar coberta de razo.
Dando-lhe as costas, caminhou at  cmoda ao lado da cama, arrancou a malha de l e a camiseta de uma s vez, e passou a abrir todas as gavetas  procura de roupas
secas.
La, que o observava da cozinha, engoliu em seco ante a nudez parcial de Garrick. Ainda bem que s tirara as blusas, mas mesmo assim a viso dos ombros largos, os
msculos firmes e bem delineados, a cintura estreita e os braos fortes a fizeram estremecer.
Voltando a ateno para a comida, tampou a panela chinesa, desligou o fogo e deu uma olhada na panela de arroz.
Tudo estava pronto: a comida no ponto, a mesa arrumada. La s no sabia se deveria chamar Garrick. Ele continuava mal-humorado, sentado perto da lareira.
Aps alguns segundos se aproximou hesitante:
- Garrick?
- Hum?
- Est tudo pronto, se quiser comer agora... - La passou as mos midas sobre o jeans. ludo o que obteve como resposta foi uma frase ininteligvel.
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- O que disse?
- No precisava ter feito o jantar.
- Eu sei.
- O que preparou?
- Frango cozido com feijo preto. Garrick continuou encarando o fogo.
- H anos que no ouo falar de comida chinesa. Jamais gostei.
Inexplicavelmente ofendida, La deu as costas e se afastou. No estava com muita fome, mas no desperdiaria tanto trabalho e boas intenes por causa de um homem
grosseiro. Fez seu prato e sentou-se  mesa.
com o canto dos olhos pde ver que ele se levantava do sof. Chegando at o fogo, Garrick abriu as panelas e cheirou a comida. Momentos depois, sentava-se  frente
de La com o prato cheio.
- No est ruim - comentou, aps a primeira garfada. Pouco depois, perguntou: - O que tem aqui?
- r- Broto de bambu, cebolinha, molho de ostras, conhaque, gengibre...
- No  o tipo de comida que se encontra em qualquer restaurante chins.
- No.
Realmente a refeio estava excelente e La sentia-se orgulhosa.
Comeram em silncio, e mais de uma vez La teve de se controlar para no fazer-lhe certas perguntas que permaneciam sem resposta. Queria saber por que Garrick estava 
to irritado, e o que ela fizera para provocar tal fria. Queria perguntar onde e o que estivera fazendo antes de se mudar para as montanhas.
Comida chinesa... A simples meno de tais palavras evocavam nele lembranas que gostaria de esquecer. O sei de filmagens; uma grande mesa repleta de comida
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embalada em pratos descartveis para viagem; a comida intragvel, que ele conseguia engolir com algumas boas doses de usque...
Outra imagem passou-lhe pela mente: uma noitada com uma loira sensacional, que insistira em comprar comida chinesa para ambos a caminho do apartamento dele. Na manh 
seguinte, sentindo-se pssimo, tivera enjoo s de ver o resto de comida nos pratos.
Comida chinesa... Uma outra vez, sentindo-se s, fora completamente embriagado at um restaurante chins e encomendara comida suficiente para doze pessoas, fingindo 
que daria uma festa. Fingindo continuar sendo um astro, seguira para casa e l, olhando para as sacolas de comida, chorara como uma criana.
- Garrick? - A voz de La o trouxe de volta  realidade.
Levantando a cabea, viu que ela lhe estendia a carta de Vitria. Garrick olhou para o envelppe por algum tempo ento, empurrou a cadeira para trs, ficou em p 
e foi colocar a carta fechada sobre uma estante.
La limpou o fogo em silncio, pensativa. Sabia que algo incomodava Garrick, no s por suas maneiras bruscas, como tambm pelos olhos dele. Oh, sim, sabia que 
estava magoado, mas o que poderia fazer?
Depois de tudo arrumado, ela pegou um de seus prprios livros e sentou-se num canto do sof, embora fosse difcil manter-se concentrada na leitura. A presena de 
Garrick era forte demais.
Uma hora se passou. Garrick virou-se para ela.
- Voc disse que havia roupas na maleta.
Ela fez um gesto em direo ao jeans e ao sapato.
- Alm dessas, quero dizer.
La sabia que Garrick estava falando isso por causa do suter que ela continuava a usar.
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- Tem sim. Amanh vou lavar as que voc me emprestou.
Ele resmungou alguma coisa e se calou. Mais um perodo de silncio se passou. Garrick levantou-se para atiar o fogo.
- Ainda no consigo acreditar que me tenha feito ir at o carro para pegar livros e um gravador - exclamou. - Vai precisar de mais que uma muda de roupa.
- H outra muda na maleta.
- No ser suficiente, se ficarmos presos aqui por
muito tempo mais.
- Posso lav-las. Alm disso, tenho um par de botas na maleta, e quando puder ir at o carro eu...
- Botas? Por que, diabos, nocolocou as botas na noite em que chegou aqui?
La enrijeceu o corpo.
- Eu no pensava que o caminho fosse to ruim.
- Voc no pensava... sei... Seu carro estava bem atolado, pelo jeito voc fez um timo trabalho...
- No sei muito sobre carros ou lamaais - respondeu tremendo. - Fiz o melhor que pude!
Garrick desviou o olhar. A tenso enchia o ambiente.
- Nem mesmo trancou o carro! - grunhiu algum tempo depois. - Sua bolsa estava l dentro, junto com tudo que  seu, e voc o deixa aberto!
- Eu estava preocupada demais para pensar nisso.
- Imagine se no vivesse em Nova York! La fechou o livro com fora.
- Nunca tive um carro antes. Qual  o problema, Garrick? Voc disse que ningum sai com um tempo destes, e mesmo que sasse, quem iria at uma cabana que foi incendiada? 
Minhas coisas estavam a salvo e, se no estivessem, qual o problema? So apenas objetosl
- com certeza voc vai dar o resto de presente, j
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que tem consigo seus preciosos livros e fitas, alm da panela,  claro.
- Droga, Garrick! - ela gritou, pondo-se de p. Por que est fazendo isso comigo? No lhe digo como deve viver, no ? Se para mim livros so mais importantes que 
roupas, o problema  meu. - As lgrimas fluam de seus olhos, mas ela tentava no chorar. - Talvez no seja como as outras mulheres que conheceu, mas  assim que 
sou. Ser que o incomoda o fato de me ver sempre com as mesmas roupas? Se estiver limpa, qual  o problema? Ser que sou to horrvel assim, que precise me efeitar
para tornar minha presena suportvel?
Lutando para no chorar, La continuou:
- Sei que no me quer aqui e por isso eu queria poder estar longe. Nunca pedi para ficar trancafiada com voc num chal. Se soubesse o que Vitria tinha em mente, 
nunca teria sado de Nova York! - A respirao dela era ofegante, e embora tentasse, no conseguiu se controlar. - Sou uma mulher independente e prezo esse fato. 
Conquistei essa independncia por mritos prprios. Acha que estou gostando de ficar isolada numa cabana com um homem grosseiro como voc? Pois saiba que no. J 
sofri demais nas mos de meu ex-marido, no preciso aguentar seus ataques tambm!
La se virou para sair, ento parou e tornou a encar-lo.
- E j que retiramos as mscaras, deixe-me dizer outra coisinha: voc  um grande mal-educado! No precisava cozinhar esta noite, mas quis ser til. E o que recebi 
em troca? Grosseria e falta de educao. Gastou seu precioso tempo decidindo se me daria ou no o privilgio de sua presena  mesa, e o que fez depois? Engoliu 
a comida como se me fizesse um favor. O que eu lhe fiz? Ser que pode ao menos me dizer isso? Ou  incapaz de dividir seus pensamentos com algum?
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Durante todo o desabafo de La, Garrick no movera um s msculo.
Levantando os braos no ar, num gesto de desistncia, ela retirou a mala preta de baixo da cama, pegou uma camisola e foi para o banheiro. Um minuto depois voltava, 
guardando as roupas na maleta e deitando-se bem na beirada da cama.
Estava louca da vida. E magoada. Porm, o que mais a preocupava fora a cena que acabara de fazer. No era dada a exploses emocionais.
La s percebeu a aproximao de Garrick quando ele j se encontrava, em p, ao lado da cama. Ficou olhando para as longas pernas; no ousava olhar para cima. No 
saberia o que dizer.
Devagar, Garrick se agachou. La afundou mais o rosto nas cobertas, mas ele a fez levantar a cabea com um dedo sob seu queixo, num gesto gentil.
Os olhos castanhos diziam todas as palavras de desculpas que ele no conseguia enunciar. E a mo forte a acariciava com ternura, passando pela face, pelo nariz, 
pelos lbios.
La ficou emocionada pois, durante todo o tempo seus olhos transmitiam tristeza, humildade, sinceridade. Ela sentiu vontade de chorar.
Garrick inclinou o rosto para a frente, hesitante.
Ela passou a ponta dos dedos sobre a barba castanha, encorajando-o. Desta vez Garrick no hesitou e o que ele lhe disse com beijos substituiu qualquer palavra de 
amor.
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CAPTULO V
Era a primeira vez que seus lbios se tocavam e a gentileza com que Garrick a beijou mostrava o quanto se importava com La, o quanto precisava dela. Em seguida 
afastou-se para fit-la.
com carinho, a beijou nas plpebras, na ponta do nariz, nas faces e na testa. Quando a beijou de novo na boca, La o recebeu com os lbios entreabertos, mal contendo 
o desejo que a invadia.
O desejo era recproco e os consumia. Garrick, feliz, percebia que seus gestos fluam com espontaneidade; nunca se sentira to bem em toda vida.  realidade do sexo 
vivido com La adquiria uma dimenso especial, mgica.
La notou o sentimento forte que havia por trs da boca que a beijava, da lngua que percorria seu pescoo, as mos que se emaranhavam entre seus cabelos com tanta 
ternura. Sentia coisas novas e diferentes, que a tocavam fundo no corao e a deixavam trmula.
- Garrick? - sussurrou.
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- Sinto muito ter gritado com voc.
- Falaremos depois - murmurou, segurando-lhe o rosto entre as mos. - Agora, preciso muito de voc.
- Ento, o beijou mais uma vez, depois se afastou para tirar a camiseta.
Antes mesmo que Garrick a retirasse por completo, as mos de La corriam o peito largo, coberto de plos castanhos que rebrilhavam feito ouro sob a luz do fogo. 
com as mos espalmadas, acariciou-lhe os ombros, escorregou at a cintura e subiu novamente, roando os dedos sobre os mamilos, provocando em Garrick um suspiro 
de prazer.
De olhos fechados e cabea jogada para trs, ele a segurava pelos pulsos, no porque pretendesse impedi-la de toc-lo, mas porque precisava ter certeza de que aquilo 
no era apenas um sonho. Sentia-se inebriado e, quando percebeu as mos de La fazendo largos crculos sobre os msculos de suas costas, com dedos trmulos, Garrick 
desabotoou um por um os botes da camisola que ela usava.
Por um longo momento tudo o que pde fazer foi olh-la; a perfeio ante seus olhos o fez prender a respirao. Os seios de La eram lindos realados pela luz tnue 
da lareira. Tocou-lhe um dos seios com delicadeza e La prendeu a respirao, passando as mos nos quadris de Garrick.
Seus olhos se encontraram.
- Quero toc-la, querida, inteirinha...
Garrick no pde conter um sorriso ao perceber o prazer que La sentia. Era uma mulher adorvel... Ele a beijou de novo, acariciando-lhe os mamilos, excitandoa, 
provocando-a.
- Acabe de se despir, Garrick...
Ele atendeu-lhe o pedido e em seguida a abraou.
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com a boca La mordiscava-lhe a curva do pescoo, enquanto as mos delicadas se deliciavam com os segredos do corpo msculo.
As carcias de Garrick cada vez mais ntimas a alucinavam. Era como se flutuasse, levada pela habilidade dele.
- Garrick... eu...
Mas ele insistia em dar-lhe todo o prazer do mundo. Sugando-lhe alternadamente os mamilos, colocou por terra a ltima resistncia de La. Prendendo a mo de Garrick 
entre suas coxas, La estremeceu num xtase inesperado.
Durante alguns minutos Garrick a ficou olhando-a em silncio, acariciando-lhe os cabelos.
- Gosto de ver voc assim... me parece to tranquila...
- E  assim exatamente que me sinto...
Os carinhos de Garrick recomearam, devagar. com cuidado ele retirou-lhe a camisola e, com os lbios, acariciou a pele macia.
Aos poucos La comeou a reagir queles toques mgicos e retribuir-lhe as carcias, incitando-o, provocandoo, levando-o ao delrio.
Tomado por sensaes novas para ele, Garrick sentiase mais do que desejado. Sentia-se valorizado como homem, como ser humano. E percebeu que no se importava mais 
com o futuro. Precisava de La, e por todo o tempo em que ela quisesse ficar a seu lado. Depois, se voltasse a ficar s, pelo menos teria experimentado um sentimento 
que a maioria dos homens no encontrava durante a vida inteira. Teria a lembrana daqueles momentos maravilhosos, nicos.
Perdendo todo o autocontrole que se impusera Garrick a penetrou.
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Os olhos de La estavam fechados e um leve sorriso de contentamento surgiu em seus lbios. com um suspiro, enlaou-lhe os quadris com as pernas.
- No se mexa - ela pediu. - Fique assim por um instante... - Me sinto... plena.
- La? - Garrick murmurou.
Devagar, ela abriu os olhos. Estavam iluminados pelo mesmo amor que inundava Garrick. Ele sabia que era absurdo; eles s se conheciam h dois dias, sob condies 
pouco comuns. No haviam quase conversado, trocado ideias, mas mesmo assim ele sentia que a amava. Nunca sentira antes um desejo to grande de se entregar. Como 
se pudesse ler-lhe os pensamentos, La comeou um movimento cadenciado de quadris, que logo se intensificou. Levantando o rosto, ela o beijou e Garrick perdeu a 
noo de tudo, menos dos lbios macios e da lngua morna que explorava-lhe a boca.
Num momento de lucidez, Garrick percebeu que La agora, junto com ele, mais uma vez atingia o clmax. Devagar ele se afastou, acomodando-lhe o rosto na curva do 
ombro. com um dos braos a enlaava pelas costas, enquanto que o outro estava pousado sobre a coxa de La.
De olhos fechados, ela suspirou contente.
- Ah, Garrick, foi to bom...
- Foi muito, muito bom... - ele concordou em voz baixa.
No passado, quela hora Garrick estaria acendendo um cigarro, louco para que sua parceira fosse logo embora. Agora, tudo o que queria era permanecer ao lado de La, 
abraando-a, afagando-a. E conversando com ela.
- Voc foi maravilhoso. Acho que vou brigar com voc mais vezes.
Garrick riu.
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- Seria bom, mesmo. Acho que me coloca em meu devido lugar.
- No sou do tipo de criar confuso.
- E eu no costumo ser to mal-educado.
- Ento, por que vem agindo dessa forma comigo?
- Por sua causa.
-  to difcil ficar aqui comigo?
-   justamente o oposto. Gosto de ter voc comigo.
- Ento, por que...
- Gosto demais de voc. Pensava que minha vida fosse perfeita, ento voc apareceu e complicou tudo...
- Ah, acho que sei o que quer dizer.
- Verdade?
- Ha-h. Nunca me importei em viver s, sem um homem. Sempre achei que era o mais seguro.
- Seu casamento foi uma experincia to ruim assim?
- Foi.
- Ele maltratava voc?
- Ele nunca bateu em mim, se  o que quer saber. Era uma coisa emocional.
- Conte mais. Como era ele?
La pensou por alguns instantes, procurando uma maneira de descrever Richard sem demonstrar muita amargura.
- Era bonito, charmoso. Capaz de vender geladeira a um esquim.
- Era vendedor?
- De certo modo, sim. Era um executivo importante de uma agncia de propaganda. A pessoa mais carismtica que j conheci. Atraa as pessoas como ningum. Choviam 
clientes para a agncia, s por causa dele. S Deus sabe por que ele casou comigo.
Garrick passou a mo pelos cabelos e ela prosseguiu:
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-  verdade... Acho que  porque Richard estava apenas principiando a carreira, quando nos conhecemos. Ele precisava de uma esposa que tivesse boa aparncia e, quando 
eu queria, bem que conseguia. Algum que, como eu, conhecesse bem a cidade de Nova York. E, acima de tudo, algum que ele pudesse manipular.
- Voc no parece algum que possa ser manipulada - Garrick declarou, honestamente.
La riu.
- Diz isso mesmo depois do que Vitria nos aprontou?
-  uma excesso. Alm do mais, da mesma maneira como ns dois fomos envolvidos, ento, no conta.
- Bem, Richard conseguia fazer de mim o que bem entendesse. Eu queria agrad-lo em tudo e transformar nosso casamento num grande sucesso.
- E por que no conseguiu?
- Ah, por centenas de razes. Mas, a principal  que eu no pude ser a esposa que Richard desejava.
- No pde?
- E no quis. Cansei de ouvir dizerem o que deveria vestir e onde, de no satisfaz-lo por mais que me esforasse.
- Mas o que ele queria afinal? - Garrick reclamou, irritado.
- Perfeio.
- Ningum  perfeito.
- V dizer isso a Richard.
- No, obrigado.  o tipo de pessoa que eu nunca gostaria de encontrar na vida.
- Voc  bem esperto.
- Esperto ou fraco, ainda no sei bem. La virou-se para olh-lo de frente.
- Voc, fraco? Olhe s o modo como vive...  preciso muita fora para suportar.
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- Fora fsica, sim.
- No s fsica, psicolgica. Morar sozinho nas montanhas, sentir-se bem consigo prprio, a maioria das pessoas no consegue.
Era a deixa perfeita para Garrick contar algo sobre seu passado. No entanto, as palavras teimavam em no sair de seus lbios. Queria o respeito de La e tinha medo 
da reao dela quando contasse a verdade.
- No sei se me sentia bem aqui sozinho. Viu s como me apeguei a voc! - Ele a beijou de leve, mas aos poucos o beijo tornou-se mais intenso. - Voc tem um gosto 
delicioso - murmurou. - E eu adoro seu corpo.  to bom senti-la assim em cima de mim.
E era exatamente onde La estava, os seios apertados contra o peito de Garrick.
- Voc tem um cheiro bom... - ela afirmou. Voc cheira a capim e madeira.
- Garrick?
- Que , meu amor?
- Quero amar voc outra vez. Ele riu, satisfeito.
- O que h de to engraado?
- Voc.  maravilhosa.
- Isso significa que tambm me quer?
- O que voc acha? - indagou, levantando os quadris e pressionando os dela.
- Acho que sim. Mas pode ser que voc pense que estou s atrs de seu corpo.
Desta vez ele no riu. Obrigou-a a olh-lo nos olhos e declarou cheio de ternura.
- O que acho,  que sou o homem com mais sorte em todo o mundo. - E ele a beijou, enquanto deslizavalhe as mos sobre o corpo.
La se deixou levar mais uma vez pela magia de seus
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corpos que mais pareciam um s. Ento Garrick gritou de prazer e La percorreu de novo os caminhos infinitos do amor.
Mais tarde, sob as cobertas, protegidos do frio, ele disse:
- Nunca trouxe uma mulher aqui.
- Eu sei.
- Para falar a verdade, nunca veio muita gente aqui. Um ou outro caador.
- E s no inverno?
- Praticamente at o ms de janeiro.
- Por qu?
- Existe uma lei. As peles so mais espessas no inverno e obtm melhores preos. Isso porm,  controlado pelo Departamento de Caa e Pesca. Por exemplo, s me  
permitido caar trs martas por ano. com mais ou menos oitocentos caadores neste estado, trs animais cada, imagine a quantidade de martas abatidas ao ano. Se no 
puserem certos limites,  extino na certa.
- E como esses limites so colocados?
- Bem, o departamento decide baseado nas informaes dadas pelos prprios caadores, no ano anterior. Temos de notificar cada animal caado. Tambm informamos onde 
o pegamos, quando, qual era o estado do animal e o que achamos da situao da espcie em geral, enquanto armava minhas armadilhas.
- Ento, os limites variam a cada ano?
- Teoricamente, sim. Mas como o nmero de animais tem se mantido estvel h vrios anos, acho que o departamento est agindo corretamente. H muita poltica envolvida. 
Por exemplo: martas se alimentam de coelhos e outras espcies, ento os caadores desses animais querem um aumento da caa de martas, para sobrar mais para eles 
caarem.
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- E a?
- Como as martas foram quase extintas na dcada de 30, o departamento  muito rgido com as tais leis.
- E por que s podem caar at o fim de janeiro?
- Porque no ms seguinte comea o acasalamento. Caar nessa poca teria um efeito devastador.
- Ento, s pode trabalhar trs meses por ano!
- Posso pegar esquilos at o final de maro e coiotes quando bem entender. S que o primeiro costumo usar como isca e os coiotes no me interessam muito. Alm do 
mais, eles so espertos. Voc pega um coiote, e os outros tratam de se manter longe daquele local.
La adorava ouvi-lo falar, no s pelo tom de voz quente e sensual, quase que um murmrio, mas pelas coisas curiosas que ele contava.
- Caar deve ser uma arte.
- ... mais ou menos... So poucos meses, mas o trabalho  duro. E tudo comea antes da temporada de caa. Tenho de obter licena, depois escrever aos proprietrios 
das terras onde pretendo armar as armadilhas. Tenho de prepar-las, consertar as antigas. Cada vez que a estao comea, preciso coloc-las uma por uma e chec-las 
todos os dias.
- Todos os dias?
- De manh bem cedo.
- No  aborrecido?
- No. Eu gosto.
Antes de se mudar para a montanha, Garrick detestava levantar cedo. Agora, no tinha problemas em acordar cedo e at achava as primeiras horas da manh mais tranquilas 
e producentes.
- E por que tem de chec-las de manh cedinho?
- Porque a maioria dos animais que cao cai nas armadilhas durante a noite. Tenho de retir-los logo em seguida.
103
- Por qu?
Garrick riu, e percebeu que rira mais nas ltimas horas do que nas semanas anteriores.
- O que h de to engraado? Ele a puxou para mais perto.
- Voc. Sua curiosidade.
-  que estou achando muito interessante tudo isso. Voc se importa com as perguntas?
- No, no me importo. - E isso era verdade, o que o surpreendia tanto quanto suas risadas. Os ltimos quatro anos haviam sido dominados pelo silncio. Garrick falava 
apenas o necessrio com os habitantes locais. Mesmo o velho que o ensinara a caar, felizmente no era de falar muito o que agradava bastante Garrick. Ele j tivera 
sua cota de conversas fteis e banais.
- Nunca na vida havia conseguido compartilhar com algum o tipo de conversa leve e agradvel que estava tendo com La.
- Ento, quer saber por que tenho de recolher logo a caa? Se no recolh-las, h o perigo das raposas e pegarem antes de mim; ou a pele estragar-se por outro motivo 
qualquer. Depois, tenho de trabalhar a pele.
- O que  preciso fazer?
- Bem, para retirar a carne... Ah, voc no vai gostar nada desses detalhes.
- Est bem. Ento, quer dizer que a temporada de caa  curta. O que voc faz no resto do ano?
- Leio. Fao esculturas em madeira. Planto vegetais.
- Vegetais? Onde?
- L atrs, nos fundos.
- O que tem nos fundos? - Como no havia janela na parede dos fundos, era impossvel La ver alguma coisa.
- H uma clareira. - Ele a afagou com o polegar.
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 pequena, mas no vero, bate sol suficiente para que
eu plante alguma coisa.
- E voc come o que planta?
- Tudo no. H uma certa quantidade de alface, que um homem  capaz de comer.
- Alface? E o que mais?
- Tomates, cenouras, repolhos, ervilhas... Congelo uma boa quantidade para consumir no inverno e, o que sobra, eu dou. Ou troco.
- Puxa! - exclamou La. - Estou espantada. Sabe que comigo no h planta que v para a frente? At que  melhor assim, se eu tivesse algum vaso em casa, teria que 
ter dado a algum antes de vir para c.
- Poderia ter trazido.
- Fico pensando, aqui estou eu com a maior parte de meus pertences dentro de um carro atolado; o chal de Vitria est imprestvel e eu no tenho para onde ir.
Garrick no a deixou continuar. Forando-a a deitar, pressionou-lhe os lbios contra os seus mostrando o quanto a desejava novamente. Beijaram-se sem cessar, tocando-se 
com ainda mais vontade e ousadia do que anteriormente. E de novo fizeram amor.
Desta vez, ficaram abraados em silncio, at que La sussurrou:
- Garrick? Adoro fazer amor com voc...
- Eu tambm...
- H quanto tempo voc est nas montanhas, Garrick?
- Quatro anos.
- E voc tem alguma mulher, uma namorada.
- No. Nunca me relacionei sexualmente com cada mulher por mais do que uma noite.
- Por qu?
Mais uma vez, La lhe estava dando a chance de se
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abrir. Seria fcil para ele aproveitar a deixa e dizer que passara muito tempo procurando por si mesmo, para se preocupar com casos de amor. E, se La continuasse
a lhe fazer perguntas, teria de respond-las. No, esta noite no. Ento, era melhor dar uma resposta evasiva:
- Nenhuma delas me fez desejar um segundo encontro.
- Oh!
- O que quer dizer com "Oh"?
- Vai me dispensar amanh?
- No posso. Lembre-se do lamaal e da chuva...
- Quer dizer que se no fosse a chuva...
- Ns j tivemos mais do que um caso de uma noite.
- Ainda no me respondeu.
- Como  que poderia mand-la embora? Voc no tem para onde ir.
- Garrick...
- No, La - declarou, envolvendo-a num abrao apertado. - Eu no a mandaria embora. Nunca a mandarei embora. Gosto de ter voc aqui, comigo. Pode ficar o quanto 
tempo quiser.
- S porque a gente se relaciona bem sexualmente?
- ela brincou.
- .
- Garrick!
- Gosto de ter voc a meu lado. Que tal?
- Melhorou.
- Quer mais?
- Sim.
- Porque voc faz meu suter ficar mais bonito.
- Pensei que o quisesse de volta.
- Pelo contrrio; quero que voc o use.
- timo.
- Pode cozinhar quanto tiver vontade.
- Mas voc odeia comida chinesa.
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- At que gostei bastante daquela que voc fez para o jantar. Eu s estava bancando o difcil. - Ele fez uma pausa, ento arriscou: - Sabe fazer mais alguma coisa
que no seja comida chinesa?
- Fiz um curso de culinria francesa. E indiana, tambm. Mas acho que no teramos os ingredientes certos para esta ltima.
- Sempre come esse tipo de comida em Nova York?
- Oh, no.
- O que come normalmente?
- Quer dizer, quando eu e Vitria no estamos acabando com a comida de algum restaurante?
- Pensando bem, voc at que come um bocado. Como  que que consegue permanecer magra?
- Cozinha de baixas calorias.
- Como?
- Baixas calorias. Compro congelada e esquento no forno de micro-ondas.
- Voc compra comida congelada pronta?
- Claro.  uma delcia. E mais saudvel que enlatados.
- Est cansada, La?
- Um pouco. Que horas so?
- No sei. No tenho relgio.
- E o meu, eu esqueci no banheiro. - La acomodou-se melhor sobre o peito de Garrick, reprimindo um bocejo.
- No queria dormir. Preferia ficar conversando.
- Eu tambm.
- Vamos conversar mais de manh, ou voltar a ficar mudo assim que o dia clarear?
Garrick riu.
- Vamos conversar.
- Promete?
- Palavra de escoteiro.
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- Voc  escoteiro?
- J fui.
- Quero que me conte sobre isso - ela murmurou, quase dormindo.
- Est bem.
- Garrick?
- Hum?
- Quantos anos voc tem? - indagou ela com voz pastosa.
- Quarenta. - Garrick esperou que La lhe perguntasse mais alguma coisa, mas ela j pegara no sono. Ento, baixinho, ele pronunciou o nome amado e, sorrindo, beijou 
a testa de La.
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CAPTULO VI
Quando La acordou na manh seguinte encontrou Garrick ainda dormindo a seu lado. Ela se espreguiou e rolou de encontro ao corpo msculo, passando o brao pela 
cintura de Garrick.
A luz entrava pela persiana, iluminando de leve a cabana. Pelo barulho no telhado, a chuva estava mais fraca, mas ela nem se importava com o tempo. Garrick dissera 
que podia ficar o quanto quisesse e, por enquanto, no iria pensar na partida.
Garrick virou-se e cobriu com uma das mos os dedos de La que lhe acariciavam o peito.
Era a primeira vez que ele ficava feliz em encontrar uma mulher em sua cama, de manh cedo.
- bom dia, querida - ele disse sorrindo. - bom dia.
- Dormiu bem?
- Como um anjo.
- Voc no parece um anjo. - O olhar de Garrick
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percorreu o rosto de La, passando pelos cabelos e a boca que ele tanto beijara. - Est muito sexy.
- Voc tambm.
Os olhos dele fixaram-se em seu busto nu.
- Nunca vi voc  luz do dia.
- Viu sim.
- Nua - ele arrematou, abaixando as cobertas para v-la por inteiro. - Voc  linda.
La sentiu-se estremecer, no s pela intensidade do olhar de Garrick, mas porque ao descobri-la ele tambm ficara nu ante seus olhos.
- Quero voc - ele sussurrou. - Acho que at sonhei com isso.
- No precisa sonhar. Eu estou aqui...
-  to difcil de acreditar... - Inclinando o corpo ele passou a acarici-la.
- Garrick... Gosto tanto quando me toca desse jeito...
Garrick puxou-a para perto e olhou-a fixamente.
Abraaram-se em silncio por um bom tempo e o desejo acabou sendo substitudo pela simples alegria de estarem juntos. E, naquele momento, aquela proximidade parecia 
mais significativa que tudo.
Depois de algum tempo, Garrick a soltou.
- Preciso de um banho. Quer ir junto?
- Sempre tomei banho sozinha... - Verdade?
- ... a pura verdade.
- Est disposta a experimentar?
- Claro...
- Ento venha - ele rolou da cama e a pegou nos braos.
- O cho est frio.
- Mas voc est de p!
- Quer me carregar no colo?
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- Eu no, voc  muito pesado!
- Ento, fique quietinha.
Ao chegar ao banheiro, Garrick a colocou de p, abriu o chuveiro e ajoelhou-se ante La, para tirar o curativo da perna machucada.
- Parece melhor - disse, passando em seguida os olhos pelo resto do corpo dela. - Mas prefiro o resto.
- Ainda bem.
Aps dar-lhe um beijo, Garrick ficou de p e entraram no banho. Ensaboaram um ao outro, deslizando as mos em carinhos sensuais, resistindo, porm  tentao de 
fazerem amor, como se quisessem provar que a relao entre ambos era mais do que apenas sexo.
Depois do banho, prepararam juntos o caf da manh e, famintos, o devoraram rapidamente.
- Gosto de seus cabelos - falou Garrick. - Voc sempre o usou assim?
- No. Eu os cortei no dia em que saiu meu divrcio. Ele a puxou para seu colo, quando La se aproximou
para retirar o prato vazio.
- Para celebrar?
- Comemorar minha independncia. Sabe, quando eu era pequena minha me gostava de meus cabelos compridos porque podia pente-los, prender fitas e laos. Depois, 
Richard queria-os compridos porque fazia uma imagem de mulher sofisticada: "mechas longas sobre ombros nus" - La imitou o tom do ex-marido. - s vezes me fazia 
prend-los num coque ou com uma fivela bem chique. Eu passava horas frente ao espelho tentando ficar do jeito que ele queria. Odiava isso.
- Ento, voc os cortou.
- Cortei.
Ele acariciou os fios negros.
- Gosto deles assim.
-  mais prtico.
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- Ento so bonitos e prticos - Garrick passou os dedos pela franja. - Voc gostava de sair?
- Nunca fui muito socivel. Era meio tmida.
- Tmida? Verdade?
Sorrindo, La o abraou e esfregou o nariz nos cabelos dele.
- Verdade.
- E por qu?
Ela levantou os ombros.
- Era metida a intelectual, eu acho...
Garrick a fez ficar de p e foi para a pia com os pratos sujos.
- Compreendo - ele disse.
- Por que est estudando latim? - La indagou.
-  interessante. Tantas palavras tm derivao latina...
- No aprendeu latim na escola?
- No. Aprendi espanhol. Minha me era professora de espanhol.
- Est brincando!
-  srio. - O modo como ela falara indicava que havia algo mais que no dissera.
- Oh-oh, voc no gostava das aulas?
- Mame estava sempre muito envolvida com seu trabalho. Quando no estava dando aulas, viajava de um lado para outro fazendo cursos, ou atendendo alunos em casa.
- E voc no gostava nada disso.
- Queria que ela ficasse mais tempo comigo.
- E seu pai, o que fazia?
- Era gastrenterologista.
- Dos mais ocupados.
- Acertou em cheio.
- Ento, voc ficava sempre sozinho?
- Acertou outra vez.
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- No teve irmos?
Ele fez que no, e esticou a panela que acabara de lavar, para que La a enxugasse.
- E quanto a voc?
- Filha nica, tambm. Mas fui uma criana superprotegida. No  engraado que tenhamos tido experincias to diferentes? Quem sabe se pusssemos nossos pais juntos 
numa caixa e a chacoalhssemos, teramos afinal o que queramos?
Garrick riu de um jeito meio triste.
- ... se pudssemos...
Aps terminarem de limpar a cozinha, Garrick acendeu a lareira, sentou-se no sof e acomodou La entre suas pernas.
- Voc sempre usou culos? - perguntou, o hlito quente contra a orelha de La.
Desde os onze anos. Usei lentes de contato durante algum tempo, a pedido de Richard, mas nunca consegui me acostumar.
- Por qu
- Era horrvel aquela rotina de "pe a lente todas as manhs, tira as lentes de noite, limpa as lentes..." Alm do mais, por que esconder que sou mope?
- Voc fica adorvel de culos.
- Obrigada - ela respondeu sorrindo. - Esse lugar  to bom, me sinto em paz.  assim que se sente, vivendo aqui?
- Mais ainda depois que voc chegou.
- E antes? Foi essa sensao de paz que o fez vir para c?
- So vrias coisas juntas. Paz, tambm. Trabalho duro, mas de acordo com meu ritmo; aqui no existe aquele sentimento de competio que h na cidade.
Pelas palavras dele, era bvio que Garrick conhecera
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uma vida bem diferente daquela, antes de ir para a montanha. Mais uma vez, La teve a oportunidade de indagar-lhe sobre o passado, mas no o fez. Voltando o rosto 
para o fogo, perguntou:
- Nunca fica entediado?
- No, nunca...
- E quando  que aprendeu a esculpir em madeira?
- Logo que cheguei.
- Foi o velho caador quem lhe ensinou?
- No, aprendi sozinho. com um livro daquele tipo "faa voc mesmo".
- E que tipo de objetos voc esculpe?
- O que me der vontade na hora. Na maioria, a figura de animais que vejo nos bosques.
- Onde voc os guarda? No vejo nenhum por aqui.
- Dou. Outros eu vendo, lambem guardo alguns.
- Vende mesmo? Puxa, voc deve ser bom.
- Isso eu no sei.
- Se as pessoas compram...
- Voc sempre lidou com arte?
- No, s depois que vim para c  que descobri minha habilidade com as mos.
- Acho voc timo com as mos - ela o provocou.
- Tem de usar tipos especiais de madeira?
- Pinho, por exemplo,  uma madeira boa para se trabalhar. As madeiras mais duras uso para fazer tabuleiros de xadrez.
- Voc faz tabuleiros de xadrez?
- Sim, voc gosta de jogar?
- No, porm sempre admirei aqueles tabuleiros bem trabalhados nas vitrines de lojas. Pensei at em comprar um s para usar como enfeite, sobre a mesinha de caf. 
Mas, eu sei jogar damas. J fez algum tabuleiro de damas?
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- No, mas posso fazer. Cus, no jogo damas desde que era criana.
- At que seria divertido. E quanto a facas?
- Nunca joguei facas - ele brincou.
- Para esculpir, seu engraadinho. Precisa de instrumentos especiais? A que voc usava outro dia parecia um canivete comum.
- E era.
- Um canivete desses normais?
- S que muito bem afiado. Ele possui trs lminas. Uso a maior para o trabalho geral e as duas pequenas para detalhes.
Ela o olhava fascinada.
- Seus olhos so lindos. Nunca vi olhos castanhos com manchinhas claras, como os seus.
O comentrio pegou Garrick de surpresa. Era o tipo de observao que costumava ouvir nos tempos ureos, s que agora, dito por La com tanto carinho, inundava sua 
alma de alegria. Gostava quando ela o elogiava. Estranho que ainda no o houvesse reconhecido.
- Voc costuma ver televiso? - ele perguntou.
- Raramente. Por qu?
- Estava s imaginando, se estaria sentindo falta de um aparelho.
- No - La virou-se para o fogo. - Nem telefone, tambm.
- No costuma falar muito quando est em casa?
- Pelo contrrio. Falo bastante.
- Ento, por que no sente falta aqui?
- Porque em Nova York  uma necessidade. Voc tem de ligar para a livraria para encomendar um livro, reservar mesa nos restaurantes, telefonar para uma amiga. Aqui 
no tem nada disso.
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- Voc tem amigos em Nova York?
- Alguns. Antes de meu divrcio eu no tinha amigos prprios, s os de Richard. Ele no gostava de meus amigos de solteira.
- Por que no?
- Dizia que eles no serviam para nada.
- Quer dizer que para Richard as pessoas precisavam ser teis?
- No que ele costumasse pisar nas pessoas. Mas para Richard qualquer contato social tinha de ter um objetivo claro. Sair com algum pelo simples prazer de uma boa 
conversa era coisa que no podia entender.
Garrick ia fazer um comentrio contra Richard, quando lembrou-se de que ele mesmo fora assim alguns anos atrs. Era culpado dos mesmos pecados.
Fazendo com que La encostasse a cabea em seu colo, perguntou:
- Como eram seus amigos?
Ela o abraou pelo pescoo e passou um dedo pela barba macia.
- Vitria voc j conhece. H Greta, que conheci num curso de culinria. Ela tem uma mente voltada para a matemtica que  incrvel.
- O que ela faz?
-  contadora.
- Costuma v-la sempre?
- H cada quinze dias, mais ou menos.
- E o que fazem, quando esto juntas?
- Compras.
- Compras?  a ltima coisa que eu esperava de uma contadora.
- Ela no gosta de fazer compras. Ela  obrigada. Trabalha para uma firma grande, e  obrigada a estar
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sempre bem arrumada. Coitada,  a primeira a reconhecer que no tem bom-gosto para roupas. Ento, vou para ajud-la. Sou tima para gastar o dinheiro dos outros.
- Que horror!
- No h nada de errado se  a pedido de algum para o prprio bem dessa pessoa.
- E Greta fica feliz com os resultados?
- Maravilhada.
- Conte mais sobre seus amigos.
- Existe Arlen.
-  ele ou ela?
- Ela. - Depois de uma pausa La perguntou: Sabia que voc  uma pessoa incrvel?
-  o que voc diz agora. Espere at me conhecer melhor. Sou uma pessoa incrvel - ele repetiu, srio, pensando no que La faria ao saber tudo que escondera. - Mas 
no fui sempre assim. Bem, esse tempo j passou. Me conte sobre Arlen.
La olhou-o fixamente por alguns instantes. "No fui sempre assim". O que ser que ele queria dizer com aquilo? Oh, cus, no queria que nada estragasse a felicidade 
que sentia ao lado de Garrick. No agora. Esperara a vida toda por algum como ele.
- Ns nos conhecemos na sala de espera do dentista h trs anos. - Naquela poca, ambas estavam grvidas, mas La omitiu esse detalhe. - Ficamos amigas e depois 
que me separei de Richard passamos a ter um maior contato. Ela me ajudou a passar por srias crises.
- O divrcio?
- Tambm.
- Ela trabalha?
- Como uma escrava. Tem cinco filhos com menos de oito anos.
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- Nossa!  me solteira?
- No! Ela tem um marido maravilhoso. Moram em Port Washington; j estive na casa deles vrias vezes. Ela cozinha muito bem, principalmente salsicha.
Ele riu.
- Voc gosta de cachorro-quente?
- Adoro! E, sabe qual  meu preferido?
- No, qual?
- Vai achar que sou louca.
- Diga, qual?
- Aqueles que a gente compra nas carrocinhas perto do Central Park. H uma certa atmosfera...
- Fumaa de cigarro!
- Ah, est estragando a imagem! - La esticou o dedo indicador na frente do nariz de Garrick. - Imagine um lindo dia de primavera, as flores brotando, ou um dia 
de vero quente quando o parque parece um osis no meio do deserto. Existe algo de especial em se passear no parque num dia desses, comendo um cachorroquente que 
pode at envenen-lo, mas que  uma delcia...  to sibartico.
- Sibartico?
- , prazeroso.
- Esquea. O que mais gosta a respeito de Nova York?
- O anonimato. Fico assustada com a sensao de ter de corresponder  imagem que as outras pessoas tm de mim. L ningum conhece ningum. Voc pode ser mais autntico. 
- Nas ruas de Nova York sou completamente desconhecida - ela prosseguiu. - Posso escolher meus prprios amigos, fazer o que bem entender. Acho que no sobreviveria 
numa comunidade pequena.
- E o que mais?
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- Que mais o qu?
- O que mais voc gosta em Nova York? La nem precisou pensar.
- A vida cultural. Os cursos. Adoro fazer cursos, aprender coisas novas. Vitria me disse que aqui perto havia uma comunidade de artistas. Gostaria de aprender a 
tecer.
- Verdade?
- J pensou? Ser capaz de fazer tapetes, panos... Bem, pelo menos gostaria de tentar.
- Aposto que aprende fcil. - Ele mesmo poderia lhe fazer um tear. A imagem de La ali tecendo, o barulho ritmado enchendo a cabana o fez pensar num lar.
Lar... H muito tempo Garrick no pensava em ter um lar. O que tivera na infncia fora distante do ideal e quando havia crescido, ficara preocupado demais em ter 
seu nome escrito em non, para se preocupar com isso.
Seu mundo ento passara a ser o pblico. Interessavase somente por coisas que pudessem torn-lo mais famoso, e um lar no proporcionaria nada disso. Lar era algo 
privativo e pessoal. Algo para um homem e sua famlia.
- Garrick? - La sussurrou.
Ele piscou, s ento notando que seus olhos estavam marejados de lgrimas.
- O que foi? - Na voz La demonstrava a preocupao e medo que sentia. Durante momentos como aquele, quando parecia distante, temia saber sobre o passado de Garrick. 
E no tinha coragem de fazer perguntas.
Garrick tentou sorrir, apertando-a contra o peito.
- s vezes eu sonho acordado - murmurou. -  assustador...
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- No quer se abrir comigo?
- Ainda no.
- Qualquer dia, ento?
- Qualquer dia.
Ficaram ali sentados em silncio. De repente ouviram um estalido alto da madeira no fogo.
- Hei, acho que est tentando nos dizer algo - ela comentou.
- Ser? Tenho uma ideia: por que a gente no pe uma roupa? Poderamos andar pelas matas.
Os olhos de La se iluminaram.
-  um convite?
- Exatamente - ele a afagou na cabea. - Acho que j ficou muito tempo presa aqui dentro.
Pouco depois saam juntos para a chuva. O temporal havia se transformado num chuvisco leve, porm constante. Garrick levou La para as montanhas, indicando vrios 
sinais da vida selvagem. O caminho no era dos melhores, mas durante o dia e com um bom guia como ele, La at que se saiu bem da caminhada.
Ela no sabia bem o porqu, mas a montanha que antes lhe parecera to ameaadora, agora a fascinava. Garrick fazia parte daquele lugar, e ela era sua convidada de 
honra.
Algum tempo depois, foram at o carro de La buscar o restante de suas coisas e, ao voltar para o chal, Garrick ajudou-a a guardar tudo com a maior boa vontade. 
Em seguida, cederam ao impulso de se amarem perto da lareira.
Ainda abraados sobre o tapete, La comeou a rir.
- Fico imaginando a cara de Vitria se nos visse agora.
- Ela ficaria contente.
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- E voc, est contente, Garrick?
- Mais do que contente. Estou muito feliz. La o olhou fixamente.
- Eu te amo, Garrick.
- Eu tambm te amo, La. Nunca disse isso para ningum em minha vida, mas eu te amo. Ah, querida, como eu te amo!
E seus lbios se encontraram com um desejo nunca antes experimentado.
Nos dias que se seguiram o amor cresceu entre os dois. Passavam juntos cada minuto e nunca se cansavam da companhia um do outro. Havia sempre algo a ser dito, geralmente 
num tom baixo, tpico dos casais apaixonados. Outras vezes ficavam em silncio, comunicando-se apenas com o olhar, com um toque ou um sorriso.
Garrick mostrou a ela as figuras que havia entalhado na madeira. Vrias delas haviam sido tambm pintadas e La gostou particularmente de um par de gansos.
Garrick tambm mostrou-lhe os modelos de casas que construra usando palitos de dentes, explicando como comeara a faz-las apenas para passar o tempo. Porm, um 
dos homens que vinha comprar-lhe as peles as mencionara a um casal de Boston, que encomendara uma cpia de sua prpria manso. Foi assim que comeara a vender seus 
modelos.
- Voc devia ter sido arquiteto - declarou, espantada com a quantidade e a perfeio de detalhes que ele fizera usando material to estranho quanto palitos de dentes.
Garrick ficou encantado com o elogio, mas no disse nada. Para ser arquiteto teria de voltar para a cidade. E a, ento, seria reconhecido.
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No entanto, no compartilhou seus medos com La. Ela o amava pelo que era agora e Garrick no queria que ela soubesse como ele vivera no passado. Tinha medo de La
deixar de am-lo e o pensamento de que no mais o amasse ou respeitasse era pior que qualquer receio que pudesse ter.
Por outro lado, incomodava-lhe no dizer a verdade. No gostava de ter-lhe omitido dezessete anos de sua vida pregressa, como se nada houvesse acontecido. Havia 
tantas outras coisas para compartilhar com La e, embora achasse que ela suspeitava de algo, no tinha coragem de se expor.
Por essa razo, talvez, nenhum dos dois falava sobre o futuro. Viviam um dia de cada vez, tratando aquele amor inesperado como um tesouro.
De posse de seus dicionrios, um atlas e um almanaque, La comeou a trabalhar. O local calmo ajudava-a a concentrar-se, mesmo com o bombardeio de perguntas feitas 
por Garrick.
- Como  que se comea a escrever uma palavra cruzada?
- Como quiser. Se houver um tema...
- Um tema?
- Sim, por exemplo nomes de times de futebol, modelos de automveis, frutas...
Garrick sentou-se ao lado dela, vendo-a trabalhar.
- Existe alguma frmula especial para aqueles quadradinhos pretos que a gente v na palavra cruzada?
- No, dependo mesmo de quem faz.
- Voc leva muito tempo checando e revisando o trabalho depois de pronto, La?
- Um tempo... E sempre acho coisas para serem modificadas.
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- Tem algum problema quanto ao prazo da entrega?
- s vezes, mas eu sempre mantenho tudo em dia.
- No estou deixando voc trabalhar direito...
- No me importo - La respondeu, gostando de ver que Garrick se interessava por seu trabalho.
Na verdade, conforme os dias foram se passando, La perguntava a si mesma se aquilo no seria um sonho. Garrick era tudo o que sempre desejara num homem. Tinha pacincia 
quando ela estava trabalhando, atencioso quando desocupada. Conversavam sobre qualquer assunto e, caso discordassem, mesmo assim no brigavam. Ao v-la cansada, 
sempre sugeria um passeio ou um jogo de damas, no tabuleiro que fizera especialmente para La.
A nica coisa que atrapalhava a total felicidade de La era a ruga de preocupao que, a cada dia que passava, se tornava mais frequente na testa de Garrick.
Garrick sabia que precisava contar a verdade a ela e, que apesar do medo que sentia no podia continuar a esconder seu verdadeiro nome e os fatos do passado. Queria 
que La soubesse de tudo, e que continuasse a am-lo. Queria que o respeitasse por haver reconstrudo sua vida. Queria, e precisava, compartilhar o passado e o medo 
atual com La, receber seu apoio e compreenso.
Certo dia, quando a chuva parara, eles haviam ido caminhar pelo bosque, e Garrick pretendia aproveitar a oportunidade para contar tudo a ela. S que no caminho encontraram 
uma cora com seu filhote, e Garrick no quis estragar a beleza do momento.
Em outra ocasio foram at a cidade e La estava to feliz e animada que Garrick de novo voltou atrs no seu intento. Naquele dia, aps almoarem, La insistira 
em ligar para Vitria.
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- Eu disse que telefonaria assim que estivesse instalada. Ela deve estar preocupada.
- Preocupada que voc nunca mais volte a falar com ela, depois do que aprontou para ns.
- Mas at que ns gostamos, no  querido? Ele riu.
- ... mais ou menos.
- Mais ou menos?
- Est bom querida: bem mais do que menos. Eles entraram numa cabine telefnica e, de l, ligaram para Vitria.
- Residncia da sra. Lesser - atendera a empregada.
- Por favor, aqui  La Gates. Eu poderia falar com a sra. Lesser?
- Um momento, por favor.
La cobriu o fone e sorriu para Garrick.
- Imagine s a cara dela, Garrick... De repente a voz excitada de Vitria:
- Onde  que voc est?
- Alo, Vitria.
- La Gates! Estou quase morta de preocupao.
- Mas, por qu? Eu lhe disse que no haveria problemas. O chal  maravilhoso.  fcil ver porque seu marido gostava tanto deste lugar.
- La... Est chovendo a?
- Claro que continua chovendo.  por isso que no pude telefonar antes. Meu carro continua atolado na lama.
Houve ento uma pausa.
- De onde est ligando?
- De uma cabine telefnica.
- Como chegou at a, se seu carro est atolado?
- Peguei uma carona.
- La!
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Garrick pegou o fone das mos de La.
- Alo, Vitria?
O silncio foi maior. Ento, cautelosamente, Vitria indagou:
- Garrick?
- Voc jogou sujo.
- Ah, graas a Deus - ela suspirou -, La est com voc.
- Como voc planejou!
- Voc me odeia?
- Agora no.
- Voc j contou?
- Um pouco.
- Mas, e aquilo, Garrick?
- No.
- Ela est no chal com voc?
- Seria difcil eu deix-la na chuva sem ter para onde ir, no acha? - ele declarou, piscando para La.
- Oh, Garrick, me desculpe, achei que vocs dois podiam terminar juntos. So perfeitos, um para o outro!
Ele cobriu o fone, dirigindo-se a La:
- Ela disse que somos perfeitos um para o outro.
- Espertinha... - La pegou o telefone de volta. No lhe mandarei o dinheiro do aluguel, ouviu?
- Ah, voc no est to brava. Afinal, telefonou.
- Porque tenho mais considerao que voc - La respondeu, rindo.
E Vitria percebeu o sorriso.
- Posso mandar arrumar o quarto aqui para voc?
- Ainda no.
- Quer dizer que vai ficar por a mais um tempo? Desta vez La nem se preocupou em tampar o bocal.
- Ela quer saber se ainda vou ficar por aqui.
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Garrick tomou o fone.
- Sim, ela fica. Descobri como  timo ter uma empregada que dorme no emprego.
- Eu no sou empregada dele. - La gritou enquanto Vitria dizia indignada:
- Garrick, voc no est usando La...
- E ela cozinha, tambm - ele acrescentou. - Precisa ver os ovos cozidos que ela fez.
- Olha que mentiroso! Quem no sabe fazer ovo cozido? - La retirou-lhe o fone da mo.
- Vitria...
- Quer dizer que voc aprendeu a fazer ovo cozido? Mas que progresso, La! Parabns!. Agora quero falar de novo com Garrick.
- Vitria quer falar com voc - La disse entregando-lhe de novo o aparelho.
- Garrick? La est nos ouvindo?
- No.
- No quero que voc a magoe.
- Eu sei.
- Ela j passou por maus bocados. No me importo que brinquem comigo, eu mereo, mas quero que voc a trate muito bem. Se vocs no se acertarem, quero que a mande 
de volta.
- Ns j nos acertamos.
- Mesmo? - ela perguntou, esperanosa.
- Sim.
- O suficiente para pensarem no futuro?
- Talvez...
- Ento, ter de contar-lhe a verdade.
- Eu sei.
- Vai contar?
- vou.
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- Se esperar demais, ela vai ficar muito magoada.
- Eu sei disso, Vitria.
- Confio em voc. Sei que far a coisa certa.
- Est bem - ele disse, e acrescentou: - La quer dizer tchau. Diga tchau, La.
- Tchau Vitria! Um dia voc vai se arrepender por se preocupar tanto com os outros...
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CAPTULO VII
A verdade acabou surgindo mais espontaneamente do que Garrick esperara. Naquela manh, aps terem caminhado pela lama para ver a barragem construda pelos castores
num riacho prximo, voltaram para o chal, trocaram de roupa e se sentaram perto do fogo.
Garrick lia, enquanto ela, com os ps sobre o brao do sof, escutava uma de suas fitas, usando fones de ouvidos, adaptados por Garrick no gravador.
Num impulso, ele removeu os fones dos ouvidos de La e falou:
- Tire os fones. Quero ouvir tambm. La voltou a cabea para olh-lo admirada.
- Ah, Garrick, voc no quer ouvir.
- Claro que quero.
- Mas voc gosta de silncio.
- Quero ouvir suas fitas. E alm disso, no gosto de me sentir posto de lado.
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La ajoelhou-se e abraou Garrick.
- Voc no est sendo posto de lado.
- Mesmo assim quero ouvir msica. Se voc gosta, pode ser que eu goste tambm. Nossos gostos so parecidos.
- Voc odiou o livro de Ludlum que eu trouxe.
- Mas ambos concordamos que o novo de L Carr  timo - ele replicou.
- Voc no gostou do frango ao curry que fiz na noite passada.
- Porque eu coloquei curry em excesso. No v me dizer que no achou forte demais, porque eu vi voc tomando muita gua depois do jantar.
- Voc odiou o pssaro que fiz para voc com dobraduras.
- Eu no odiei, s no soube dizer o que era. - E imitando um tom de raiva: - Vai ou no deixar eu ouvir a msica?
- Quer mesmo?
- Quero.
Feliz, ela removeu o plug que ligava os fones ao gravador. O som da guitarra e da voz suave encheu a sala e La recostou-se para ver a reao de Garrick. Ele sorria.
- Cat Stevens. Essa  antiga.
- Setenta e quatro.
Garrick afundou o corpo e esticou as pernas, enquanto ouvia em silncio. O ar pensativo do rosto dele fez com Que percebesse que a msica trazia de volta algumas 
lembranas tristes. Quando a fita terminou, Garrick pediu que colocasse outra.
- Simon e Garfunkel - ele reconheceu.
- Gosta?
Garrick ouviu um pouco antes de responder.
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- Gosto. Nunca havia prestado ateno na letra. Encarava essas msicas como fundo musical de restaurantes.
- Restaurantes de onde?
- Los Angeles - respondeu, surpreendendo-se com a facilidade com que o dissera.
- Voc morava l?
- Sim.
- Por quanto tempo?
- Dezessete anos.
La no perguntou mais nada, ficou apenas observando-o em silncio.
- Eu era ator.
La achou que havia entendido errado. - Como?
- Eu era ator - ele repetiu.
- Ator... - La engoliu em seco.
- Sim.
- Cinema?
- Televiso.
- Mas eu... seu nome no  conhecido.
- Eu usava um nome artstico.
Ator? Garrick, o homem que ela amava pelo tipo de vida solitria, um ator? com certeza ele fizera algumas cenas sem importncia em algum seriado...
- Voc aparecia muito nos filmes?
- Todas as semanas, durante vrios anos.
Ela abraou as pernas, como que tentando fazer o corpo parar de tremer.
- Ento, voc tinha um papel importante?
- O principal.
- Qual  o seu nome verdadeiro?
- Garrick  o nome com o qual fui batizado.
- E o nome artstico?
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- Greg Reynolds.
La empalideceu. No se ouvia um s som na cabana. Ela nunca fora uma telespectadora assdua, mas tinha olhos. Mesmo para quem no tivesse boa memria seria difcil
no reconhecer o nome. Costumava aparecer sempre nas manchetes de revistas.
- No pode ser - ela balanou a cabea.
- Mas .
- No reconheo voc.
- Voc que no assistia muita televiso.
- Mas sempre li jornais e revistas. E havia fotos.
- Estou bastante diferente agora.
Ela tentou analisar-lhe as feies, mas era difcil. Havia Garrick, e ento... um outro homem. Um estranho. Conhecido de todo mundo, menos dela. Ela amava Garrick. 
Ou ser que ele...
- Devia ter me contado antes.
- No pude.
- Mas, Greg Reynolds? - gritou surpresa. - Voc  um superastro!
- Era, La. Eu era um astro.
Ela abaixou a cabea, esfregando a testa com as mos.
- O programa se chamava...
- A Lei de Pagen, Polcia e ladres. Coisa de maches.
- Que milhes de pessoas assistiam toda semana. Ela voltou a se recostar no sof. - Um ator. Um superastro da televiso.
Num segundo Garrick estava a seu lado, segurando a mos frias de La entre as suas.
- Eu era um ator, mas tudo terminou h muito temPO. Agora sou apenas Garrick Rodenhiser, caador, estudante de latim, entalhador, o homem que voc ama.
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- Como posso amar um ator? No suportaria viver sob as luzes dos refletores.
Ele apertou-lhe as mos com mais fora.
- Nem eu, La. Greg Reynolds est morto; ele no existe mais.  por isso que estou aqui. Eu. Garrick. Esta  minha vida, isto que voc viu desde que chegou.
Ela permaneceu em silncio, olhos fixos no cho.
- No! - ele gritou. - No faa isso, meu amor! Fale comigo, La. - Ele a fez levantar rosto. - Diga o que est sentindo.
- Voc  um sucesso. Um superstar.
- Era. Est tudo acabado.
- No d. Voc no vai conseguir ficar longe por muito tempo. Eles no vo deixar.
- Ningum mais me quer por l e, mesmo que quisessem, eu no voltaria. J fiz minha escolha.
- Porm, mais dia menos dia vai querer e a...
- No! Est tudo terminado, La. No voltarei nunca mais quela vida!
A fora de suas palavras a deixaram assustada.
- Estou lhe dizendo, nunca mais quero voltar - ele repetiu, desta vez mais calmo, acariciando-lhe o rosto.
- Desisti de tudo, La. No posso voltar atrs.
Novamente ali estava a angstia que se acostumara a ver nos olhos de Garrick.
- O que aconteceu?
Esta era a pior parte. Teria de contar a ela sobre o sucesso que alcanara e de como o desperdiara, o perdera. Entretanto, devia a ela a verdade.
Garrick se levantou e caminhou at a janela. O sol brilhava, porm a desolao que tomava conta de sua alma, eclipsava qualquer sentimento de alegria. Cruzando as 
mos atrs do corpo, ele comeou a falar:
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- Quando me mudei para a costa oeste a coisa que eu mais queria era ser conhecido, deixar de ser mais um na multido. Acho que voc sabe por que - ele acrescentou
em voz baixa. - Eu me achava bonito. Eta alto, atraente. Alm do mais esperto e determinado. Fiquei algum tempo apenas observando, tentando conhecer bem o lugar,
descobrindo quem por ali detinha o poder e como me aproximar das pessoas que realmente interessavam. Ento, comecei a trabalhar. Em primeiro lugar convenci um agente
de alto gabarito a me aceitar como cliente, depois passei a fazer obedientemente tudo o que ele mandava.  maioria dos papis era puro lixo, pontas apenas, mas dei
tudo de mim nessas produes e fiz com que fossem assistidas pelas pessoas certas.
Quando j estava em Los Angeles h mais ou menos trs anos, no me faltavam papis razoveis, embora secundrios. Mas, para mim era pouco; eu queria o mximo, queria
ser um astro de primeira grandeza. Aprendi bem cedo que no importava apenas ser bonito ou interpretar corretamente um personagem. Havia muita poltica no meio;
poltica suja. E eu joguei o jogo do poder. Eu tentava desculpar a mim mesmo dizendo que os fins justificavam os meios, e suponho que, na poca, fosse verdade. A
ento consegui o papel de Pagen. - Garrick levantou os ombros, numa atitude negligente. No me pergunte por que o programa fez tanto sucesso. Olhando para trs no
consigo compreender a causa de todo aquele sucesso. Entretanto, parece que o seriado atingia o pblico de maneira espetacular, o que atraa patrocinadores, trazendo
dinheiro para eles, para a rede de televiso, para o diretor e para mim. Foi assim que levamos o programa em frente, e eu acreditava sem a menor sombra de dvida
que ramos o mximo, que o seriado era fenomenal. E que o sucesso se devia  minha presena no papel principal.
Garrick abaixou a cabea, dando um suspiro profundo e continuou:
- Esse foi meu primeiro erro. No, retiro o que disse. Meu primeiro erro foi ter ido para Hollywood, porque, afinal, no era o lugar certo para mim. Oh, claro que
eu achava que pertencia quele lugar, e esse foi meu segundo erro. O terceiro foi acreditar que eu lutara e merecia todo aquele sucesso. Desse ponto em diante fui
acumulando erros, um atrs do outro, at estar to afundado na lama que no sabia mais nem mesmo quem eu era.
Ele fez uma pausa, arriscando uma olhada para o lado de La. Ela estava sentada no canto do sof, com as pernas em cima do assento, abraando os joelhos. O rosto
parecia haver se congelado numa expresso de dor, e Garrick sentiu vontade de ajoelhar-se a seus ps, pedindo perdo por sua vida pregressa. No entanto, havia muito
mais a ser confessado.
Ainda parado ao lado da janela, Garrick virou-se de frente para La.
- O programa permaneceu no ar durante nove anos e, durante esse tempo, acabei perdendo o controle sobre mim mesmo. - Seu tom de voz tornou-se de escrnio.
- Eu era o grande astro, o melhor entre os melhores. Eu era o maior ator que j pisara em Hollywood nas ltimas dcadas. Meu nome sozinho poderia transformar um 
programa, qualquer programa, num imenso sucesso de pblico e de crtica. - E houve tambm os filmes. Depois de cinco anos com o Pagen na lista dos dez mais, comecei 
a aceitar convites para fazer filmes nos intervalos da temporada. No princpio resisti  ideia,
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na poca no sabia por qu. Agora compreendo que alguma coisa dentro de mim tentava me avisar que seria demais para mim, que eu precisava de umas frias longe daquele
ambiente de competio pelo menos uma vez por ano; que necessitava entrar em contato com meu verdadeiro eu. Mas, no, queria era ser mais e mais famoso, queria me 
tornar uma lenda viva do mundo dos espetculos.
Garrick suspirou e abaixou a cabea, esfregando a nuca com dedos nervosos.
- Estava ficando apavorado, essa  que  a verdade. Tinha medo de que, se no agarrasse tudo o que podia, viria algum atrs e tiraria tudo de mim. Isso, porque 
eu sabia que no era muito bom ator.
Garrick se aproximou do sof e depois voltou para junto da janela.
- Ah, claro, eu era Pagen, mas s interpretava to bem o papel porque ele no exigia demais de mim. Agora, para os outros filmes, os que necessitavam de um verdadeiro 
ator, eu falhei. Nenhum foi sucesso de bilheteria como eu e os produtores espervamos. Em vez de ter um pouco de sensibilidade, analisar meus erros e tentar aprender 
com eles, fiz exatamente o contrrio. Passei a atacar os crticos em pblico. Disse que o pblico mdio americano no tinha gosto para o cinema. Me tornei uma pessoa 
intragvel. Fiquei meio alucinado, paranico. Acreditava que todos ao meu redor desejavam ver minha decadncia, que me espreitavam como a uma presa, esperando pela 
hora de tirar minha pele e dar o resto aos lobos. Fiquei desesperado, e foi a que comecei a beber. Quando o efeito do lcool j no era suficiente, passei para
as drogas, qualquer coisa que aparecesse em minhas mos capaz de diminuir a infelicida
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de que sentia. E tudo o que consegui foi afastar a realidade e a realidade do mundo do cinema e televiso significa estar um dia no topo e no outro ser jogado s
profundezas do inferno. com um suspiro entrecortado, ele prosseguiu:
- A lei de Pagen foi cancelado aps nove anos seguidos de exibio semanal. A causa principal acho que foi meu modo de agir. O produtores no encontravam um diretor 
sequer que estivesse disposto a me aguentar e ao meu mau humor. Tiveram problemas at mesmo para escalar o elenco de apoio pois eu era to impaciente e exigente, 
crtico em excesso, que j no estava mais valendo a pena continuar. Isso sem contar que comecei a aparecer no estdio de filmagens bbado ou dopado, mal conseguindo 
decorar as falas de meu personagem. E, ento, culpava todos que estivessem junto a mim.
Devagar, ele caminhou em direo ao sof. Os braos estavam largados e os ombros largos arqueados para a frente. A desolao que Garrick sentia era tanta, que precisava, 
pelo menos, ficar ao lado de La.
- Da para a frente a decadncia foi inevitvel. Houve alguns pequenos papis depois que o seriado foi cancelado, mas alm de pouco eram bastante espaados. Ningum 
queria trabalhar comigo e no os culpo, por isso. Novos programas tomaram o lugar antes conquistado por Pagen, apareceram novos astros.
Devagar, ele se sentou no sof, as mos estendidas sobre as pernas, num gesto de defesa.
- No fim de tudo eu estava s, sem amigos, sem trabalho e no tinha ningum a quem culpar, apenas eu mesmo. - Ele abaixou o olhar para as mos. - Havia ficado to 
obcecado com a ideia de ser um astro, que, quando me vi sem aquilo tudo, era como se o futuro no
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mais existisse. Ento, um dia, sem saber mais o que fazer, peguei meu carro e fui para as montanhas. Perdi o controle da direo numa curva e ca num barranco. A
ltima coisa da qual me lembro foi ter pensado: "Felizmente, o meu dia chegou".
A respirao ofegante de La chamou a ateno de Garrick. Ela estava com as mos fechadas pressionando os lbios, os olhos inundados de lgrimas. Garrick esticou 
a mo para toc-la, ento, voltou atrs. Precisava urgentemente toc-la, mas no sabia se tinha esse direito. Estava se sentindo to s quanto se sentira ao acordar 
no hospital, aps o acidente de automvel.
- E como voc v... eu no morri. Os mdicos disseram que se eu no tivesse tanta sorte poderia ter me ferido mais seriamente. Acontece que eu no colocara o cinto 
de segurana e fui atirado para fora do carro. Tive algumas contuses e uns ossos quebrados. A de repente, entendi tudo o que me aconteceu como uma mensagem de 
Deus, talvez. E essa mensagem me dizia que havia algo mais nesta vida do que eu pensava. A princpio tive muita pena de mim mesmo, mas aps semanas sozinho naquela 
cama de hospital, comecei a dar valor a outras coisas...
Garrick abaixou o tom de voz e a olhou com carinho.
- Assim que pude voltar a dirigir, peguei o carro e sa de Los Angeles sem saber ao menos para onde ir. S sabia que precisava me afastar o mximo possvel daquele 
mundo de falsidade. Continuei dirigindo, sabendo que quando chegasse eu saberia reconhecer o lugar certo para mim. Ao chegar em New Hampshire percebi lue minha jornada 
terminara. Foi ento que vi esta cabana. Gostei do lugar  primeira vista e resolvi compr-lo.
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Garrick deu uma risada amarga.
-  engraado. A nica coisa que fiz que prestasse durante todos esses anos de sucesso, e excesso, foi dar meu dinheiro a um assessor, para que ele investisse da 
melhor maneira possvel. Posso viver mais do que confortavelmente com os juros desse dinheiro, sem precisar tocar no capital.
- Constru uma nova vida, La. H quatro anos no tomo uma gota de lcool, nem drogas, e abandonei o sexo indiscriminado. Este  o tipo de vida que gosto, no o 
outro. Eu no quero e jamais voltarei ao passado.
Seus olhos encararam La, hesitantes.
- Voc tem toda razo. Eu deveria ter lhe contado antes. Mas, eu no podia. Tinha medo. Ainda tenho medo.
O rosto de La estava coberto de lgrimas, e a mo continuava junto aos lbios.
- Eu tambm - ela sussurrou. Garrick ento segurou-lhe a mo.
- Voc no precisa ter medo. No de mim. Voc me conhece melhor que qualquer outra pessoa do mundo.
- Mas aquele outro homem...
- Ele no existe. Nunca foi real. Ele no passava de uma falsa imagem, como tudo mais em Hollyood. Uma imagem to sem estrutura que ho resistiu e desmoronou. Nunca 
mais quero saber daquele tipo de vida. Te! de acreditar em mim, La. A nica coisa que quero da vida  o que tivemos aqui juntos. Isto  real,  isto qu me completa...
- E quanto  necessidade de ser reconhecido pel-1 pblico?
- J sofri disso e quase me acabei.  como um i doena. Quase morri antes de me ver curado, mas vak
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a pena. - Ele suspirou fundo, antes de prosseguir: por favor, no se deixe afastar por causa dos erros que cometi no passado. Aprendi com eles, ah, como aprendi...
La queria acreditar em tudo que Garrick lhe dizia. Queria tanto que suas mos comearam a tremer.
- Greg Reynolds nunca sentiria atrao por mim.
- Garrick Rodenhiser est apaixonado por voc.
- Eu no seria nada no mundo de Greg.
- Mas  tudo que existe para mim.
- No quero esse tipo de jogo.
- No quero jogos; quero a vida real. E voc. Incapaz de manter-se afastado de La por mais um
segundo, Garrick a prendeu num beijo que expressava seus sentimentos de maneira mais clara do que quaisquer palavras.
- Nunca volte a ser aquele homem. Eu morreria se voc o fizesse.
- Juro que no, eu juro - ele murmurou, enquanto a puxava para si. Deixe-me amar voc - sussurrou, abrindo a blusa de La - Deixe-me dar a voc tudo que tenho... 
tudo que guardei nestes quatro anos... tudo o que veio  tona depois que encontrei voc. - com a blusa dela totalmente aberta, Garrick comeou a acarici-la nos 
seios, com volpia. - Ah, como  bom toc-la. Voc  o que sempre quis na vida.
La gemeu alto e ajudou-o a tirar o suter. Esse era
o  Garrick que ela conhecia, aquele que a excitava como nenhum homem o fizera. E que a achava linda e inteligente. Aquele que a amava com devoo.
Enquanto Garrick lhe contara a sua histria, La sentira-se como se viajasse pelo espao. Num planeta distante existira um ator, porm  medida que se aproxi
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mava havia um homem que sofrera demais, que sentira medo, desiluso e dor. Mais perto ainda estava o homem que descera ao mais baixo nvel de sua existncia, e recomeara
a subir. E, ali, ao lado dela, estava agora aquele que conseguira vcer.
- Eu te amo tanto... - falou, enquanto Garrick a puxava para perto do dorso nu, pressionando-lhe os seios de encontro aos plos macios do peito musculoso.
Beijaram-se mais e mais, at que ele a fez deitar-se no sof e tirou-lhe a cala jeans. Quando La ficou totalmente nua, Garrick comeou a acarici-la com os lbios
at tocar-lhe o sexo.
Agarrada com fora no encosto do sof, ela fechou os olhos imersa no doce tormento provocado pela lngua de Garrick. Ento, o mundo comeou a girar e, com todos
os msculos retesados, gritou por ele:
- Garrick!
- Oh, meu amor, meu amor - ele sussurrou. Em seguida abriu o zper da cala e a penetrou seguindo com La os caminhos do prazer.
S depois, cansados, deixaram que as emoes mais dolorosas aflorassem. E La chorou, abraada a Garrick que tinha os olhos tambm umedecidos pelas lgrimas.
- Quero me casar com Voc, La, mas no vou pedir que me d Uma resposta agora. No depois de tudo que houve hoje; no seria justo. Porm, continuarei desejando
isso, pois  a nica coisa que desejo neste mundo.
La acenou que sim, mas no disse uma palavra. Estava exausta... e feliz. Muita coisa acontecera, entretanto, havia uma outra coisa que vinha lado a lado com um
casamento ela ainda no lhe contara. Sim, "ela
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tambm tinha segredos, e a obrigao de revel-los agora era dela.
Assim como a Garrick, o destino se encarregaria de apresentar o melhor momento para que La lhe contasse seu segredo.
Um ms j se passara desde que chegara na cabana e dia aps dia, viviam imersos na felicidade. com a melhora do tempo puderam usar a caminhonete de Garrick para 
ir at a cidade comprar mantimentos e conhecer a comunidade de artistas e pedir informaes sobre as aulas de tear. Voltaram at a cabana de Vitria, desatolaram 
o carro de La e o levaram at o chal de Garrick. Davam longos passeios pelo bosque, geralmente de manh cedo, quando ele ia verificar as armadilhas que preparara 
para os coiotes e vrias vezes haviam feito piqueniques, sentindo o cheiro da primavera que no demoraria a chegar.
Ento, certa manh La acordou sentindo-se um pouco tonta. No entanto, a indisposio passou logo, e ela no pensou mais no assunto. Mas na manh seguinte a tontura 
voltou, desta vez seguida por nuseas. Garrick a viu correndo para o banheiro e ficou preocupado. Seguiu-a e a encontrou debruada sobre o vaso sanitrio.
O que houve, amor? - ele perguntou, colocando una toalha mida na testa de La.
- Garrick... oh...
l segurou-lhe a testa, ajudando-a depois a enxaguar
0 rosto.
Oque h, La? - ele repetiu a pergunta.
No pensei que pudesse acontecer... no pensei...
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- O qu, meu amor?
- Nunca fiquei assim enjoada... - Ela o olhava de norteada.
- La?
- Oh, Garrick! - Ela cobriu o rosto com as mos, ento abaixou-as e agarrou-se a ele. - Me abrace - pediu. - Apenas me abrace forte.
- Est me assustando, La - Garrick falou, apertando-a contra o peito.
- Eu sei... me desculpe... acho que estou esperando um beb.
Por um momento ficaram abraados em silncio, ento comearam ambos a tremer. Segurando-lhe o rosto com as duas mos, Garrick afastou-a um pouco e a olhou nos olhos.
- Eu pensei... quer dizer, achei que voc... eu no devia... tem certeza?
- No.
- Mas est bastante desconfiada?
- Este enjoo, e ontem me senti tonta. E alm disso minha menstruao no veio.
- Voc no estava usando nada, um DIU? Os olhos dela estavam marejados de lgrimas.
- No.
- J ficou grvida alguma vez? Ela fez que sim e desatou a chorar.
Garrick apertou-a novamente si e a acariciou nas costas, procurando acalm-la.
- O que aconteceu? - ele murmurou. Demorou um pouco at que La pudesse responder
e, quando o fez foi com a voz cheia de dor.
- Os bebs nasceram mortos.
- Bebs?
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- Dois. Duas gestaes diferentes. Ambos mortos.
- Oh, La... sinto muito.
Ela soluava, mas mesmo assim continuou a falar.
- Eu os queria... tanto... e Richard tambm. Ele me culpou... mesmo quando os mdicos disseram... que eu no havia feito nada errado.
-  claro que voc no fez nada de errado. O que disseram os mdicos?
- Isso  o pior de tudo... no souberam explicar a causa!
- Calma, est tudo bem. - E ele a embalou como a uma criana, enquanto um sorriso se formava em seus lbios. Um beb. La ia ter um beb! Um filho seu. Nosso beb 
- ele sussurrou.
- Ainda no tenho certeza.
- Ento, teremos de ir at o mdico mais prximo para termos certeza.
- Oh, Garrick - ela recomeou a chorar. - Tenho tanto medo.
Ele abaixou o rosto, acariciando-a com dedos firmes, enquanto enxugava-lhe as lgrimas.
- No h o que temer. Estou aqui com voc. Ficaremos juntos acontea o que acontecer.
- Voc no compreende! Eu quero este beb; o nosso beb, e se alguma coisa acontecer a ele, no sei o que farei!
- Nada de ruim vai acontecer. No deixarei.
- Mas, no h nada que voc possa fazer. Ningum Pode da ltima vez, nem da outra...
- Agora vai ser diferente - ele afirmou categrico." Pegando-a no colo, Garrick a levou at a cama. gora, descanse. Mais tarde iremos tirar uma licena de Casamento.
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- No, Garrick.
- O que quer dizer com no?
- No quero me casar por enquanto.
- Por que ainda no tem certeza de estar grvida? Quero me casar com voc de qualquer modo. Voc ama no ?
- Amo, muito.
- E eu te amo. Ento, se estiver mesmo esperando beb, nossa vida estar completa.
- No quero me casar ainda.
- Por que no?
- Porque no sei se posso ter filhos... E, se no puder, ficarei achando que nos casamos cedo demais e que voc se ressentir de estar ligado a mim de maneira irreversvel.
- Esta  a coisa mais boba que j ouvi voc dizer. Eu amo voc, La. E j disse antes que queria me casar com voc.
- Voc algum dia pensou em ter filhos?
- Claro que sim.
- Mas eu...
- La, querida, at voc chegar aqui eu pensava qu" seria capaz de seguir em frente sozinho. Ento, voc chegou e mudou minha vida. No v? com beb ou sem beb, 
ter voc a meu lado  muito mais do que eu podia sonhar...
- Por favor - La pressionou-lhe a mo contra o peito. - Eu preciso esperar. Preciso saber o que vai acontecer. Se... se algo der errado e voc ainda me quiser,
prometo que me caso. Mas, no me sinto capaz de fazer isso agora. Se eu estiver mesmo grvida, os prximos meses sero muito difceis para mim. Se, alm disso
tiver de me preocupar com o sucesso de nosso
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casamento... - A voz de La transformou-se num sussurro. - Acho que no suportaria passar por tudo novamente.
Garrick fechou os olhos, compreendendo de repente o que ela sentia. Jogou a cabea para trs, respirou fundo e voltou a fixar os olhos em La.
- Ento, foi isso que houve com Richard?
- Sim.
- Voc mencionou outro motivo...
- Existiram outros empecilhos, e talvez o casamento no fosse em frente de qualquer jeito. Mas o beb, os bebs foram a gota dgua. Richard esperava que eu lhe 
desse filhos; faziam parte da imagem social: esposa, casa, crianas... Da primeira vez dissemos a ns mesmos que fora o destino. Mas, depois da segunda, com toda 
a espera, as oraes, a preocupao... bem, no havia mais esperanas para ns como marido e mulher.
- Mas que homem! - Garrick grunhiu. - Poderiam ter adotado uma criana...
- Oh, garrick...
- Quero voc, La. Se tivermos filhos, ficarei muito feliz. Mas se no pudermos e mesmo assim o desejarmos adotaremos uma criana.
La fechou os olhos, exausta.
- Ficar grvida no estava em meus planos.
- Algumas das melhores coisas da vida acontecem sem que haja planejamento.
- Eu preferiria ter esperado e s tentar ter um filho depois.
- Case-se comigo, La.
Ela abriu os olhos, tomou a mo de Garrick entre as suas e a levou aos lbios. Beijou com ternura cada um
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dos dedos longos, ento pressionou-os contra o rosto.
- Eu amo tanto voc que meu peito chega a doer, Garrick, porm, quero esperar. Por favor... Se voc me ama, ento tenha pacincia comigo.
Garrick no concordava, mas eram os sentimentos de La que importavam no momento, e ele no teve outra alternativa se no concordar.
- Se no estiver esperando beb, vai pensar no assunto?
com enorme alvio, ela fez que sim.
- E se estiver grvida, e mudar de ideia a qualquer momento nos prximos meses, voc me dir?
Mais uma vez ela concordou.
- Quando o beb vier ao mundo, gritando e batendo as perninhas, ter de esperar por sua refeio at que o juiz tenha declarado seus pais marido e mulher.
- Casar num quarto de hospital?
- Sim, senhora.
La inclinou o corpo para a frente, abraando-o com fora.
- Amo voc, Garrick Rodenhiser.
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CAPTULO VIII
Quando o mdico confirmou, afinal, a gravidez de La, sua reao inicial foi de incontida felicidade, s superada pela alegria demonstrada por Garrick. Depois, porm, 
o medo, a preocupao e a dvida em como lidar com aquela nova gestao tomaram conta dela.
- Gostaria de consultar meu mdico em Nova York
- declarou, sentada lado a lado com Garrick nos degraus de entrada do chal. Era um lindo dia, conturbado apenas pela preocupao de La.
- No haver problema. Posso lev-la amanh at a cidade, para que possa se comunicar com ele. Inclusive, andei pensando em comprar um aparelho telefnico Para instalar 
aqui na cabana.
Um telefone sempre estivera fora dos planos de Garrick, entretanto, agora que La estava grvida, o aparelho poderia significar muito num caso de emergncia.
Tmida, La levantou os olhos para ele.
- Eu queria mesmo  ir at Nova York. - Ao ver
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os olhos de Garrick se arregalando, alarmado, apressouse em completar: - Apenas para ver o dr. John Reiner.
- No gostou do mdico que consultamos?
- No  isso;  que John conhece todo meu histrico mdico.
- No basta falar pelo telefone?
- Gostaria de v-lo pessoalmente.
Garrick a compreendia e, na verdade, h dias vinha desconfiando de que La desejava lhe dizer algo.
- No est pensando em ter o beb em Nova York, no ?
- Oh, no - ela garantiu. -  que para minha tranquilidade gostaria de falar com John. Seria apenas um exame. Ele pode fazer alguma sugesto, como uma dieta especial, 
exerccios, vitaminas, qualquer coisa que possa aumentar as chances de que o beb sobreviva.
Colocado desse modo, Garrick no podia recusar. Ele tambm queria muito aquele filho. Mesmo assim no agradava-lhe a ideia de v-la partir, por poucos dias que 
fosse. E no poderia ir com ela.
- Levarei voc at Concord, a cidade mais prxima, e de l pode tomar um avio para Nova York. Avisarei Vitria para ir busc-la no aeroporto.
- Voc no vem? - ela perguntou baixinho.
- No, eu no poderia.
com um sinal de cabea, La abaixou o olhar. Ainda no aprendera a conviver com a expresso "No posso", que representava o medo de Garrick e, embora ela no concordasse, 
esforava-se em respeitar.
- Precisarei telefonar antes marcando consulta, mas acho que ele arranjar um horrio para me examinar na prxima semana. Posso ir e voltar no mesmo dia.
- No, La, isso no... No quero que nada lhe acontea. com a correria dos voos e a consulta voc ficaria muito cansada e tensa.
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- Descansarei quando voltar, querido.
- Passe a noite com Vitria e volte no dia seguinte
- ele insistiu. - Assim no ficarei to preocupado.
Na semana seguinte, La foi para Nova York. Vitria ficou exultante ao saber que La e Garrick estavam apaixonados e deu pulos de alegria quando a amiga lhe contou 
o motivo de sua ida a Nova York.
Entretanto, algumas coisas que o mdico declarou deixaram La muito preocupada. E aquela apreenso aumentou quando de volta, encontrou Garrick no aeroporto.
- Como est se sentindo? - indagou apreensivo enquanto seguiam para o automvel. Ele havia telefonado na noite anterior para a casa de Vitria, do aparelho recm-instalado, 
e ficara sabendo que o mdico a achara bem.
- Cansada - ela respondeu arrumando os culos.
- Voc  que est certo; aquela cidade  uma selva. No sei como consegui morar a minha vida toda l.
- Venha, La - ele disse, enlaando-a pela cintura.
- Vamos para casa.
Durante a maior parte do caminho La permaneceu em silncio. com a cabea apoiada no encosto e os olhos fechados, procurava as palavras certas para contar a Garrick 
o que o mdico recomendara.
Ao chegarem na cabana ficou sem coragem de dizlo, pois Garrick surpreendeu-a com um pequeno tear e um livro que a ensinava a tecer. La ficou to emocionada com 
a gentileza dele, que no quis estragar o momento.
Na manh seguinte, porm, acordou decidida a falar. No importava o quanto fosse difcil para ambos; o mais importante era que o beb nascesse bem.
149
- O que h, amor? - Garrick indagou em voz baixa. Umedecendo os lbios, La apoiou-se num cotovelo
e acariciou a barba de Garrick.
- John deu uma sugesto que, acho, no vai agradar a voc.
- Verdade? No vamos mais poder fazer amor?
- No  isso.
- Ento, o que ?
La suspirou fundo, tomando coragem.
- Ele acha que seria melhor eu ficar perto de um hospital, da metade da gravidez em diante.
- Perto de um hospital? O que quer dizer?
- Significa morar na cidade. Ele me deu o nome de um colega que viveu em Nova York h vrios anos e que agora dirige o departamento de obstetrcia de um hospital 
em Concord. John tem total confiana nele e quer que esse colega acompanhe minha gravidez.
- Entendo - foi o que Garrick disse, recostando-se no travesseiro. - Como se sente a respeito disso?
- Quero o melhor para o beb.
- Eu tambm.
- O que, exatamente, seu mdico acha que o colega de Concord poderia fazer por voc?
- Um bom acompanhamento. John sugeriu que eu consultasse logo esse mdico. E disse que falaria com o colega pelo telefone e enviaria uma cpia de minha ficha mdica 
e exames. Geralmente... - ela hesitou, ento prosseguiu - geralmente neste estgio da gestao as consultas mdicas so mensais. Mas, John quer que eu as faa quinzenalmente.
Garrick a abraou e a beijou de leve nos lbios.
- Vai dar tudo certo, La. No se preocupe. Faremos esse acompanhamento direitinho.
Garrick levava La duas vezes por ms at Concord,
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para as consultas mdicas, mas assim que terminavam ele dirigia imediatamente de volta para casa. Garrick s se sentia bem num ambiente familiar.
com o incio do vero, eles trocaram as calas compridas e os suteres por shorts e camisetas. Na maioria das vezes, trabalhando ao ar livre, Garrick dispensava 
at a camiseta, e La adorava v-lo de peito nu. O suor fazia sua pele brilhar, realando os msculos firmes das costas e dos braos. A pele adquirira um tom bronzeado 
e os cabelos estavam mais claros por causa do sol.
Garrick aos poucos foi colocando o jardim em ordem, e La ficava horas a seu lado, tecendo, tomando sol ou elaborando palavras cruzadas. Enviava constantemente seu 
trabalho para a editora em Nova York e, o fato de agora possuirem um telefone facilitava bastante a comunicao.
Os enjoos do incio e o sono j haviam passado e, no princpio do ms de julho, La se sentia tima e uma barriguinha j comeava a aparecer.
Estavam mais apaixonados do que nunca. Garrick esforava-se para realizar os menores desejos de La, cobrindo-a de ateno e carinho. E ela, por sua vez, fazia de 
tudo para tornar cada dia especial.
Ela no queria pensar muito na gravidez. Estava por demais apavorada para deixar-se levar por sonhos ou esperanas. Na metade do ms de julho submeteu-se a um exame 
de amniocentese, cujo resultado foi que o beb at ento se encontrava bem. Nem ela nem Garrick quiseram saber o sexo da criana.
s vezes quando estava entalhando objetos em madeira, ou ouvindo msica no gravador de La, Garrick deixava os pensamentos vagarem e, nesses momentos, tinha sentimentos 
confusos em relao ao beb. Oh, 
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claro que queria aquele filho; mas assentia-se pois sabia que ele levaria La para longe. E evitaram tocar no assunto at que ela atingisse a metade da gestao. 
Mesmo na poca em que no comentavam sobre a partida dela, Garrick sabia o que lhe passava pela mente, ao ficar de cabea baixa, pensativa. E ele temia o dia em 
que, afinal, teriam de enfrentar o dilema. E esse dia chegou.
- Temos de conversar, Garrick - ela afirmou sentando-se ao lado dele no balano que haviam colocado na varanda.
- Eu sei.
- O dr. Walsh quer que eu me mude para perto do hospital.
Garrick balanou a cabea em silncio.
- Voc vai comigo? - ela perguntou.
De olhos fixos nas rvores  sua frente, Garrick suspirou fundo. Quando falou, sua voz era decidida:
- No posso.
- Se quiser, pode.
- No posso.
- Por que no?
- Porque meu lugar  aqui. No poderia viver novamente numa cidade.
- Pode, se realmente se esforar.
- No.
- No estou lhe pedindo que se mude para sempre. Seria por quatro meses, mais ou menos. Dr. Walsh est pensando em fazer uma cesariana em dezembro.
Garrick engoliu em seco.
- Estarei l com voc.
- Mas eu quero voc comigo todo o tempo. Ele a encarou, srio.
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- No posso, La. No posso...
La tentava ser compreensiva, mas Garrick no a estava ajudando muito.
- Por qu? Por favor, me diga por qu?
Ele se levantou de repente do balano e, com apenas um passo j se encontrava encostado na grade da varanda, de costas para La.
- H muita coisa a ser feita por aqui. A estao de caa comea no final de outubro, e tenho de preparar tudo at l.
- Garrick, voc quer mesmo este beb?
- Que pergunta boba; voc sabe que sim.
- Voc me ama?
- Claro!
La levantou os olhos para ele que continuava de costas.
- Ento, porque no pode fazer isso por mim? Pelo beb... Por ns?
- Voc no compreende - gemeu Garrick.
- Eu entendo sim! - ela gritou, levantando-se do balano e indo para o lado dele. - Voc tem medo... das pessoas, da cidade, medo de ser reconhecido. Isso  ridculo, 
Garrick! Voc construiu uma nova vida. No tem nada de que se envergonhar!
- Tenho sim, passei dezessete anos agindo como um imbecil.
- Voc pagou o preo e reconstruiu sua vida. E da se algum reconhecer voc? Tem vergonha do que  agora?
- No!
- Ento, por que no pode viver de cabea erguida?
- No tem nada a ver com orgulho. O que sou agora  mil vezes melhor do que j fui. Voc  a melhor coisa que j tive na vida.
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- Ento, Garrick... por que fica nervoso cada vez que nos aproximamos de uma cidade? Pensa que no vejo? Seus ombros ficam tensos, voc abaixa a cabea, evita olhar 
para as pessoas. No entra em restaurantes, s pensa em voltar para c.
- Est cansada de no poder ir  cidade quando quer?
- Claro que no! O que no suporto  ver o jeito como voc fica. Eu amo voc; tenho orgulho de voc. Me machuca v-lo pelos cantos como... se estivesse sendo caado.
- Eu sei tudo sobre armadilhas e caa. s vezes a gente no as v at que esteja irremediavelmente preso.
- Aja como um coiote, que nunca  preso duas vezes na mesma armadilha.
- O coiote  um animal. Eu sou humano.
- Isso mesmo. Voc  inteligente, forte...
- Forte? Nem tanto. O que tive por dezessete anos, La era uma espcie de doena. Um vcio. E, se h coisa que um ex-viciado no pode fazer,  deixar que lhe apontem 
o vcio bem debaixo de seu nariz. No quero entrar em restaurantes que possuam um bar, porque teria de caminhar entre todas aquelas garrafas, at chegar  minha 
mesa. No gosto de encarar estranhos, pois se me reconhecerem passaro a me olhar de maneira diferente. No assisto televiso, nem vou ao cinema.
- No confia em si mesmo. - Ela entendia finalmente a extenso do medo de Garrick.
- No. Quando voc chegou, pensei que fosse uma reprter. Queria me livrar de voc o mais rpido possvel. E, sabe por qu? Se uma reprter, especialmente uma reprter 
bonita, viesse me entrevistar, eu me sentiria importante. Ento, eu iria pensar que j paguei minha pena e, quem sabe, poderia tentar tudo de novo.
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- Mas voc diz que no quer mais!
- Quando estou aqui, no. Quando sou racional, no. Mas, quem disse que, aps ter agido como um irracional por tantos anos, eu no teria uma recada?
- Voc no faria isso. No depois de tudo que passou.
- Isso  o que digo a mim mesmo - ele declarou, cansado. - No sei como reagiria cara a cara com a tentao.
- No acha que est na hora de tentar? No pode passar o resto de sua vida se escondendo. - Ela acariciou-lhe o rosto de leve. - Voc tem sido feliz aqui. No seria 
bom provar a si mesmo de uma vez por todas que tem fora e coragem, como eu sei que voc tem?
- Voc me ama. V o mundo sob lentes cor-de-rosa. La deixou as mos carem, suprimindo um gesto de
raiva.
- Minhas lentes so transparentes. Eu amo voc, mas j passei por um casamento falido e sei ser realista em matria de amor. Entrei nesta relao de olhos bem abertos...
- No sei no...
- Entrei sim. Ora, Garrick, vejo muito os bem seus defeitos; todos ns os temos. Isso  que significa ser humano. Voc conseguiu vencer suas prprias fraquezas uma 
vez. Porque no tenta vencer esta ltima?
- Porque tenho medo de falhar! Posso encarar a tentao e no resistir. E o que aconteceria a mim, a ns e ao beb?
- No vai acontecer nada - ela falou baixinho.
-  uma garantia?
- A vida no nos d certificado de garantia.
- Pois ...
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- No entanto, voc tem muito mais pelo que lutar, agora. Tem uma nova vida; tem a mim. Eu no ficaria aqui sentada vendo voc afundar na lama, se autodestruir. Eu 
te amo, Garrick. Isso no significa nada para voc?
Garrick virou o rosto, procurando pela mo de La, que segurou entre as suas.
- Significa muito, muito mais do que possa imaginar.
- Ento, venha comigo - ela implorou. - Sei que voc teria de deixar de lado a temporada de caa, mas no precisa do dinheiro. Voc mesmo disse. E esta  uma excesso, 
no ir acontecer todo ano. Pode ser que nunca mais acontea.
- Mas, La...
- Preciso de voc.
- Acho que precisa de algo que no posso lhe dar.
- Olhe s pelo que j passou, meu amor! No  qualquer um que consegue dar a volta por cima e se transformar em algum que... - Ela pensou por um instante, ento 
prosseguiu: - Que quer recolher uma desconhecida cheia de lama, mesmo suspeitando que ela est ali para bisbilhotar sua vida.
Garrick sorriu com amargura.
- Voc estava to engraada...
- O fato  que voc quer o melhor para ns. Voc  capaz de fazer qualquer coisa a que se proponha.
- Ah, La... - Ele jogou a cabea para trs. - Voc faz tudo parecer to simples. Talvez eu conseguisse se tivesse voc a meu lado a cada segundo, repetindo tais 
coisas. S que no poderia viver to dependente. No quero. Preciso contar apenas comigo. Aqui sei que posso fazer isso.
- Voc me pediu em casamento. Quer dizer quenunca  tiraremos umas frias, nunca iremos a um lugar diferente?
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- Se voc fica entediada de estar aqui...
- No, e voc sabe disso! Mas todo mundo precisa de uma mudana de vez em quando. Suponha, apenas suponha que nosso beb sobreviva...
- Ele vai viver!
- V, consegue ser otimista com relao ao nosso filho. E eu, embora muito preocupada e no com tanto otimismo quanto voc, estou me arriscando novamente...
- Ns no planejamos; aconteceu.
- Eu poderia ter feito um aborto.
- Voc nunca faria um aborto; no  desse tipo.
- Assim como voc no  o tipo de pessoa que desiste com facilidade. Poderia ter desistido de viver naquele hospital, ou voltar a beber assim que estivesse bem. 
Mas, no. Voc decidiu construir uma nova vida, coisa que poucas pessoas teriam coragem de fazer. Ilido o que estou lhe pedindo  que d mais um passo nessa sua 
caminhada. - Ela balanou a cabea, desalentada. - Garrick, se eu realmente conseguir ter essa criana ela ir se tornar cada vez mais exigente, e haver momentos 
em que desejarei ir para algum lugar a ss com meu marido. Quem sabe um local que tenha o inverno mais ameno, ou mais fresquinho no vero? Pode ser que tenha vontade 
de conhecer um lugar extico, como Pequim ou o Cairo. No teria nada a ver com tdio, ou no gostar de viver com voc e nosso filho nas montanhas. Seria simplesmente 
um desejo natural de ver outras pessoas, aprender coisas novas. Voc recusaria?
Garrick ficou algum tempo em silncio.
- Nunca cheguei a pensar numa coisa dessas.
- Pois ... acho que j era tempo.
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- Antes de voltar a falar em casamento?
- Isso mesmo.
-  um ultimato, La?
- Ultimato? J usei essa palavra vrias vezes em minhas palavras cruzadas... - retirando os culos, ela massageou o nariz. - No,  apenas algo para se pensa
Como La permanecesse de cabea baixa, Garrick fez olhar para ele, com o dedo indicador. As lgrima que turvavam-lhe os olhos atingiram-no em cheio, me; mo assim
ele disse o que estava sentindo.
- Eu te amo, La, e continuarei te amando quer voc  esteja em Concord ou aqui. Mas, no posso ir
com voc. Ainda no. Preciso esclarecer certas coisas para mim mesmo.
Continuo querendo me casar com voc isso tambm no ir mudar. No entanto, talvez fosse bon, ficarmos algum tempo separados um do outro. Enquanto estiver em Concord,
sendo cuidada de perto pelo dr. Walsh, poderei analisar se sou o homem que voc deseja como marido. com ou sem filho, voc merece a chance de ser feliz e, se eu
for um obstculo... ento, seria bom voc ter um tempo para analisar seus sentimentos...
La no sabia mais o que dizer. J havia explicado tudo o que pensava e nada parecia mudar o modo de ele pensar. Simplesmente fechou os olhos e deixou-se envolver 
pelos braos de Garrick.
La partiu no dia seguinte, enquanto Garrick estava nas montanhas. No levou muito tempo para fazer a mala, j que possua poucas roupas. Os objetos que mais queria 
consigo eram seus livros, o gravador e o tear, e estes ela carregou facilmente at o carro. Arrumou tudo o mais rpido que pde, parando apenas para escrever um 
bilhete:
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"Querido, todos ns s vezes nos acovardamos perante a vida e  exatamente o que acontece comigo neste momento. No tive coragem de me despedir de voc. Telefonarei
de Concord hoje  noite para lhe dizer onde vou ficar.
Te amo, sempre La"
Embora ela no tivesse consulta marcada para aquele dia, La foi rapidamente atendida pelo dr. Walsh.
- O que houve? No est se sentindo bem? - ele perguntou assim que ela estava acomodada no consultrio.
- Est tudo bem - La forou um sorriso. - Mas acho que poderia me ajudar a resolver um probleminha. Acabei de chegar e... bem, no tenho onde ficar e, como o senhor 
est acostumado com a cidade, pensei que pudesse me indicar um local onde pudesse ficar. Um apartamento pequeno, mobiliado talvez.
Walsh ficou calado por alguns instantes, os olhos plcidos dando coragem a sua paciente.
- Voc est s - refletiu em voz alta.
- Sim.
- Onde est Garrick?
- No chal.
- H algum problema entre vocs, La?
- Nada srio. Ele acha que no poderia ficar aqui Por tanto tempo...
- E como se sente em relao a isso?
- Bem.
- Mesmo?
- Acho que sim.
Mais uma vez o mdico silenciou, passando a mo pe Io queixo bem barbeado. Quando falou, seu tom era extremamente gentil.
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- Muitas pessoas acham que meu trabalho limitase  parte fsica das gestantes, examinando uma mulher atrs da outra, prescrevendo vitaminas, trazendo bebs ao mundo.
Porm, h muito mais, La. A gravidez  uma poca de mudanas importantes na vida de uma mulher, que acarreta problemas emocionais tambm. Faz pane de meu trabalho,
e de meu jeito de ser, ajudar as minhas pacientes em todos os sentidos. Do ponto de vista mdico, uma gestao tranquila sem preocupaes  muito saudvel tanto
para a me como para a criana. Ele respirou fundo, colocando as mos sobre a mesa.
- Veja bem, de acordo com seu histrico mdico, voc j tem preocupaes de sobra. Traz-la para perto do hospital me d uma segurana maior quanto  proximidade 
fsica, mas eu pensava tambm que voc ficaria livre de qualquer problema emocional.
- Mas eu estou bem, acredite.
- S que das outras vezes Garrick veio junto. Me diga, La, honestamente, o que a preocupa?
No havia como no se sentir confortvel e segura conversando com aquele homem. Era como se ele possusse um sensor para detectar as necessidades de suas pacientes.
Sabia quando falar e quando se calar.
- O que est sentindo, pelo fato dele no estar aqui com voc? - o mdico insistiu.
- Vrias coisas diferentes...
- Cite uma.
- Tristeza. Sinto falta dele. Sei que faz poucas horas que parti, mas mesmo assim sinto saudade. No  s isso; fico pensando nele sozinho no chal e sinto muita
pena. Sei que  tolice de minha parte, ele j  um adulto, sabe cuidar de si. Garrick viveu sozinho muitos anos antes de eu chegar. Mesmo assim, isso me incomoda...
- Porque voc o ama,  isso. -...
- O que mais est sentindo? - ele a encorajou. La pensou um pouco e depois disse:
- Desnimo. Vivi algum tempo sozinha, sei cuidar de mim mesma. Mesmo assim, aqui estou eu, batendo na porta de seu consultrio pedindo ajuda, sem saber onde passar 
a noite.  como se estivesse...
- Uma mulher grvida se sente muito mais vulnervel.
-  isso, me sinto vulnervel, completamente desamparada.
- E o que mais?
- La levantou um dos ombros colocando a cabea de lado, enquanto abaixava o olhar.
- Raiva. Ressentimento. Garrick tem suas razes, e eu tento aceitar, mas est sendo muito difcil.
- O que est sentindo  absolutamente normal, La.
- Ele at queria se casar.
- Agora mudou de ideia?
- No, porm, mesmo que estivssemos casados, duvido que ele viesse para c, comigo. Ele tem um... problema. E no posso coment-lo com o senhor.
- E respeito voc por isso, La. Pretende entrar em contato com ele?
- Eu disse que telefonaria hoje  noite.
- Acha que ele vir visit-la.
- No sei. Ele falou que estaria aqui quando o beb nascesse.
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- Bem, ento vamos esperar pelo curso natural dos acontecimentos. E fique tranquila, no fim tudo vai dar certo.
- Espero doutor, espero...
- E quanto ao seu pedido, acho que tenho a soluo perfeita: voc pode ficar na minha casa.
- Na sua casa?
- Eu e minha esposa h alguns anos resolvemos deixar Nova York. Sabe, ela est muito doente, presa em uma cadeira de rodas. Estava sendo difcil continuar numa metrpole 
como aquela.
- Sinto muito - ela murmurou.
- Bem, quando fui chamado para dirigir o departamento de obstetrcia deste hospital, procuramos uma casa que tivesse lugar para acomodar nossos filhos, quando viessem 
nos visitar. H, portanto, um apartamento pequeno junto  garagem, totalmente mobiliado e independente da casa. Se quiser aceitar, ficaria perto do hospital e do 
mdico. Alm do mais, Susan adoraria ter companhia.
- Eu no poderia...
- Voc no atrapalhar em nada, e eu teria certeza de que estaria confortvel.
- Eu no lhe causaria problemas, doutor?
- Olhe, deixe-me lhe dizer uma coisa, La. Um dos motivos pelo qual quis deixar Nova York,  que j estava cansado dos regulamentos que transformam a rela co mdico-paciente 
numa coisa fria e impessoal. E aqu em Concord consegui mudar um comportamento que para mim sempre foi deplorvel.
- Gostaria, ento de pagar um aluguel. - Ela franziu os olhos, fazendo uma careta - Ah, da ltima vez
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que me preocupei com aluguel, a casa havia sido destruda.
- Este apartamento no foi destrudo e, se a faz sentir-se melhor, pode pagar o aluguel.
- Ento, aceito - ela sorriu. - Obrigada, dr. Walsh,
- Obrigado voc! Fez com que eu ganhasse meu dia.
- Ante o olhar surpreso de La, ele explicou. - Quando consigo fazer um paciente sorrir, especialmente uma que estava to triste quanto voc, sei que estou fazendo 
meu trabalho direito.
- E est mesmo - O sorriso de La alargou-se. Pode ter certeza, dr. Walsh.
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CAPITULO IX
O apartamento junto  garagem era to confortve quanto o dr. Walsh havia dito. com o espao dividido entre a sala de estar, o dormitrio e uma pequena cozi nh, 
parecia menor que o chal, mas era aconchegante. A moblia em palhinha, e vrios almofades estampados de azul e branco davam um tom informal ao ambiente.
Susan Walsh, apesar de presa  cadeira de rodas encarava a vida com otimismo. Durante o dia La sentiase muito bem, mas  noite, quando deitava-se, a solido lhe 
parecia insuportvel
Fisicamente, tudo ia bem. Consultava-se com o dr. Walsh no hospital, a cada quinze dias e no havia com que se preocupar, j que os resultados dos exames eram tranquilizadores. 
No sentia nada de anormal, apenas os movimentos do beb, que tornavam-se cada vez mais frequentes  medida que as semanas avanavam.
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J se encontrava em Concord havia quase um ms quando acordou uma noite sobressaltada. Ainda de olhos fechados, colocou a mo sobre o ventre. Nada, nenhuma dor, 
nem contrao prematura. Mal respirava, tentando identificar o que a havia acordado, quando dedos carinhosos tocaram seu rosto.
Ela arregalou os olhos e virou-se bruscamente, um grito preso na garganta.
- Psss... - Mos suaves acariciaram seus ombros
- Sou eu.
Tudo o que La podia enxergar eram formas inexatas  luz da madrugada.
- Garrick? - sussurrou, ao mesmo tempo em que agarrava os pulsos que envolviam seus ombros.
- Desculpe se assustei voc.
Ela se afastou um pouco, segurando os braos incapaz de acreditar que era Garrick quem estava a seu lado na cama.
- Assustar? Voc quase me mata - ela exclamou baixinho. - O que... por que... a esta hora?
Ele deu de ombros e sorriu.
- No demorou tanto quanto eu pensava, para fazer as malas.
- Malas?
- Sim, vim ficar com voc.
Repetindo o nome dele, quase chorando, La se atirou nos braos de Garrick, abraando-o com fora.
- Aquele chal no vale nada sem voc - confessou com um sussurro. - Me senti muito mal depois que voc partiu.
La no conseguiu conter um riso nervoso.
- Verdade?
- No sabe como o chal ficou vazio...
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- Oh Garrick... - falou junto ao pescoo dele. Mas, e a sua firme deciso em no vir para c...
- Voc escreveu as palavras certas no bilhete que me deixou. E elas ficaram martelando em minha cabea
at que no aguentei mais. No sei o que vai acontecer aqui
porm preciso tentar. No tenho outra escolha. Estar jun to de voc significa muito para mim.
- Garrick... confie em voc. Confie na sua tenaci dade e tudo vai se resolver.
Eu vou tentar, querida...
- Agora quero muito fazer amor com voc.
- Te amo La... Te amo tanto...
Garrick procurou encontrar interesses prprios en Concord. Assim que chegou inscreveu-se em algumas dis ciplinas na faculdade local.
E os dias transcorriam numa paz imensa. Como " doutor Walsh recomendara exerccios para La, ele sem pr a levava para passear. Numa dessas caminhadas La lhe perguntou:
- Como se sente?
- Nada mau.
- Nervoso?
- At que no. Ningum parece me reconhecer. Nem me olham duas vezes - suspirou. - Se eu no tivesse juzo, acho que ficaria ofendido.
-  justamente porque tem juzo que no est. E a escola? Alguma surpresa desagradvel?
- No.
E Garrick no contou  La sobre a ansiedade que sentira num daqueles primeiros dias, quando tivera vontade de tomar alguma bebida alcolica para relaxar. Nem disse 
a ela sobre as vezes em que permanecera parado,
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olhando os cartazes espalhados pelo campus, oferecendo trabalho em produes dramticas...
Em Outubro, Garrick sentiu muito vontade de mostrar a La as cores do outono vistas do chal, mas no arriscaria uma viagem s montanhas. O beb estava cada vez
maior e o corpo dela cada vez mais pesado; em termos de conforto e segurana, sabia que o melhor seria permanecer em Concord.
Novembro trouxe acentuada queda de temperatura, ao mesmo tempo em que Garrick insistia para que se casassem. Logo, o dr. Walsh recomendou que La permanecesse de 
cama. Ela no gostou da ordem, pois significava o fim de seus passeios ao ar livre com Garrick, alm de ter mais tempo para se preocupar com o parto.
Todos os exames mostravam que La e o beb estavam muito bem.
- Esta criana  enorme - ela reclamou num dia em que se sentia particularmente desconfortvel.
- Tal pai, tal filho - Garrick provocou.
- Ah, isso no sabemos. E se tivermos uma garota?
- Para mim pode ser menino ou menina s quero que corra tudo bem.
Cada vez mais, embora evitasse, La pensava na criana. De que sexo seria, como a chamariam... E, quanto mais sonhava acordada, mais nervosa ficava, j que o momento 
crtico se aproximava rapidamente.
Garrick tambm sentia-se cada vez mais ansioso, mas s uma parte desse nervosismo se relacionava com o parto. Quando estava no campus, via-se cada vez mais frequentemente 
caminhando em direo ao edifcio que
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abrigava o pequeno teatro. Por vezes, ele simplesmente permanecia do lado de fora, olhando. Um dia, porm, aventurou-se a entrar.
O teatro era escuro, com fileiras e fileiras de poltronas vazias, uma das quais ele ocupou enquanto percorria o palco com o olhar. Apoiou o queixo com a mo e observou 
os jovens ensaiando um texto de Tchecov.
"At que esto se saindo bem", ele reconheceu aps algum tempo. Os atores eram interrompidos de vez em quando pela diretora da pea, uma mulher cuja voz podia ouvir, 
embora no conseguisse ver o rosto. E todos prestavam ateno nas orientaes dela e seguiam o que lhes era sugerido.
Garrick ficou imaginando o que teria acontecido, se houvesse escutado os diretores com os quais trabalhara.
Ser que algum daqueles jovens se tornaria um astro? O que fariam aps terminar o curso? Seguiriam para Nova York, tentariam um espetculo na Broadway? Ou trocariam 
tudo por um modo de vida simples, como ele mesmo havia feito?
O que pensariam se soubessem que Greg Reynolds estava sentado no fundo do teatro observando-os? Garrick suspirou. Na certa nem se lembravam mais de Greg Reynolds... 
Alm do mais, no era Greg Reynolds que se encontrava ali incgnito, e sim Garrick Rodenhiser. E incgnito era exatamente como desejava permanecer.
Levantando-se abruptamente, saiu do teatro com pressa.
Dias mais tarde, porm, retornou e se sentou na mesma poltrona para assistir ao ensaio. Ficou olhando sem saber ao certo por que continuava ali, tendo assuntos muito 
mais importantes para tratar?
Voltou l de novo e ficou at que o ensaio terminasse
168
e os atores, um a um, passassem diante dele. A diretora foi a ltima a sair e, enquanto os outros no lhe lanavam um nico olhar, ela parou a seu lado.
Garrick reparou que era uma mulher bonita: alta, esbelta, com os cabelos longos presos num rabo-de-cavalo. Vestia jeans e um bluso e carregava um mao de papis 
junto ao peito. Era mais jovem do que ele esperava, talvez uns vinte e cinco anos.
- Acho que conheo voc - ela disse, olhando-o fixamente.
-  que tenho aparecido por aqui.
- O espetculo estreia no prximo fim de semana. Gostaria de assitir?
- Os ensaios so mais interessantes. Permitem observar o que realmente acontece nas produes.
-  estudante de teatro?
Ele suspirou, preparando-se para levantar.
- No exatamente.
- Um crtico?
Ele deu de ombros e se colocou de p.
- No. E voc, o que faz?
- Estou terminando o meu curso de direo de teatro.
Quando ela se virou e comeou a sair da sala, Garrick a seguiu com o corao palpitante.
- Encenar Tchecov  um trabalho ambicioso - ele comentou.
- Mas o sentido do aprendizado no  este? Um desafio?
Garrick no respondeu. Nunca havia associado suas interpretaes ao aprendizado, e seu maior desafio havia sido aumentar o ndice de audincia a cada semana.
- H muito pblico por aqui?
169
- s vezes. Para esta pea provavelmente no, j qu( o texto  mais srio e pesado. O pessoal daqui prefer enredos leves.
Juntos passaram pelo corredor e alcanaram a porte Logo que o rosto de Garrick foi iluminado pela luz sol, a moa o encarou.
- Voc mora por aqui?
- Temporariamente.
- Est matriculado na faculdade?
- Fao algumas disciplinas.
Pararam nos degraus de cima da escadaria. Ela cor. tinuava a encar-lo.
- Algum curso em especial?
- Latim.
- Que estranho! - a moa riu.
- Algo errado?
- No, no.  que voc me parece familiar. E, a que me consta, no conheo nenhum estudante de latim.  seu primeiro ano por aqui?
" d,
Sentindo-se inexplicavelmente audacioso, apesar das mos estarem suadas, Garrick a encarou, no sem alguma hesitao.
- O que fazia antes de vir para c?
- Trabalhava - ele respondeu.
- Onde?
- Mais para o norte.
A moa franziu as sobrancelhas, fixando o olhar na barba de Garrick.
- Desculpe a insistncia, mas acho que o conheo de algum lugar.
- Devo ser parecido com algum que conhece - ele sugeriu, com falsa indiferena.
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- Pode ser... - Ela arregalou os olhos -  isso! Algum j lhe disse que se parece com Pagen?
- Pagen?
- , aquele personagem da televiso, de alguns anos atrs. Na verdade, seu nome  Greg Reynolds. Eu era adolescente quando ele estava no auge, era um homem muito 
bonito. - A moca enrubesceu, voltando a se concentrar no rosto dele - Ele sumiu de cena assim que a srie acabou. Gostaria de saber o que aconteceu com Greg Reynolds.
- Talvez tenha abandonado a profisso para viver nas montanhas.
- Talvez - repetiu, pensativa, com uma ponta de dvida. - Tem certeza de que no  ele?
"Claro que tenho", Garrick poderia ter dito, ou "Est brincando, " ou "Que  isso? ". Por razes que nem ele saberia explicar, apenas deu de ombros.
- Voc  ele! - exclamou, com um tom de alegria na voz.  Greg Reynolds, agora tenho certeza. Os cabelos esto um pouco diferentes, a barba cresceu, mas os olhos 
so os mesmos... - Ela o olhava de uma maneira, que o deixou constrangido. - Faz de conta que no descobri - falou com ar de superioridade. - Seu segredo estar 
seguro comigo. Prometo. - De repente a maturidade que ela demonstrava desapareceu: - No acredito que  voc! Como era em Hollywood? Deve ter sido maravilhoso trabalhar 
naquele seriado. Eu adoro ver voc! O que tem feito desde ento? J pensou ern trabalhar por aqui? No acredito que tenha abandonado completamente a profisso... 
no depois de tudo aquilo!
- Abandonei - respondeu com calma, embora no conseguisse diminuir o entusiasmo da moa.
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- No tinha ideia de que contvamos com uma clebridade; meus alunos adorariam conhec-lo. Voc seria uma inspirao para eles.
- Acho que no - Garrick comeou a se afastar, mas a garota o segurou.
- Talvez pudesse ao menos falar ao pessoal do grupo de teatro. Sei que os professores e os alunos ficariam to contentes quanto eu, em conhec-lo.
- Obrigado, mas no posso.
Garrick deu alguns passos, mas ela barrou-lhe o caminho.
- Ento, almoce comigo um dia. Nem imagina como eu adoraria ouvir voc contar sobre suas experincias. Puxa, elas dariam um livro fantstico. J pensou alguma vez 
em escrever um livro fantstico. J pensou alguma vez em escrever um livro sobre os anos em que interpretou Pagen?
- No. - Garrick forou o caminho, porm a moa o seguiu.
- Ento, s um almoo... ou jantar? Conheo um lugarzinho timo, muito tranquilo. Ningum ficaria sabendo que estivemos l.
- No tenho tempo.
A jovem parou de segui-lo, mas no resistiu a chamlo novamente:
- Sr. Reynolds?
Ele no respondeu. No era o sr. Reynolds.
Naquela noite, enquanto ele e La terminavam de preparar um cozido, Garrick lhe contou o que acontecera.
- Voc contou a ela quem era? - perguntou perplexa.
- Ela achou que eu era Pagen e no neguei. Foi estranho.
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Acho que no fundo queria que ela descobrisse, mas no consigo entender por qu. Voc sabe como prezo meu anonimato... Por que fiz aquilo, La? - perguntou
empurrando o culos dela com o dedo.
- No sei. Por acaso sentiu algo, sentado l no teatro?
- Quer saber se senti inveja? No.
- No sentiu um mpeto de subir no palco?
- No, no.
- Saudade?
- No senti falta da poca em que trabalhava em teatro ou televiso. Estava muito feliz ali na plateia.
La suspirou aliviada.
- Eu ouvi esse suspiro. Ficou preocupada?
- No quero que sinta falta de nada que diga respeito quela vida - comentou evasiva. - E quanto  garota?
- O que tem ela?
- Acha que, de algum modo, incoscientemente talvez, voc quis impression-la?
- No. Ela  bonita e atraente, mas no como voc
- reforou a negativa com um movimento de cabea.
-  uma atriz?
- No...  diretora, mas isso no tem a menor importncia.
- Claro que tem. Ela est envolvida no mesmo tipo de atividade que voc fazia.
- O que eu interpretava no tinha nada a ver com Tchecov, ou Shakespeare. No, eu no estava tentando inrpression-la.
- Talvez estivesse testando a si mesmo...
- Como assim?
- No deve ser fcil andar pela cidade, esperando
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que algum nos reconhea... E, quando isso aconteceu, voc ficou preocupado.  um modo de superar a situao. Talvez uma parte de voc deseje que as pessoas saibarn 
quem .
Garrick abriu a boca para protestar, porm desistiu e permaneceu em silncio por um minuto.
- Talvez.
- Como se sentiu quando a verdade veio  tona? Suas sobrancelhas espessas franziram enquanto Garrick tentava expressar os pensamentos:
- Meio estranho. Um pouco orgulhoso, mas tambm um impostor. Me soou um pouco vago, como se ela estivesse falando de outra pessoa. A sensao era a de que eu estava 
participando de algum jogo, deixando que ela acreditasse que eu era Greg Reynolds, o superstar, quando eu sabia que no era.
- Ela lhe fez recordar as fs?
- Sim e no. Ela ficou de olhos arregalados e falava alto como uma f tpica, porm no gostei nada daquilo. Na verdade, foi repulsivo. At aquele momento eu pensei 
que ela fosse uma pessoa madura. - Garrick abriu um sorriso. - Tenho de admitir que me senti bem, ao me afastar dela.
- Acha que a garota ficou ofendida?
- Sinceramente, espero que sim. com sorte, nunc mais se aproximar de mim.
- Ela sabe seu nome verdadeiro?
- No! mas sabe que estudo latim. No seria difcil me encontrar. Acho que vou faltar um ou dois dias e ficar aqui com voc. - Ele a encarou srio.
- Covarde - brincou La.
Garrick cobriu as mos dela com as suas e comeo uma suave massagem.
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- Quero ficar por aqui, de verdade. A hora est chegando.
- Faltam trs semanas.
- Como se sente?
- Cansada.
- Emocionalmente?
- Tambm... A espera est me desgastando.
- Tudo dar certo, voc vai ver.
- Nas outras duas vezes tambm diziam isso.
- Voc nunca fez uma cesariana antes. Causa menos sofrimento ao feto durante o parto.
- Espero que sim.
- Tudo vai terminar bem, amor - ele apertou-lhe a mo com fora. - Voc vai ver. Daqui a um ms, teremos uma coisinha linda choramingando em nossos braos.
- Isso  exatamente o que disse a mim mesma durante nove meses, nas duas outras gestaes.
- Mas dessa vez ser diferente.  o meu beb que voc est carregando.
Era suspirou e sorriu com tristeza.
A semana seguinte La passou quase que totalmente na cama, com exceo da hora das refeies. No lia muito porque era incapaz de se concentrar. No tecia j que 
o tamanho da barriga tornava o passatempo bastante desconfortvel. Ento ouvia msica, se distraindo com as novas fitas compradas por Garrick, das quais os dois 
gostavam.
Susan aparecia constantemente para visit-la, na maioria das vezes enquanto Garrick estava na faculdade.
A semana de Garrick j no foi to tranquila. Retornou ao curso sem perder uma s aula e, embora estives
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se precavido, no viu sinal da garota do teatro. No te ceiro dia, exatamente quando comeava a relaxar, ela abordou na sada.
- Tenho de conversar com voc um instante, Rey. nolds - declarou com certo nervosismo. - O que falei naquele dia era srio. Significaria muito para ns se concordasse 
em dar uma pequena palestra.
Ele continuou caminhando sem diminuir o passo.
- No tenho nada a dizer.
- Tem sim. Viveu experincias com as quais apena sonhamos.
- No sou quem voc pensa.
-  sim. Depois que conversamos naquele dia, fui at a biblioteca e estudei detalhadamente alguns microfilmes. A ltima notcia que se teve de Greg Reynolds foi
que ele sofreu um acidente de automvel. Ele sobreviveu e, ento, desapareceu. com o seu rosto e esse corpo, seria muita coincidncia achar que voc no  ele. Pesquisei
a fundo. O verdadeiro nome de Reynolds  Garrick Rodenhiser, o nome com o qual voc est inscrito na faculdade.
- Sou um cidado comum, srta...
- Schumacher. Liza Schumacher.
- No dou palestras, srta. Schumacher.
- Liza. Poderamos reduzir essa conversa para um grupo pequeno se preferir.
- Prefiro ter minha privacidade respeitada.
- Ns pagaremos.
- No, obrigado - ele recomeou a caminhar.
- Uma hora, meia hora.  tudo que pedimos.
- No - foi a resposta. E Liza Schumacher parou de segui-lo.
Mais uma vez Garrick contou a La sobre o encontro. E, novamente, ela quis ter certeza do que ele sentia.
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- Tem certeza de que no quer ir?
- O qu? Falar? Est brincando!
- De certo modo ela tem razo. Voc viveu um tipo de experincia que muitos deles gostariam de ter vivido. No  incomum que representantes de profisses diferentes 
falem a grupos de estudantes.
- De que lado voc est, La?
- Do seu, voc sabe disso.
Garrick ficou de p e se dirigiu  janela.
- Bem, no quero falar, com estudantes ou. qualquer outro grupo. E lhe digo por que: no considero muito o tipo de experincia que tive. Alm disso no me agrada 
a ideia de confessar meus pecados a uma plateia.
- Houve um lado positivo no que fez.
- Pode ser... s que no consigo enxerg-lo. Suponho que eu pudesse contar uma boa estria...
- Garrick...
Ele continuou olhando a janela.
- Por que, realmente, no quer falar com os estudantes?
Garrick ficou em silncio, mas sabia que La suspeitava da verdade.
- Est certo! - ele resmungou, afinal. - Estou  com medo de gostar da sensao de poder que toma conta de ns quando temos uma audincia a nossos ps... Rostos 
extasiados, adulao, aplausos. Se fizer isso uma vez, posso querer faz-lo novamente, e se fizer uma segunda vez, viria uma terceira e a eu poderia me agarrar 
 ideia de que sou um homem maravilhoso.
- Voc  maravilhoso, Garrick.
Ele virou-se e sorriu, voltando a sentar ao lado de La na cama. Aproximou-se e levou as mos dela aos lbios.
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- Voc  a nica que quero ouvir dizendo isso, porque  a nica que me conhece de verdade. Nunca confiei tanto em algum como confio em voc. Sabia que voc  melhor 
do que um analista?
- Verdade? Mas prefiro ser apenas sua mulher - ela afirmou, oferecendo os lbios para um beijo.
A repentina tempestade de neve que caiu durante a primeira semana de dezembro no ajudou em nada a paz de esprito de La. As aulas de Garrick foram canceladas e 
ele permaneceu em casa a seu lado. Ela temia entrar em trabalho de parto de repente e no poder chegar a tempo no hospital.
No entanto, nada aconteceu. E dia aps dia La sentia a criana mais baixa e, embora o dr. Wash houvesse preparado tudo para que a operao se realizasse no dia 
quinze, La achava que o beb no esperaria tanto.
Quando a nevasca diminuiu, foi difcil para ela ver Garrick voltar s aulas. La se sentia fisicamente desconfortvel e muito mal emocionalmente. S quando estava 
com ele  que conseguia se acalmar. Mas no ousou pedir que Garrick no se afastasse. No dia 11 de dezembro, se arrependeu de no ter sido mais egosta.
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CAPTULO X
Garrick acabara de sair da aula, e seguia em direo
seu carro, quando ouviu algum gritando:
- Sr. Reynolds!
S havia uma pessoa que o chamava por aquele nome e a ltima coisa que queria era conversar com Liza
Schumacher. Desejava ir para casa ficar ao lado de La.
- Sr. Reynolds, por favor, espere!
Garrick abriu a porta do carro e teve a ideia de entrar e ir embora sem explicaes. Entretanto, viu que chegara a hora de parar de fugir.
- Sim, srta. Schumacher?
Respirando com dificuldade por causa da corrida, a garota parou a seu lado.
- Obrigada por esperar... minha aula foi at mais tarde.
- Eu tambm j estou atrasado. Deseja alguma coisa?
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- J que no se sentiria  vontade para falar, tive uma ideia. - Ela deu uma olhadela para trs e, para desagrado de Garrick, um rapaz estava indo juntar-se a eles. 
- Darryl trabalha para o jornal local. Eu... ns pensamos que daria um timo artigo...
Garrick franziu o cenho.
- Pensei que houvesse me dito que manteria em segredo.
- Eu sei, mas ento comecei a pensar. No  certo bancar a egosta acerca de...
- Continue!
- No me parece justo me manter em silcio quando sei que voc est aqui na cidade.
- No lhe parece justo em relao a quem?
- Em relao s pessoas que adorariam ler sua histria.
Garrick a estudou fixamente.
- E quanto a mim? O que seria justo ou injusto em relao  minha pessoa?
Liza tornou-se ainda mais teimosa.
- Mas voc  um astro, sr. Reynolds, isso lhe d certas responsabilidades.
- No sou mais um artista, sou um cidado comum
- ele declarou com certo orgulho. - Tenho muitas responsabilidades, mas pelo que eu saiba, nenhuma delas envolve voc ou seus colegas, professores ou amigos. Garrick 
fez um sinal de cabea na direo do rapaz. Ele  seu namorado?
Liza olhou para Darryl, sem entender.
- Ns samos juntos algumas vezes, mas isso no tem nada a ver corn...
- So amantes?
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- Isso no...
Ele se virou para o rapaz:
- Ela  sua amante? Liza ficou vermelha.
- Isso no  da sua conta. No vejo o que minha vida ntima tenha a ver corn...
- Minha vida ntima? - Garrick repetiu. - Viu s srta. Schumacher? Viu como  dificil? Voc no gosta que invadam a sua privacidade, e nem eu a minha! J lhe disse 
que no estou interessado em publicidade. Isso vale para conferncias, palestras, entrevistas, fotos ou seja l o que inventar.
Enquanto ele estivera falando, a expresso de Liza passara de surpresa a desprezo.
- Os jornais estavam certos. Voc  arrogante demais.
- No sou, no. Estou apenas tentando explicar o que sinto a respeito de tudo isso. - E no era s para aqueles dois jovens que ele falava. Aquelas palavras lhe 
davam uma segurana que jamais sentira.
Liza endireitou o corpo com arrogncia.
- Quer saber, para mim voc morreu. Deve ter sa do de cena porque no conseguiu mais nada depois de
Pagen. E, por isso, tem medo de enfrentar as pessoas.
- Sabe de uma coisa, srta. Schumacher? No Cdou a mnima importncia para o que possa pensar de Imim. No estou com medo; simplesmente no estou inIteressado. Escolhi 
abandonar a carreira de ator porque Ino trouxe bem nenhum  minha vida. No quero mais (saber de Greg Reynolds. Meu nome  Garrick Rodenhiser. Tenho uma vida tranquila,
que vale mais do que qualquer outra coisa para mim. Se quiser me entrevistar, ficarei feliz em falar sobre caa, latim ou entalhe em ma
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deira. Quanto  arte de representar, no tem mais nada a ver comigo. J faz tempo que a abandonei e no sinto a menor falta.
-  difcil de acreditar.
- Problema seu.
- Est satisfeito em ser um caador?
- Esta  apenas uma de minhas ocupaes, mas estou, estou muito satisfeito.
- Mas a publicidade...
- No siginifca nada para mim. No quero, no preciso dela. - O tom de Garrick era controlado, porm bastante firme. Ele lanou um olhar mais de pena do que de 
simpatia para Darryl. - Sinto muito no poder ajud-lo, mas no tenho nada a dizer para seu jornal.
- Sr. Rodenhiser! Sr. Rodenhiser! - Uma voz soou, vindo de encontro a eles. Era a secretria do departamento de lnguas que corria at o carro.
- Graas a Deus que ainda est aqui! - ela exclamou, meio sem flego.
O sangue de Garrick comeou a correr com maior rapidez por suas veias e seu corao disparou.
- Suzan Walsh telefonou. Disse para ir encontrarse com La no hospital.
- Meu Deus! - Ele entrou rapidamente no carro, esquecendo-se de Liza, Darryl e da secretria ali parados. Seus nicos pensamentos eram para La e o beb.
Dirigiu o mais depressa que pode, estacionando, afinal, perto da entrada de emergncia do hospital. Aps pedir informaes para meia dzia de enfermeiras, conseguiu 
encontrar o doutor Walsh, que tratou de acalm-lo.
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- A bolsa se rompeu. Ela j est sendo preparada
feara o parto.
- Como ela est?
- Apavorada.
- E o beb?
- At agora est bem. Quero retir-lo o mais rpido possvel.
Garrick comeou a rezar; sabia que o mdico no teria a resposta para a pergunta que mais o atormentava.
Quando entraram na sala de parto, La esticou a mo, agarrando-se na de Garrick.
- Que bom que voc chegou!
- O que aconteceu?
- A bolsa de gua se rompeu. Eu estava deitada na cama e, de repente...
- Vai dar tudo certo... - Ele pousou um beijo na testa coberta pela franja negra. - Agora me diga, como chegou at aqui.
- Liguei para Susan, e ela tomou todas as providncias.
- Fez muito bem em cham-la. Susan sabe como agir numa situao de emergncia.
- A ambulncia no demorou muito.
- Est tudo bem, querida. - Ele passou a mo pelos cabelos de La, enquanto olhava em volta tentando entender o significado de todo aquele movimento na sala.
- Est sentindo dores?
- No - ela mexeu a cabea de leve. - Senti algumas contraes antes, mas agora a anestesia j fez efeito. No sinto nada - Ela apertou a mo de Garrick com mais 
fora. - No sinto nada. Ser que aconteceu alguma coisa?
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Nesse momento, o dr. Walter se aproximou.
- O beb est bem, La. Estamos controlando as batidas cardacas pelo monitor e est tudo em ordem. O mdico olhou de La para Garrick. - Ilido pronto? Ento vamos 
l.
O anestesista ficou ao lado de La enquanto uma enfermeira trazia um banquinho para que Garrick se sentasse.
- Oh, Deus, faa com que o beb sobreviva. - La pediu em voz alta.
- Ele vai viver - Garrick murmurou, procurando pelos olhos do mdico.
- Estamos otimistas - o dr. Walsh declarou. No estava fazendo promessas, mas seu ar confiante ajudou os dois a se sentirem melhor.
- Garrick?
- Sim, amor?
- Correu tudo bem hoje na escola? Momentaneamente ele ficou aturdido. No estava em
condies de conversar sobre banalidades. Porm, logo entendeu que La tentava se acalmar, conversando sobre o dia a dia.
- Tudo timo. Passei no exame de latim.
- Verdade?
- Acha que eu mentiria numa hora destas? Tirei nove.
- Bem que dizem que os alunos mais velhos so os melhores.
- Me livrei de mais uma preocupao hoje.
- Qual?
- Liza Schumacher.
Eles falavam em voz baixa, olhos fixos um no outro.
- O que houve?
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- Ela foi atrs de mim com um jornalista.
- Jornalista?
- Queriam uma entrevista.
- Oh, no! - Agarrou com fora a mo de Garrick, no pelo o que ele havia dito, mas por no compreender o que os mdicos e enfermeiras diziam. Queria perguntar como 
estava indo a operao, porm no tinha coragem suficiente.
Garrick estava no mesmo dilema. Olhava impaciente para o doutor Walsh, mas o mdico estava concentrado em seu trabalho, o rosto abaixado coberto pela mscara. Garrick 
tratou de suavisar a expresso antes de voltarse para La.
- Eu disse a Liza que no estava interessado em dar entrevistas,   a pura verdade.
- Que tentao!
- Para mim no . No estou interessado.
- E se ela j tiver dito a algum reprter quem voc ?
- No me importo. Pode dizer a dez reprteres que continuarei repetindo a mesma coisa.
- E se um deles escrever algo?
- Tudo bem. Podem escrever sobre como construi uma vida nova  melhor para mim. No  o tipo de histria que vende jornais, portanto logo me deixaro em paz.
- Fico feliz - La declarou. Fez ento um movimento de cabea em direo ao mdico: - O que esto fazendo?
- O beb vai indo bem, La - o mdico falou. Vocs dois a continuem conversando. Estou gostando muito do assunto.
- Quero muito nosso beb, Garrick.
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- Eu tambm, amor. Eu tambm. Est sentindo alguma coisa?
- No.
- Nenhuma dor?
- No.
Consciente de que a dor de La era emocional, Garrick dirigiu-se ao anestesista.
- No seria melhor dar algo para que ela dormisse?
- No! - La gritou. - Quero ficar acordada!
- Estamos quase no fim. - Ela ouviu o mdico dizendo.
Isso a acalmou um pouco. Olhou em direco a Garrick, procurando tambm acalm-lo.
- Quando sero os outros exames?
- Daqui a uma semana. Mas acho que no vou faz-los...
- Oh, no, depois de todo trabalho que teve?
- S estou fazendo esses cursos para passar o tempo.
- Ento, preste os exames para passar o tempo. Eu ajudo voc a estudar.
- Mas, pode ser que voc...
Um chorinho fez com que Garrick interrompesse suas palavras. Seu corao disparou e ele levantou a cabea em direco ao mdico.
As palavras pareciam estar presas na garganta de La.
- Garrick? - Ela chamou mais alto.
O choro ecoou, mais alto, pela sala, seguido pelo comentrio do doutor Walsh:
- Mas que menina robusta!
- Menina - La disse com voz entrecortada, procurando por Garrick com os olhos cheios de lgrimas.
Ele havia se levantado do banco, fixando o olhar na pequena criatura nos braos do mdico. Um bracinho
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gorducho balanou no ar. Sem conter as lgrimas que brotavam em seus olhos, se virou para La:
- Ela  linda...
- Veja La! - disse o doutor Walsh, mostrando-lhe o beb.
Ento, La a viu. Braos e perninhas agitavam-se ao som de poderosos pulmes.
- Ela est viva...  linda... Garrick... voc viu? falou chorando.
Garrick abaixou-se, encostando o rosto molhado na testa de La.
- Meu amor... Como estou feliz...
- O show terminou. - Era a voz do neonatologista, tomando a recm-nascida nos braos continuou: Desculpe, pessoal, mas agora ela ser minha por alguns minutos. - 
E saiu levando a menina para os primeiros exames.
Garrick e La ficaram ali de rostos colados, chorando baixinho de alegria e gratido.
- Amanda.  um nome to lindo quanto ela - disse La, deitada na cama com Garrick a seu lado, o rosto repleto de orgulho.
- O neonatologista disse que est tudo em ordem com ela. Ficaro de olho por alguns dias, mas no prevem nada de errado.
- Trs quilos e meio.
- Nada mal para uma garotinha.
- Oh, querido, estou to feliz! - La sorria sem parar, assim como Garrick.
- Obrigado, querida. Obrigado por me dar uma filha to linda, por fazer com que eu passasse a confiar em mim e por me amar.
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La o puxou para si, dando-lhe um beijo.
- Eu que agradeo a voc... Me sinto completa. J avisou Vitria?
- J. Ela disse que vem no final da semana. Insistiu em me ajudar a levar voc e o beb para casa.
- Levar o beb para casa... - La sorriu enlevada.
- Nunca pensei que um dia diria estas palavras. - Pela primeira vez, ento, seu sorriso desapareceu. - Garrick! Roupinhas, fraldas, um bero! Ns no temos nada!
- Aps duas gestaes fracassadas, ela se tornara supersticiosa e insistira em no comprar nada at que o beb nascesse.
- No se preocupe. Comprarei um bero amanh mesmo. E, quanto ao resto, Vitria j se encarregou de tudo.
- Vitria? Mas, ela no pode...
- Ah, se pode!
- Mas Garrick, no  justo.
- Duvido que possamos faz-la mudar de ideia. Quando liguei para avis-la que o beb tinha nascido quis desligar logo o telefone para pegar as lojas ainda abertas.
La riu alto.
-  bem prprio dela.
- Vitria se sente responsvel pelo beb.
- Aquela mulher no existe. Ele a beijou no nariz.
- Garrick?
Mas no foi ele quem respondeu.
- Olha, ol. - A voz de Susan veio da porta. O marido empurrava a cadeira de rodas, seguido por um homem que La nunca vira antes.
- Ah, nossos visitantes - Garrick ficou de p, beijou Susan e apertou a mo do dr. Walsh e do outro homem.
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Depois, voltou-se para La: - Querida, cumprimente o juiz Hopkins. Ele veio nos casar. f- Nos casar? - exclamou
La. - Mas, no podemos nos casar agora!
- Por que no?
- Olhe s para mim! Meus cabelos esto horrveis, eu...
- Pelo menos est de branco - brincou o dr. Walsh.
- Uma camisola de hospital. No posso ao menos trocar de roupa?
- Aqui est - Susan entregou-lhe uma caixa que trazia no colo. Depois, dirigiu-se aos homens: - Agora saiam, deixem a noiva trocar de roupa. Gregory, seja bonzinho 
e mande uma enfermeira vir nos ajudar.
E foi assim que La se casou, usando a camisola e o robe cor-de-rosa que Susan lhe dera de presente. Garrick, com a mesma roupa que vestira para ir  aula ficou 
a seu lado, dando-lhe a mo, enquanto o juiz celebrava a curta cerimnia.
Ao final, o dr. Walsh, abriu uma garrafa de champanhe.
- Voc no pode beber por enquanto. Daqui uns dias poderemos comemorar direitinho. Agora, d s uma moIhadinha nos lbios - Garrick disse ao ouvido de La, segurando 
a taa de champanhe.
Cinco dias depois, La e Garrick levaram Amanda para o pequeno apartamento sob a garagem. La se recuperava rapidamente e o beb demonstrava ser to sadio quanto 
os pais haviam rezado para que fosse.
Vitria, que se hospedara com os Walsh, dispu tava com Garrick a honra de dar banho e trocar as fraldas.
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La decidira amamentar Amanda no peito e adorava os momentos que passava a ss com o beb. No entanto, as vezes em que Garrick estava a seu lado observandoas eram 
ainda mais especiais.
- Adoro ver vocs duas assim...  to lindo. - No consigo pensar na vida sem voc, La. Voc... Amanda... quando penso na vida intil que tive antes...
- Esquea o passado - La falou, inclinando o rosto para que ele a beijasse. - Temos um presente maravilhoso. Agora vamos nos preocupar apenas com o futuro.
Conversaram muito sobre o futuro que os aguardava e Garrick decidiu que terminaria os cursos que estava fazendo. Mesmo com o beb em casa, conseguiu estudar e, alm 
de passar nos exames, foi aceito em Dartmouth, para um curso avanado de latim.
- Voc vai gostar de Hanover.  uma cidade com muito charme.
- Sei que vou gostar. Mas, e quanto a voc? No vai sentir falta da cabana?
- Para dizer a verdade, no. - Ele ficou to surpreso quanto La, com a rapidez de sua resposta. Adoro aquele lugar, mas minha vida est to completa que mal penso 
no chal. Podemos ter uma casa em Hanover e usar o chal para as frias.
E foi exatamente o que fizeram. com Amanda num moiss, procuraram at encontrar uma linda casa estilo vitoriano em Hanover, a poucas quadras da faculdade onde Garrick 
estudaria. Nas frias, cada vez que o tempo permitia, eles seguiam para as montanhas.
Em junho, pouco antes de irem para o chal, nas frias de vero, Garrick fez uma proposta  La:
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- Que tal irmos para Nova York? - Os olhos dela se iluminaram.
- Nova York?
La o enlaou pela cintura.
- Eu adoraria, Garrick. Mas tem certeza de que quer ir?
- Tenho. - Ele deu uma piscadela - Quem sabe teremos um tempinho s para ns dois?
A viagem foi maravilhosa sob todos os aspectos, embora tanto Garrick quanto La ansiassem pela hora de irem para as montanhas.
Em Nova York ficaram sabendo que Richard tivera outro filho natimorto. Aps vrios exames, os mdicos haviam descoberto que ele tinha um problema gentico que era 
a causa de seus filhos no sobreviverem ao parto. La ficou triste pelo ex-marido, mas no pode deixar de sentir um grande alvio.
- Tanta preocupao por nada - exclamou La, porm Garrick discordava.
- No, meu amor. Tudo foi escrito para que nos encontrssemos. Se voc no aparecesse no chal, eu ficaria l para sempre.
La estava feliz. A autoconfiana de Garrick fora restaurada e o respeito por si mesmo tomara novas dimenses.
- Isso quer dizer que poderemos ter outros filhos - Garrick se animou.
- Sem preocupaes exageradas.
- Mas no j.
- Quem sabe, quando Amanda tiver uns dois anos?
- A poderemos tentar um menino.
- E como pretende fazer isso?
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- Andei lendo um artigo numa revista mdica...
- E desde quando se interessa em ler artigos que ensinem a programar o sexo de bebs?
- Desde que o mundo se abriu para mim e pude voltar a sonhar.
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Fim
